quarta-feira, 17 de agosto de 2016

O outro pilar da repressão

J.-M. Nobre-Correia *

Como a Pide, a Censura zelava pela imagem do salazarismo e pelo cariz ordeiro dos portugueses …

Há ideias de livros interessantes. E há ideias de reedições que também o são. Só que, depois, lido o livro, descobrem-se lados insatisfatórios da primeira edição. Como se constatam aspetos muitos criticáveis da reedição…
Vir a lume em 1979 com um livro sobre a censura era uma ideia interessante e até mesmo essencial. Tanto mais quanto é certo que o dito livro era largamente constituído pela retranscrição de “telegramas telefonados da Comissão de Exame Prévio do Porto” (selecionados entre 5/1/1967 e 24/4/1974) e de “circulares dos Correios e Telecomunicações de Portugal sobre livros e revistas proibidos de circular”. E nada melhor para pôr em evidência o lado autoritário, inacreditável e por vezes até ridículo das decisões que provocavam um verdadeiro sufocamento da prática jornalística durante o salazarismo.
Quase quarenta anos depois, reeditar Os Segredos da Censura está longe de ser desprovido de pertinência. Dizem-se e escrevem-se por aí tantas barbaridades sobre o que foi o Portugal salazarista e sobre a jornalismo praticado então, que nunca é demais lembrar o que foi um país e um jornalismo privados de liberdade. Não impede que se tenham de lamentar diversos lados perfeitamente insuficientes da edição original e ainda mais desta segunda edição.
Primeiro que tudo há que lamentar a quase total ausência de explicitações sobre os acontecimentos a que fazem referência as decisões da Censura (com oito brevíssimas exceções em rodapé a propósito dos “telegramas” e nenhuma sobre as “circulares”). Quando, 42 anos depois, boa parte da população portuguesa usufrui o privilégio de não ter vivido sob o salazarismo, era absolutamente indispensável indicar os acontecimentos a que se referiam os “telegramas” ou as “circulares” e contextualizá-los de modo a que os leitores pudessem compreender o sentido real da intervenção da Censura.
Por outro lado, é lamentável que erros que figuram na primeira edição não tenham sido corrigidos na reedição, 37 anos depois. Como por exemplo : não escrever que “Domenach” (sem nome próprio) foi “o fundador-director da revista católica Esprit” (p. 16), quando Jean-Marie Domenach tinha dez anos quando a revista Esprit foi lançada por Emmanuel Mounier. Ou fazer referência a “Jaques Schreiber, director de L’Express” (p. 20), quando o fundador do magazine se chamava Jean-Jacques Servan-Schreiber.
A estas insuficiências vem juntar-se uma “introdução” de César Príncipe que peca por um tom ostensivamente ideológico e militante, onde não faltam o “grande capital”, a “luta de classes” e as “mafias patronais” (p. 23). Sem uma real preocupação histórica, sociológica e política, de simples jornalismo de qualidade, para pôr em evidência os grandes princípios de ação da Censura (apesar das breves linhas da p. 24). E, por conseguinte, sem explicitar o modelo de sociedade que a Censura queria propor aos leitores. E não é o prefácio de quatro páginas de Francisco Duarte Mangas, que constitui a única novidade desta reedição, que acrescenta o que quer que seja nessa perspetiva.
Vale a pena, no entanto, ler os “telegramas” e as “circulares” transcritas em Os Segredos da Censura. E ver como a Censura tinha antes do mais como preocupação que os média (e mais concretamente os jornais) propusessem do país a imagem de uma sociedade onde reinava a serenidade. Onde “nem uma agulha bulia na quieta melancolia” do regime salazarista. Onde não havia oposições, nem manifestações, nem contestações, nem greves, nem presos políticos, nem guerra nas colónias, nem mesmo demissões no interior das estruturas do regime, nem sequer acidentes ou mortes com pessoas ligadas ao regime : a nave do salazarismo deslizava serenamente, em águas tranquilas, em “defesa de interesses superiores da Nação” (Salazar dixit) !…


César Príncipe
Os SEGREDOS DA CENSURA
Edições Afrontamento, 140 pp, 12,00 euros


* Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles



Texto publicado no quinzenário JL Jornal de Letras, Lisboa, 17 de agosto de 2016, pp. 26-27.

sábado, 30 de julho de 2016

Esta cruel valsa fúnebre...

