domingo, 18 de junho de 2017

Esquecimentos elementares

J.-M. Nobre-Correia
Média : Perante catástrofes do género da de Pedrógão Grande, a imprensa diária não pode continuar a ser concebida como há uns 70 anos atrás. Nem a ignorar alguns princípios do b-a-ba do jornalismo…

Os média em Portugal vão mal e até muitíssimo mal. Perante a tragédia que desde ontem continua a desenrolar-se para os lados de Pedrógão Grande, as televisões de informação contínua aproveitam (no desagradável sentido de tirar proveito) para proporem programas que são um “mix” de distração e de sensações quanto mais violentas melhor !
Mas se dermos uma vista de olhos aos quatro diários ditos “nacionais”, somos obrigados a constatar, também aí, a grande miséria em que vivemos. Quando há um encontro de futebol tardio, por exemplo, as direções dos diários atrasam o fecho das edições, atrasam a hora de as mandar para as rotativas, procuram fazer um esforço contrarrelógio na expedição, de modo a colarem o mais de perto possível à atualidade.
Porém, se a atualidade é inesperada, imprevisível, como é o caso com Pedrógão Grande, embora a atualidade tenha eclodido ontem pelas 14-15h00, numa tarde de verão de sábado, é certo, são incapazes de reagir condignamente. Incapazes de atrasar fechos de edições e idas para rotativas. E sem o menor escrúpulo, propõem-nos no dia seguinte, neste domingo, edições completamente inadequadas às circunstâncias.
Um caso é particularmente flagrante : nem uma linha sobre o assunto na primeira página do Público ! E apenas uma coluna de texto na página 12 onde se diz em título que “Incêndio faz feridos em Pedrógão Grande” ( ! ) e se diz depois no texto que tudo começou “às 14h” : e então não houve tempo para fazer jornalisticamente mais e melhor ? O falhanço é total ! E é claro que o qualificativo de “jornal de referência” não explica nada e não justifica nadíssima perante um acontecimento com uma enorme dimensão plural incontestável.
Os outros três diários ditos “nacionais” propõem-nos edições em que não tomam em consideração dois princípios essenciais do jornalismo. O primeiro : já não é a imprensa diária que anuncia os acontecimentos, essa passou a ser (pelo menos desde os anos 1950) a função dos média eletrónicos (rádio, primeiro, televisão depois, e internet, mais recentemente).
O segundo : não se podem avançar como definitivos dados factuais que tudo leva a crer que vão inevitavelmente evoluir. Dizer em título ou em subtítulo que houve “19 mortos” e “20 feridos”, como fazem o Diário de Notícias e o Jornal de Notícias é totalmente absurdo : quando o leitor pegou esta manhã no seu jornal, já sabia pela rádio, pela televisão ou pela internet que estes valores eram muitíssimo mais elevados. Pelo que o dito leitor experimentou a desagradável sensação de ter gasto o seu dinheiro com um jornal já velho, prematuramente envelhecido e ultrapassado.
Este sentimento é particularmente forte quando se vê o título do Correio da Manhã, totalmente absurdo em termos jornalísticos. Um título a toda a largura da primeira página, com nada menos de 6,8 cm de altura : “19 MORTOS”. Só que quando o leitor pode comprar hoje este seu jornal preferido, os mortos já eram 40 a 60, segundo a hora a que foi ao quiosque.
O título de primeira página do Jornal de Notícias era tecnicamente melhor : “TRAGÉDIA”. Mas as duas primeiras linhas de subtítulos, falando em “20 MORTOS” e em “20 FERIDOS” vêm estragar a prudência e o talento de que um “titulador” tem que dar prova em tais circunstâncias.
Simples reparos para os quais as redações terão montes de explicações, não duvidemos disso. Mas reparos que se impõem, quando tantas e tantas noções elementares do b-a-ba do jornalismo, da técnica jornalística, são regularmente e até mesmo permanentemente esquecidas…


