domingo, 31 de maio de 2020

Melhores dias terão que vir…

J.-M. Nobre-Correia
Com a recente “ajuda aos média” perdeu-se a oportunidade de abordar o fundo da questão da pobreza da imprensa…
Estranho ballet a que assistimos há meia dúzia de meses em torno dos média! Ou é o presidente da República que, na sua obsessão de omnipresença, pede para que o Estado os ajude. Ou são o Sindicatos dos Jornalista e a Associação Portuguesa de Imprensa que vão a Belém mendicar ajudas (como se vivêssemos em regime presidencial). Ou são patrões dos média (com proprietários por vezes de países democraticamente pouco recomendáveis) que desfilam na Presidência da República a estender a mão ao Estado. Ou é o próprio governo que mete um pouco os pés pelas mãos, atribuindo ajudas sem previamente esclarecer os critérios adotados e corrigindo depois a grelha anunciada. Ou são até alguns que publicamente pedincharam e dizem agora que, não Senhor, como grandes liberais que são, visceralmente anti-Estado, não pediram nada, o dito Estado não tendo sido generoso com eles!…
Neste ballet com alguns “pas de deux” plenos de humor, perderam-se de vista aspetos essenciais. As ajudas atribuídas foram teoricamente consequência da perda de receitas publicitárias provocada por longas semanas de pandemia e, no caso da imprensa, da queda das vendas em banca. Mas a preocupação em finais do ano passado era antes procurar relançar uma certa dinâmica no sector dos média, num país onde, globalmente, a imprensa e o jornalismo são extremamente pobres. A pandemia foi-se assim fazendo esquecer aquela que é de facto a urgência absoluta: modernizar fundamentalmente a informação escrita deste país.
Portugal conta pouquíssimos diários e semanários de informação geral, publicados quase unicamente na faixa litoral centre-norte, sendo as tiragens deles exageradamente baixas em relação à demografia do país. Depois há numerosíssimos periódicos locais e regionais que, na maioria dos casos, se encontram ainda naquilo que poderíamos chamar a fase pré-industrial da imprensa. Com redações muitas vezes reduzidas à sua mais simples expressão. Com periodicidades tão espaçadas que é impossível seguir realmente a atualidade. Com tiragens que os impedem atingir leitorados suficientemente vastos. E com conteúdos que pouco têm de jornalismo profissionalmente competente e independente.
Ora, era no desenvolvimento desta imprensa (em papel e/ou em digital) nacional ou regional que deveriam ser investidos fundos públicos. De modo a permitir que os jornais “nacionais” reforcem fortemente equipas de redação e de gestão. Que se dotem de correspondentes na província e no estrangeiro, prioritariamente lá onde se decidem os destinos do mundo e onde as populações lusófonas são numerosas. Que possam propor edições digitais para as diferentes regiões do país e edições internacionais para os leitores em África e na América, edições autónomas em termos de conteúdos jornalístico e publicitários.
Na imprensa local e regional deveria procurar-se fomentar a concentração dos meios financeiros, técnicos e humanos. A grande maioria das publicações semanais, quinzenais e mensais atuais não satisfazem minimamente os critérios elementares de exigência em matéria de informação, de factualidade, perspetivação e análise. Há que favorecer o aparecimento de verdadeiros semanários e de alguns diários capazes de propor uma cobertura da atualidade abundante, fruto de redações suficientemente numerosas, diversificadas e competentes, e de administrações conhecedoras das especificidades da economia dos jornais (em papel ou em digital).
Nestes tempos de pandemia, os 15 milhões que acabam de ser atribuídos a um certo número de média são de facto uma “ajuda” como tantas outras anunciadas para outros sectores de atividade. Mas foram de certo modo uma “ajuda” dada a fundos perdidos, pois ninguém imagina que venham a provocar inovações na conceção editorial ou na gestão das empresas beneficiárias. Enquanto a grande mutação de fundo que é urgente pôr em marcha na informação escrita continuará à espera de melhores dias. A menos que se continue a pensar que a democracia em Portugal não precisa de grandes jornais para informar os cidadãos, nem para suscitar análises e debates de fundo sobre o futuro incerto da sociedade em que vivemos: o que seria deveras preocupante…
Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles, autor do livro Média, Informação e Democracia (Almedina).
Texto publicado no diário Público, Lisboa, 30 de maio de 2020, p. xx.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