J.-M. Nobre-Correia
Média : Uma ininterrupta sucessão de demissões e nomeações nas direções de importantes jornais de informação (impressos, radiofónicos, televisivos e digitais) deixa recear mais um acelerar da crise do que a sua ultrapassagem…

Para quem viveu quase toda a vida de adulto no estrangeiro e frequentou logo de início os média do país de residência como dos países limítrofes, Portugal constitui um caso espantoso. Um caso cuja especificidade é nomeadamente ilustrada pela “valsa” atual nas direções de diversos média. “Valsa” cujos primeiros passos começaram a ser dados há meses atrás e dizem respeito à maioria dos diários, dos semanários, dos radiojornais e dos telejornais que contam.
A primeira caraterística que espanta nesta “valsa” é o facto de se tratar largamente de permutas entre membros de um pequeno microcosmos. Entre gente que se conhece, que se frequenta, que muitas vezes mantem relações de amizade …que não impedem um omnipresente e acutilante sentimento de rivalidade. Neste microcosmos, quem chegou a um lugar de direção tem grandes probabilidades de vir a ocupar sucessivamente outros lugares de direção noutros média. Sem que haja pois um verdadeiro afluxo de sangue novo, de oxigénio, capaz de favorecer o aparecimento de uma prática jornalística nova adequada aos tempos que correm …de que este país tanta necessidade tem.
Outra particularidade posta em evidência, mais noutras ocasiões do que propriamente agora, é a que consiste em transferências dificilmente concebíveis (embora não totalmente impossíveis nalguns casos) para além da fronteira luso-espanhola. De um média popular para outro de referência, de um desportivo para um generalista, de um diário para um semanário jornal ou magazine, de um jornal impresso para um radiojornal, telejornal ou jornal digital. E vice versa. Quando cada um destes média supõe práticas de jornalismo bastante diferentes e recurso a meios técnicos de “escrita” e de edição próprios, assim como a suportes de difusão totalmente distintos.
Terceiro aspeto igualmente surpreendente é o que leva os proprietários dos média a escolheram indiferentemente como diretores gente cuja consistência intelectual, cultural e política (no melhor sentido da palavra) nem sempre é adequada àquilo que, em princípio, constitui a identidade do média. Casos há em que a clivagem é mesmo por demais evidente, brutal. Mas este aspeto constitui precisamente um dos dramas dos média portugueses e sobretudo, é claro, das publicações impressas diárias ou semanais : alguém poderá afirmar claramente qual é a identidade sociocultural de cada uma das principais publicações de informação geral deste país (Correio da Manhã excluído, …et pour cause) ?
Em boa verdade, as oscilações de estilo jornalístico e de orientação político-cultural, e a consequente flacidez das “colunas vertebrais” identitárias, têm sido uma constante de praticamente todos os jornais impressos em 42 anos de democracia. Com o que isso significa de roturas sucessivas no contrato de leitura que tinham implicitamente estabelecido com os seus “leitorados” e as inevitáveis perdas de vendas em vagas sucessivas cada vez mais aceleradas. E, à primeira vista e na maioria dos casos, as mudanças atuais não parecem poder evitar o suicídio a que gestões muitas vezes incompetentes e proprietários maioritariamente ainda mais incompetentes têm condenado os média portugueses. No país da União Europeia que conta menos diários impressos e a mais baixa taxa de leitura de jornais. E num país em que, tudo leva a crer, a credibilidade dos média anda cada vez mais preocupantemente de rastos…

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Insuficiências muito incapacitantes