sexta-feira, 12 de maio de 2017

Coisas verdadeiramente de pasmar…

J.-M. Nobre-Correia
Média : Folhear e ler jornais portugueses é abrir portas para a descoberta de um mundo de surpresas e emoções, tão grande é a genuinidade do jornalismo nacional ! E isso explica em grande parte a gravíssima crise da imprensa…
No contexto europeu, a imprensa portuguesa constitui verdadeiramente um caso à parte. Não apenas porque a escassez de jornais nacionais é evidente (e os que pretendem sê-lo são antes do mais regionais, em termos editoriais como em termos de “leitorado”). Mas também porque as difusões são inacreditavelmente baixas (ao nível de um Luxemburgo, país com uma demografia 20 vezes inferior e um pluralismo linguístico que limita impreterivelmente as audiências). Mas ainda porque há práticas jornalísticas correntes nas suas páginas que são inconcebíveis para além das fronteiras nacionais…
Sábado passado, o Expresso anunciava na sua primeira página uma “reportagem” e nada mais nada menos do que seis autores de “opinião” sobre a situação política em França. De facto a “reportagem” redundava em três textos de correspondência, género cujas características são bastante diferentes, que mais não seja porque a reportagem supõe que o jornalista vá para o terreno. Que depare com situações e pessoas diferentes e venha a confrontar-se com diversos atores da vida social e (neste caso) política. O que dará lugar a descrições contrastadas, assim como a testemunhos e opiniões que também o são.
Tudo é opinião e todos escrevem opinião
Por outro lado as seis “opiniões” eram na realidade sete, tendo o cronista semanal de política internacional sido esquecido ! E neste caso põem-se três problemas. O primeiro é aquele que consiste, em Portugal, em dar o título de “opinião” ao que deveria dizer respeito à análise ou à crónica, quando os autores fazem parte da redação ou são colaboradores exteriores permanentes (e deveriam respeitar então os princípios de base destes dois géneros jornalísticos). Quando a opinião deveria ser reservada a colaboradores exteriores pontuais em rubrica eventualmente anunciada como tribuna.
O segundo problema é o que decorre do facto de uma tal proliferação de peças de opinião da parte de jornalistas ou colaboradores permanentes. Pela simples razão que a função de uma reunião de redação é precisamente a de estabelecer e coordenar o conteúdo de um jornal e designar nomeadamente a pessoa (ou as pessoas) que (em conjunto) terá(ão) que tratar um tema preciso.
Um último ponto levanta igualmente problema : nos jornais de referência europeus, um jornalista ou colaborador permanente não é um todo-o-terreno em condições de escrever sobre todo e qualquer assunto. Neles, é um especialista da área que virá a assumir a “peça”. O que explica aliás que os editoriais propriamente ditos sejam na grande maioria dos casos escritos pelo(s) especialista(s) da redação, sendo o texto final (anónimo) revisto pelo diretor como primeiro responsável pelas posições assumidas pelo jornal.