As palavras como traição

J.-M. Nobre-Correia
Há sempre qualquer coisa de estranho quando um média fala de um cidadão estado-unidense dizendo ou escrevendo “afro-americano”. Mas, claro — já repararam? —, nunca dizem ou escrevem um “euro-americano”!…
No primeiro caso, trata-se de um “negro”: é isso que os média nos querem significar. No segundo caso, não o qualificam com um prefixo porque se trata de um estado-unidense “branco”, que faz parte do grupo étnico que globalmente detém o poder económico, político e militar.
Depois, as raras vezes que os média têm que falar daqueles que são os verdadeiros americanos, que têm historicamente como origem a América, o continente americano, chamam-lhes “índios”…
O que quer dizer que os termos que os média utilizam nunca são neutros. São muitas vezes fruto de uma mera inconsciente irresponsabilidade, atribuível até à pura ignorância. Porque os termos que os média empregam são de facto traiçoeiros e traduzem, com maior ou menor subtileza, uma maneira de nos propor uma leitura da história e uma perceção particular da realidade social…

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Aquelas coisas que se vão repetindo…

J.-M. Nobre-Correia
Em matéria de imprensa, fazem-se para aí afirmações totalmente desprovidas de fundamento. Mas a gente do meio quer lá saber disso…
Em reação a um texto intitulado “Grupo de cidadãos pede urgente classificação do arquivo do DN”, aparecido esta manhã no Público, Pedro Tadeu publica esta tarde um interessante artigo no Diário de Notícias em linha.
Tadeu ocupou postos de responsabilidade na direção do Diário de Notícias e assina o dito artigo como “diretor da Direção de Documentação e Informação da Global Media Group”, o grupo proprietário do jornal.
No dito texto, Tadeu faz no entanto uma afirmação que é uma velha lengalenga a propósito do Açoriano Oriental: “o mais antigo diário da Europa, fundado em 1835”. Afirmação que não tem fundamento algum.
Há uma vintena de anos, o então diretor Gustavo Moura (falecido no ano passado) escreveu-me para Bruxelas, pedindo-me para eu lhe confirmar tal estatuto de “mais antigo diário da Europa”. Respondi-lhe com um correio relativamente pormenorizado que não lhe deve ter agradado, …dado que nunca agradeceu a resposta. E a lengalenga foi continuando a ser repetida por aí pelas mais diversas “autoridades” do meio!…
Ora, tal afirmação contém de certa maneira dois dados que não correspondem à realidade dos factos. O primeiro é que o Açoriano Oriental, lançado em 18 de abril de 1835, era na origem um semanário e só adotou a periodicidade diária em 3 de janeiro de 1979 (quer dizer: 144 anos depois). Pelo que é solicitar “a ferros” um estatuto de “mais antigo diário”, quando o é apenas há 41 anos.
Quanto à pretensão de ser “o mais antigo diário da Europa”, ela não tem fundamento nenhum. Há bastantes diários por essa Europa foram criados antes de 1835 (…para não falar de 1979). Um exemplo conhecido por todos aqueles que têm algumas noções de história da imprensa: The Times, de Londres, foi lançado em 1 de janeiro de 1785 (chamava-se então Daily Universal Register, tendo adotado o nome atual exatamente três anos depois).
Já menos conhecidos são os casos de dois diários italianos que se publicam ainda hoje: Gazzetta di Mantova, de Mântua, lançada em junho de 1664 (mesmo se o nome só data de 3 de janeiro de 1807), e Gazzetta di Parmalançada em 1735 (o primeiro número conhecido datando de 19 de abril de 1735).
É inútil continuar a lista. Mas seria bom que no meio profissional não se continuassem a fazer tais afirmações que dão prazer aos “bons patriotas” e sobretudo aos nossos amigos açorianos. Pela simples razão que tais afirmações não têm ponto por onde se lhes pegue…

sábado, 9 de maio de 2020

O culpado é bem conhecido!