J.-M. Nobre-Correia
Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles

Quando a apregoada “qualidade de vida” é de facto de “baixa densidade”…

Andam por aí umas teorias que afirmam que é “no interior” que, em Portugal, há “qualidade de vida”. E, com esta noção, os seus apregoadores entendem qualidade do ar que se respira, proximidade dos locais frequentados no dia-a-dia, menor tensão no ritmo de vida, contactos familiares assíduos, relacionamento fácil, sociabilidade mais concreta, baixo custo de vida,… Uma série de frases feitas que nem sempre correspondem à realidade.
Não impede que em congressos, colóquios e demais conferências se discorra repetidamente sobre esta “qualidade de vida”, considerando os oradores que só o fraco desenvolvimento económico impede que se viva em situação quase ideal. Embora alguns, um pouco mais lúcidos, acrescentem também a falta de natalidade capaz de assegurar o futuro demográfico e até, melhor ainda, de inverter a acentuada tendência para o despovoamento.
Só que estes arautos da “qualidade de vida” em regiões “de baixa densidade” não parecem dar-se conta que nem só de desenvolvimento económico vivem os cidadãos. E nem que tudo o que faz largamente falta “no interior” virá necessariamente por acréscimo desse desenvolvimento. Porque há condições de base de que o Portugal “do interior” continua tragicamente desprovido e que pouco interessam autarcas e demais responsáveis. O que leva os que lá sempre viveram a sonharem com uma futura instalação no Centro-Norte Litoral. E os que lá se instalaram por razões de ordem profissional a considerem a situação como provisória.
Este desapego endémico que mina o Portugal “do interior” tem sobretudo como origem a falta de centros hospitalares performantes, de estabelecimentos de ensino de alto nível e de infraestruturas culturais com ofertas de qualidade. Em matéria de medicina, os cidadãos “do interior” estão largamente dependentes dos numerosos centros hospitalares públicos e das numerosíssimas clínicas privadas do Porto, de Coimbra e de Lisboa. Pela simples razão que, “no interior”, os hospitais públicos ou das Misericórdias, assim como as consultas privadas, não se encontram em condições de propor a indispensável variedade de especialidades, equipamentos e profissionais de saúde. Deixando mesmo em muitos casos o sentimento que só a impossibilidade de singrar nas “grandes capitais” levaram boa parte dos profissionais de saúde a instalar-se “no interior”.
Na educação, é também por demais evidente que os grandes estabelecimentos de ensino secundário, politécnico e universitário se situam largamente no Centro-Norte Litoral. Que fora deles, o ensino superior “do interior” é geralmente considerado como fazendo parte, na melhor das hipóteses, de uma “segunda divisão”. E um número sensível de docentes que ensinam nestes estabelecimentos residem nos grandes centros do Centro-Norte Litoral e dignam deslocar-se apenas um ou dois dias por semana à localidade que lhes permite ganhar a vida.
Um pouco com a exceção do Porto, é verdade que a vida cultural em Portugal se passa sobretudo em Lisboa. Que o resto do país tem, na melhor das hipóteses, direito a uma vida cultural assumida antes do mais por atores de segunda ou de terceira importância. Tanto mais que, “no interior”, cidades há onde as salas de cinema, teatro ou concerto são inexistentes. Onde não há uma livraria ou loja de jornais onde seja possível adquirir publicações que não façam parte do consumo mais ou menos “popularucho”. E onde se possam comprar CD ou DVD, fora dos propostos como “complementos” de jornais ou magazines…
Desde logo, como conseguir atrair gente para “o interior” e convencê-la a instalar-se duradoiramente, definitivamente, se no Portugal da tal “qualidade de vida” esta é manifestamente de “baixa densidade” em termos médicos, académicos e culturais ? Ainda se autarcas e demais responsáveis pelas regiões “do interior” tivessem realmente consciência disso e procurassem seriamente colmatar estas grandes deficiências !…
Ora, proliferam em Lisboa instituições públicas ligadas à saúde, ao ensino e à cultura. Uma proliferação megalómana, megalocéfala, que cria sérias dificuldades de coordenação e gestão, e não menos sérios problemas de custos. Os mais elementares princípios de uma democracia equitativa e eficiente não deveriam aconselhar a transferir as instituições em demasia para “o interior” ? Decisões deste tipo foram tomadas noutros países : por que não em Portugal ? Isso até ajudaria Lisboa a aliviar-se de um preocupante congestionamento…

Original do texto publicado no diário Jornal de Notícias, Porto, 4 de julho de 2016, p. 34
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Publica-se em seguida a primeira versão do texto que, por razões editoriais, teve que ser reduzida pelo autor de 4 780 para 4 404 carateres :