Ora, no caso evocado, ter-se-á a pretensão de afirmar que há de facto sete especialistas da situação política francesa na redação do semanário ? Basta ler os textos para ver que não é o caso… É certo que, dada a importância europeia das eleições presidenciais (e das próximas eleições legislativas) francesas, poder-se-ia conceber uma pequena multiplicidade de análises específicas : política interior, política europeia e internacional, economia, por exemplo. Mas não foi manifestamente isso que aconteceu…
Mas os jornais portuguesas destes dias reservam outras surpresas. Como por exemplo, no Diário de Notícias de terça-feira, a entrevista da realizadora de um documentário pela sua prima jornalista ! Coisa nunca vista em mais de cinquenta anos de frequentação diária da imprensa europeia… Com uma exceção, é verdade : quando, no número de 25 de abri de 2014 do mesmo Diário de Notícias, o líder de uma organização ecologista entrevistava um cronista permanente do jornal, entrevistador e entrevistado sendo primos, embora isso não fosse dito nem transparecesse nos nomes de família conhecidos publicamente, ao contrário do que acontece no caso desta semana.
Regras elementares muito esquecidas
Ora há regras elementares a respeitar em matéria de entrevista. Uma delas, essencial, é a do conhecimento prévio pelo jornalista da matéria que vai abordar e da personalidade do entrevistado. Uma segunda exigência elementar é a da indispensável distância entre os dois, entrevistador e entrevistado, distância mais ou menos sensível na escolha dos temas e na formulação das perguntas. Exigência “esquecida” desta vez pela direção do diário e pela jornalista, escrevendo esta aliás logo no início do texto : “Fica esclarecido : Susana e eu somos primas — os nossos bisavôs eram irmãos. Por isso nos tratamos por tu” !
Esta forma de tratamento constitui precisamente outra anomalia, perfeitamente compreensível nas relações sociais entre primas, totalmente inadmissível nas relações de um(a) jornalista com o seu (sua) entrevistado(a). Princípio de base demasiado “esquecido”, é verdade, em boa parte do jornalismo nacional-porreirista praticado neste país, quando o tratamento por tu exclui inevitavelmente o leitor, ouvinte ou espectador da intimidade de que entrevistador e entrevistado nos dão parte.
Última nota da semana : faleceu na terça-feira um vulto do jornalismo e da literatura portugueses. Um arredamento de Portugal durante mais de 45 anos, torna impossível que se possa fazer uma apreciação justa das qualidades profissionais do falecido. Em raríssimas crónicas lidas, fulanização e a compinchisse eram por demais evidentes. E a crónica escrita por ocasião da saída do Diário de Notícias, os grandes elogios sobre a antigo diretor do jornal e as duras críticas ao novo diretor não faziam claramente parte do que melhor se escreve em matéria de crónica jornalística. Consideração que fica aqui, contrariando aquilo que António Paulouro aconselhava ao redator-estagiário : quando alguém morre, só se podem escrever apreciações positivas sobre o falecido. Declaração de princípio formulada de facto em termos algo mais agrestes !…