J.-M. Nobre-Correia
Estes telejornais, à hora do almoço ou do jantar em família, são uma provocação que suscita irritação …ou sorrisos amarelos!
Ver um telejornal português às horas das principais refeições constitui um momento perigosamente favorável para uma suprema irritação …ou para provocar amargos sorrisos amarelos!
Eu resumo: esta pandemia que por aí anda é manifestamente obra do governo. Não há dúvidas! Sabe-se lá até se não foi o próprio governo que fez importar esse tal coronavírus… Mas o que é claro é que o governo tem gerido muito mal esta pandemia (digam lá o que disserem os média de referência estrangeiros: nós é que cá vivemos!)!
Quem sabe bem o que se passa e diz tudo claramente sobre o assunto são essas ordens e esses sindicatos todos que por aí há. Sobretudo os seus formidáveis bastonários, presidentes e demais secretários gerais. Tudo gente altamente competente em tudo e desta feita competente em virologia e infetologia. É verdade que nenhum deles tem a intenção de meter as mãos na massa. Que nenhum deles quer assumir responsabilidades. E muito menos querem procurar resolver situações no próprio sector. Antes pelo contrário: como grandes líderes de “classe” que são, fazem tudo para complicar. Até porque é isso que lhes dá visibilidade nos média. Nem é preciso telefonar para solicitar os jornalistas: são estes que correm à procura das palavras decisivas dos “queridos líderes”…
Ora, como eles dizem, nesta história de coronavírus, a culpa é indiscutivelmente do governo desse tal Costa! Só pode! A prova é que, ao contrário do que aconteceu por cá, todos os países europeus, todos os governos europeus estavam preparadíssimos para esta pandemia! Quando a epidemia deu os primeiros sinais na China, estavam todos devidamente equipados e tinham tudo programado para desencadear o contra-ataque ao coronavírus. Daí os resultados formidáveis, praticamente sem infetados e sem mortos, em Espanha, em França, na Bélgica, na Grã-Bretanha, na Itália e por aí fora…
Para que serve ler diários, ouvir rádios ou ver televisões ditos “de referência” de diferentes países? Eles sabem lá do que falam: nós é que cá vivemos. E as nossas televisões é que sabem e dizem as verdadinhas todas: abençoados sejam os nossos jornalistas e demais “comentadores”, tudo gente altamente qualificada, competente e de indiscutível independência política…
Dito isto, deixa-me cá desligar esta porcaria da televisão portuguesa, de maneira a manter um pouco de serenidade e de clareza nas ideias!…

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Uma magnífica reportagem!

J.-M. Nobre-Correia
É raro, muito raro, mas por vezes acontece. E a RTP, numa iniciativa pessoal de um seu jornalista, mostra-nos um país desconhecido…
A RTP passou ontem na segunda parte do seu telejornal das 20h00 uma magnífica reportagem sobre a vida das gentes de Monsanto (“a aldeia mais portuguesa de Portugal”, diziam os salazaristas!), na Beira Baixa, nestes tempos trágicos de pandemia. Uma reportagem tanto mais magnífica que foi tecnicamente realizada e sonorizada em telemóvel pelo seu autor, João Pedro Mendonça (é justo que aqui se escreva o seu nome). Uma reportagem de iniciativa manifestamente pessoal de um jornalista em confinamento obrigatório.
Só que esta reportagem é um belo exemplo deste Portugal desconhecido que as televisões e demais média nacionais poderiam e deveriam mostrar-nos e não nos mostram. Porque o Portugal deles é sobretudo, e mesmo quase exclusivamente, o de Lisboa e um pouco o do Porto. O resto do país não existe! O país “do interior”, o tal “das baixas densidades”, para eles não existe, salvo grande catástrofe ou miserável “faits divers”. E é assim desde meados do século XIX, pelo menos, desde que a industrialização da imprensa a destinava a um vasto público…
Desde logo, “amor com amor se paga” e os jornais ditos “nacionais” pura e simplesmente não são comprados nem lidos por estas paragens votadas ao abandono e que eles, jornalistas e média “nacionais”, desconhecem e querem continuar a ignorar…

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Estes inconscientes que nos informam

J.-M. Nobre-Correia
Da extrema direita vem uma proposta de confinamento de um grupo sociocultural. E há logo um média para fazer disso tema de debate !…
Aquilo que leio por aí sobre a emissão desta manhã do “Fórum TSF” prova claramente que anda muita gentinha a ganhar a vida com uma “carteira profissional de jornalista” que tem falta de pelo menos três formações essenciais de base. Para começar, uma necessária formação jornalística académica séria. Depois, uma indispensável formação cultural vasta e suficientemente aprofundada. Por fim, e sobretudo, uma formação democrática no sentido forte da palavra, que deveria aliás ser condição sine qua non de acesso à profissão.
A exigência destas três formações compreende-se tanto melhor quando sabemos que o jornalismo constitui uma componente essencial do debate democrático. Ao mesmo tempo que constitui um mecanismo de controlo do funcionamento democrático da sociedade em que vivemos.
Mas o erro jornalístico, cultural e democrático da TSF esta manhã vai uma vez mais pôr à prova a ERC. Veremos então se a dita ERC serve para alguma coisa. Se tem realmente alguma razão de existir, tal como é e como funciona. Interrogações que surgem muito naturalmente, dada a inutilidade que tem demonstrado perante tantas e tantas situações inquietantes dos média, e defronte a numerosas derrapagens do jornalismo praticado neste país!…