sábado, 22 de abril de 2017

Anomalias e incertezas

J.-M. Nobre-Correia
Política : A campanha para as eleições presidenciais marcará data na história de França. Até porque nada se passou na relativa quietude habitual. E porque as consequências são demasiado imprevisíveis…
Decididamente, a campanha para as eleições presidenciais em França terá sido do início ao fim marcada por toda uma série de anomalias. O que a transformou num oceano de incertezas não só sobre os destinos da França como também da União Europeia. Para além de anunciar muito provavelmente uma nova cartografia da paisagem político-partidária francesa que não deixará de ter repercussões no resto da Europa [1]
A primeira anomalia constituiu uma surpresa em três planos. Emmanuel Macron, ministro da Economia sem etiqueta política, funda um movimento político (em abril de 2016) cinco meses antes de se demitir das suas funções ministeriais. Demitiu-se depois (em agosto), oito meses apenas antes do fim do mandato presidencial de François Hollande, dando assim a impressão de abandonar o navio quando estava a meter seriamente água. Declarou-se depois candidato à presidência da República (em novembro), obtendo rapidamente sondagens extremamente favoráveis, tanto mais surpreendentes que não tinha atrás de si uma das tradicionais forças partidárias.
As surpresas abusivas das primárias
Outra anomalia importante foi o facto de terem saído das “primárias” dos ecologistas (em outubro-novembro), da “direita e centro” (em novembro) e da “esquerda” (em janeiro de 2017) três eleitos inesperados. Três eleitos que os média como as sondagens tinham durante longas semanas considerado com fracas probabilidades. O que fará muito provavelmente que os grandes partidos (ou as organizações que lhes sucederem) deixarão no futuro de organizar tal tipo de contenda, geradora de incerteza e fragilidade por demais evidentes.
Situação inédita a de um presidente em exercício, François Hollande, que decide não voltar a apresentar-se às eleições presidenciais. Consequência de sondagens assombrosamente negativas. Mas decisão tomada demasiado tarde, o que complicará seriamente a organização de “eleições primárias” pelo Parti Socialiste, assim como, em seguida, a campanha do eleito nestas “primárias”.
Enquanto os outros candidatos ditos “principais” tinham começado as suas campanhas meses atrás, o candidato do PS, Benoît Hamon, meteu-se em negociações anormalmente demoradas com o candidato ecologista ...eleitoralmente pouco significativo. Errou igualmente fazendo apelos sucessivos para que, no fundo, o candidato da esquerda radical, Jean-Luc Mélenchon, desistisse em seu favor, quando este se encontrava em posição desfavorável nas sondagens. Só que Mélenchon fez uma campanha muito mais carismática e mobilizadora do que Hamon, começando por ultrapassar este nas sondagens e desterrando-o finalmente para uma posição extremamente inconfortável de quinto classificado… Situação tanto mais inconfortável que diversas personalidades do PS traíram os compromissos tomados e mesmo devidamente subscritos : foi o caso de antigos concorrentes nas primárias, como o ecologista François de Rugy e o antigo primeiro ministro Manuel Valls que se declararam apoiantes do centrista Macron !
Numa lógica elementar de esquerda, Hamon deveria finalmente retirar-se em favor de Mélenchon. Tanto mais que isso significaria que boa parte dos seus eleitores se repartiriam entre, à sua direita, Macron, e, à sua esquerda, Mélenchon, reforçando deste modo o campo dos que se opõem a François Fillon, da direita conservadora, e a Marine Le Pen, da extrema direita. Mas esta lógica política opõe-se à lógica partidária. Porque retirar a candidatura significaria entregar o futuro do PS à direita do partido. Mas significaria também que o PS perderia o reembolso previsto pela lei de 47,5 % das despesas da campanha (o que corresponderá certamente a alguns, para não dizer muitos milhões de euros), caso Hamon obtenha mais de 5 % dos votos.
A imprensa e a Justiça na contenda
Entretanto, no meio de todas estas anomalias e incertezas, vieram a imprensa e a Justiça a acusar Fillon e Le Pen de, nomeadamente, desvios de bens públicos e abuso de bens sociais em proveito pessoal e familiar, no primeiro caso, em proveito pessoal e do partido, no segundo. O que abalou a posição favorável de Fillon nas sondagens, posição que veio depois a reconquistar parcialmente. Mas o que não provocou grandes mudanças no que diz respeito a Le Pen, a sua base eleitoral dando pouca importância às questões de ética e de exemplaridade…
A França encontra-se assim, pela primeira vez na história da V.a República, numa situação de total incerteza no que diz respeito aos resultados da primeira volta da eleição este domingo. E até mesmo em relação à segunda volta da eleição em 7 de maio. Tanto mais que, em fim de campanha, é descoberta a preparação de um atentado terrorista em Marselha. E que ontem um atentado terrorista teve significativa e simbolicamente lugar nos Campos Elísios (Champs Élysées), em Paris, suscitando um clima de insegurança e dramatização que terá muito provavelmente consequência sobre o voto.
Ora, o sentimento de insegurança leva geralmente os eleitores a votarem em favor dos adeptos de posições autoritárias, pouco ou nada respeitadoras do pluralismo e da legalidade. E nisto, os dois candidatos da direita conservadora e da extrema direita poderão bem ser os beneficiários. Até porque os terroristas, e nomeadamente os terroristas islâmicos, procuram à viva força desde há muito anos que a Europa, e muito particularmente a França, renuncie progressiva e notoriamente ao que a leva a aparecer aos olhos do mundo como uma terra de liberdade e de democracia…



[1] Ver a este propósito J.-M. Nobre-Correia, « A nova revolução francesa ? », in Notas de Circunstância 2, 12 de março de 2017.