terça-feira, 5 de maio de 2020

Esbanjar ou saber investir

J.-M. Nobre-Correia
Do mundo dos média surgem pedidos para ajudas financeiras do Estado. Mas há que avaliar a pertinência de tais pedidos…
Nestes tempos de calamidade sanitária, com as sequelas económicas que se imaginam, muitas empresas e instituições pedem dinheiro ao governo. Quer dizer: ao Estado. Ou melhor: a todos nós. Esperando cada uma que sejam, evidentemente, os outros a pagar o crédito que lhes será favorecido.
Entre as suplicantes, a imprensa diária desportiva e a imprensa regional. Ora, no primeiro caso, tal pedido é chocante. Não é esta mesma imprensa que assiste impávida e serena ao escandaloso mercato de jogadores de futebol e de outras modalidades que lembra, mutatis mutandis, os antigos mercados de escravos? Não é ela que recusa denunciar os valores enormes das transações e os salários gigantescos de olimpianos de que ajuda a modelar a imagem pública? Não é ela que se “esquece” de se opor à destruição de estádios para que se construam outros mais faraónicos, nalguns casos largamente vazios agora? Não é ela que só aborda, quando já não é possível deixar de o fazer, a questão das corrupções e malversações que reinam nos grandes (e nalguns pequenos) clubes desportivos?
Em que é que tal imprensa contribui para o bom funcionamento e o reforço da sociedade democrática que justifique uma ajuda financeira pública? Não deveria antes, em vez se voltar para o governo, dirigir-se àqueles a quem dá inestimável colaboração e fortíssimo apoio? Isto é: que peça ajuda aos clubes desportivos e demais vedetas do desporto. Àqueles entre os quais circulam fluxos financeiros gigantescos que passam muitas das vezes por paraísos fiscais. Eles precisam em permanência dela, agora é ela que precisa transitoriamente deles!
Que a imprensa desportiva não venha pedir ajuda ao governo! Até porque ela é um instrumento nefasto de perversão da vida social e até da vida política do país. Lentamente, ao longo de anos, foi inculcando (com a ajuda das rádios e das televisões que temos) a “cultura” de boa parte do desporto e sobretudo do futebol na mecânica intelectual de demasiados cidadãos. Com a sua conceção de batalha campal, de confrontação, de agressão e de violência. Com a sua terminologia em parte inspirada na prática militar da guerra. Com a sua incapacidade para o diálogo, o compromisso e o consenso.
Na Europa anglo-saxónica não há diários desportivos. Em França há um, na Itália três e na Espanha quatro com caráter “nacional”: será normal que em Portugal, demograficamente quatro a seis vezes mais pequeno, haja três? Esta mesma abundância de títulos se encontra na imprensa regional. Só que aqui a questão põe-se de maneira bastante diferente…
É claro que existe uma profusão de jornais regionais no país. Mas, globalmente, estes jornais têm três caraterísticas. Primeiro, no continente, nenhum deles (diário ou periódico) é de natureza a dispensar um média nacional na informação política, social, económica, cultural e até desportiva. Depois, a maioria dos títulos não dispõe de um mínimo de redatores profissionais para assegurar uma cobertura da atualidade substancial de qualidade. E por fim, boa parte deles publicam sobretudo “comunicados” mais ou menos adaptados de instituições e empresas, e são geralmente porta-vozes oficiosos de poderes locais.
Uma ajuda financeira indiscriminada traduzir-se-á neste caso em fundos perdidos a curto ou a médio prazo. Porque o que é necessário fazer não é manter em vida periódicos não viáveis e pouco satisfatórios em termos jornalísticos. A urgência é favorecer uma mutação tecnológica e editorial de fundo, de modo a que surjam nas regiões do interior um ou dois semanários sólidos em cada uma delas, com paginações abundantes e práticas jornalísticas independentes fortes. E porque não favorecer o aparecimento de três ou quatro diários, de modo a propor aos cidadãos das regiões, assim como do resto do país, leituras diferentes da atualidade, escapando enfim àquelas que, ao longo de século e meio, os média de Lisboa e do Porto têm proposto…
Vivemos um momento histórico demasiado incerto para que desperdicemos meios financeiros que já não eram muitos e que serão ainda mais escassos no próximo futuro. Há, pois, que fazer opções que possam realmente contribuir para o pluralismo da imprensa e da informação generalista…
Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles.
Texto publicado no diário Público, Lisboa, 5 de maio de 2020, p. b17.