Texto publicado no blogue A Vaca Voadora, 21 de abril de 2017.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

O argueiro e a trave

J.-M. Nobre-Correia
Média : O telejornal da RTP 1 é um reflexo de vaidades num oceano de inconsistência e de irresponsabilidade…
Anda por aí uma polémica daquelas de que o meio mediático português tem o segredo. Ou melhor : de que só o microcosmos jornalístico lisboeta sabe confeccionar a receita. E isto porque, como noutros países, os jornalistas estimam ter o direito (e devem de facto tê-lo) de se interrogarem sobre tudo e todos, e, se necessário, criticarem as opiniões de uns ou os feitos de outros, mas não suportam que alguém possa também fazê-lo sobre a maneira como praticam o ofício.
Esta rejeição é tanto mais inflexível quanto a “classe” vive como num bocal, conhecendo-se uns aos outros, frequentando os mesmos lugares e manifestações de toda a ordem, quando não conviveram nas mesmas escolas, em próximos círculos de família ou de amigos, e até tiveram os/as mesmos/as namorados/as. O que os torna ainda mais susceptíveis em relação às críticas vindas do exterior, considerando-as traição ou arrivismo quando provêm de antigos jornalistas, ignorância ou pedantismo quando oriundas de outros meios profissionais.
Que os telejornais da RTP 1 sejam quase sempre de uma enorme indigência, nas temáticas escolhidas, na hierarquização das sequências e nos tratamentos adoptados, são manifestamente considerações proibidas de fazer. Como não é permitido notar que os principais apresentadores estão cheios de tiques faciais, gestuais e de elocução, o mais inacreditável sendo o piscar de olho final de um deles. Ou que é perfeitamente insuportável a preferência doentia dada aos faits divers (brutais, sangrentos, desgarrados, gritados e carpidos se possível) e à futebolite aguda (a não confundir com o desporto em geral).
Mas até há outras razões para crítica. Que em vez de explicações didácticas de temas obscuros, os jornalistas preferem mostrar-se a si próprios em locais que nem sempre têm a ver com o assunto, juntando muitas vezes imagens passe-partout e não-pertinentes. Que os comentários interpretativos são raramente assumidos por gente competente da redação, mas sim por “comentadores” exteriores todo-o-terreno, palradores raramente capazes de síntese. Que os “directos” são uma assoladora praga, quando na grande maioria dos casos a actualidade não justifica estas intervenções de pseudo-repórteres (que se abstêm aliás de proceder a etapas essenciais : filmar acontecimentos, seleccionar passagens significativas, montá-las e gravar o som que as deve acompanhar).
Que são abusados por políticos, sindicalistas, dirigentes desportivos e demais actores sociais que, como por acaso, têm declarações a fazer à hora do telejornal, impondo “directos” desprovidos da mais elementar “edição” jornalística, assumindo o “repórter” de serviço a função de mero canalizador. Que haja jornalistas que andam diariamente atrás dos líderes partidários e acham que devem absolutamente retransmitir extractos das declarações deles, mesmo quando são totalmente desprovidas de interesse.
Que a maior parte das vezes os correspondentes no estrangeiro se abstêm de fazer a mais elementar reportagem (ou então esta é-lhes fornecida por instituições locais), tendo sobretudo a preocupação de se mostrarem a si próprios e dizendo-nos coisas para as quais não era preciso terem saído de Lisboa para poderem dizê-las até de maneira mais aprofundada e construída. Que a investigação, o dossiê e a grande reportagem são extremamente raros, porque isso supõe trabalho em equipa e, claro está, meios financeiros, técnicos e humanos.
Espantemo-nos depois que um fait divers em nada significativo da evolução da sociedade e do estado da moral social, muito menos sem incidência na vida quotidiana dos cidadãos, redunde de facto numa lamentável cena de pancadaria generalizada. Tema e cena certamente apreciada pela direcção da informação da televisão pública (como aliás pelas suas antecessoras) que lhe consagra 1 minuto e 38 segundos, depois de outros três temas de natureza criminal [*]. Peça que vem após duas outras sobre a CGD e o Montepio (a primeira das quais tecnicamente falhada), mas antes de temas de manifesta somenos importância como o surto de hepatite A, as desigualdades salariais, o aumento do preço das casas ou as eleições autárquicas. Cada um destes merece aliás uma só sequência, quando o Benfica-Porto de dois dias depois tem direito a quatro e claro, antes disso, a um anúncio a meio do telejornal.
Como a justificar uma popularunchização particularmente medíocre, vêm jornalistas da RTP em petição exigir a demissão de quem ousou criticar o tratamento de uma “peça” do jornal. Quando, se petição deveria haver, seria para reivindicar do conselho de administração a nomeação de uma direcção da informação e de chefes de serviço na redação capazes de conceber e construir diariamente um telejornal digno de uma televisão pública. Mas isso…
2 de Abril de 2017.

Nota final em forma de interrogação : que capacidade de tolerância e sentido do debate, da confrontação de ideias, poderia revelar a “classe” jornalística dos média ditos “nacionais” perante este texto ?…




[*] Telejornal das 20h00 de quinta-feira 30 de março na RTP 1.


Texto publicado no blogue A Vaca Voadora, 11 de abril de 2017.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Cegueira e imobilismo


J.-M. Nobre-Correia
Média : No caso da ERC, a atitude dos partidos (do governo, da maioria parlamentar e da oposição) é perfeitamente confrangedora…

Para quem fez toda a carreira profissional no estrangeiro e viveu toda a vida de adulto lá fora (com um regresso recente ao país) há em Portugal coisas de espantar. Assim a apatia mais ou menos geral da sociedade civil a acontecimentos e decisões que marcarão o destino dos portugueses. Ou a indiferença com que os partidos políticos preferem fazer que não veem flagrantes anomalias no funcionamento da democracia…
Mesmo quando a arquitetura parlamentar e governamental muda de maneira marcante, nada de substancial muda em certas matérias. É o caso da paisagem mediática : Portugal tem a imprensa mais frágil de toda a Europa ocidental. Tanto no que diz respeito ao reduzido número de diários e semanários de informação geral como às tiragens diminutas destes. E no entanto, neste “tempo novo” da vida política, nada, absolutamente nada foi feito para que a imprensa possa ganhar dinamismo e diversificação. Para que os portugueses sejam pluralisticamente mais informados, de modo a melhor poderem assumir o estatuto de cidadãos.
Nesta matéria, a nova maioria parlamentar (…e a oposição) como o governo (e em particular o Ministério da Cultura, que tem o sector nas suas atribuições) têm-se mostrado totalmente amorfos. Dando a impressão horripilante de que este ultra-subdesenvolvimento da informação escrita lhes convém bem, mantendo os cidadãos longe ...do que lhes deveria dizer respeito. E tanto mais quanto é certo que na televisão, média dominante, o infotretenimento domina, misturando faits divers e futebol de modo a provocar sensações forte, mas não melhor compreensão da sociedade em que vivem.
Esta indiferença de cidadãos e parlamentares é posta em evidência com a situação atual da Entidade Reguladora para a Comunicação Social. É certo que a instituição foi criada para instalar uns amigos do PS e do PSD em situação social e financeira confortável. Cada um nomeia dois aderentes ou inquestionáveis compagnons de route que serão eleitos por uma maioria de dois terços da Assembleia da República. Teoricamente estes quatro cooptam um quinto e os cinco elegem depois o presidente. Na realidade, o partido no governo escolheu até agora o quinto elemento e futuro presidente da ERC.
Só que desta vez, o PSD estima que, tendo sido o partido mais votado nas legislativas, é ele que deve escolher. Encontramo-nos assim com uma ERC atualmente reduzida a três membros (os outros dois tendo-se demitido) que deveriam ter cessado funções em 9 de novembro ! O que prova bem que PS e PSD acham que não há urgência em se ocuparem dos média ...não renunciando no entanto a nomear gente deles para lugares apetecíveis.
Mas há na situação dois outros aspetos significativos. PS e PSD continuam a ignorar aliados habituais ou atuais e a considerar a ERC como coutada estritamente reservada. Enquanto que os demais partidos aceitam de facto esta situação, num mutismo revelador de insensibilidade em relação a um possível desabrochar de uma informação mais democrática e pluralista…

Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles


Texto publicado no semanário Expresso, Lisboa, 8 de abril de 2017, p. 34.


Texto publicado no blogue A Vaca Voadora, 9 de abril de 2017.