Insuficiências muito incapacitantes

J.-M. Nobre-Correia
Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles

Quando a apregoada “qualidade de vida” é de facto de “baixa densidade”…

Andam por aí umas teorias todas modernaças que afirmam que é “no interior” que, em Portugal, há de facto “qualidade de vida”. E, com esta noção, os seus apregoadores entendem qualidade do ar que se respira, proximidade dos locais entre os quais é partilhada a vida diária, menor tensão no ritmo de vida, contactos familiares mais frequentes, relacionamento humano mais fácil, sociabilidade mais concretamente viável, mais baixo custo de vida,… Uma série de frases feitas que, porém, nem sempre correspondem à realidade.
Não impede que em congressos, colóquios e demais conferências se use interminavelmente da palavra sobre esta “qualidade de vida”, considerando os oradores quase unânimes que só o fraco desenvolvimento económico impede que se viva numa situação quase ideal. Embora alguns, um pouco mais lúcidos, acrescentem também a falta de natalidade capaz de assegurar o futuro demográfico e até, melhor ainda, de provocar uma inversão na tendência permanente para o despovoamento desde há largos decénios.
Só que estes arautos da “qualidade de vida” em regiões “de baixa densidade” não parecem dar-se conta que nem só de desenvolvimento económico vivem os cidadãos. E nem que todo o resto, tudo o que faz largamente falta “no interior”, virá necessariamente por acréscimo desse tal desenvolvimento económico. Porque há condições de base de que o Portugal “do interior” continua tragicamente desprovido e que manifestamente pouco interessam autarcas e demais responsáveis. O que leva os que lá sempre viveram a sonharem com uma futura instalação possível no Centro-Norte Litoral. E os que lá se instalaram por razões de ordem profissional a considerem esta situação pessoal como provisória.
Este desapego endémico que mina o Portugal “do interior” tem sobretudo como origem a falta de centros hospitalares performantes, de estabelecimentos de ensino de alto nível e de infraestruturas culturais com ofertas de qualidade. Em matéria de medicina, os cidadãos residentes “no interior” estão largamente dependentes dos numerosos centros hospitalares públicos e das numerosíssimas clínicas privadas do Porto, de Coimbra e de Lisboa. Pela simples razão que, “no interior”, os hospitais públicos ou das Misericórdias, assim como as consultas privadas, não se encontram em condições de propor a normal e indispensável variedade de especialidades, equipamentos e profissionais de saúde. Deixando mesmo em muitos casos o sentimento que só a impossibilidade de singrar nas “grandes capitais” levaram boa parte dos escassos profissionais de saúde a serem levados a instalar-se “no interior”.
Na educação, é também por demais evidente que os grandes estabelecimentos de ensino secundário, politécnico e universitário se situam largamente no Centro-Norte Litoral. Que fora deles, o ensino superior “do interior” é geralmente considerado como fazendo parte de, na melhor das hipóteses, uma “segunda divisão”. E um número sensível de docentes que ensinam nestes estabelecimentos, verdadeiros “académicos TGV”, residem nos grandes centros do Centro-Norte Litoral e dignam deslocar-se apenas um ou dois dias por semana à localidade que lhes permite todavia ganhar a vida.
Um pouco com a exceção do Porto, é verdade que a vida cultural em Portugal se passa largamente em Lisboa. Que o resto do país tem, na melhor das hipóteses, direito a uma vida cultural assumida antes do mais por atores de segunda ou de terceira importância. Tanto mais que, “no interior”, cidades há onde as salas de cinema, teatro ou concerto são inexistentes. Onde não há uma livraria ou loja de jornais onde seja realmente possível adquirir livros e publicações que não façam parte do consumo corrente mais ou menos “popularucho”. E onde se possam comprar CD ou DVD, fora daqueles propostos por vezes como “complementos” de jornais ou magazines…
Desde logo, como conseguir atrair gente para “o interior” e convencê-la a instalar-se duradoiramente, definitivamente, se neste Portugal a que atribuem essa tal “qualidade de vida” esta é manifestamente de “baixa densidade” em termos médicos, académicos e culturais ? Ainda se autarcas e demais responsáveis pelas regiões “do interior” tivessem realmente consciência disso e procurassem seriamente colmatar estas grandes deficiências !…
Ora, proliferam em Lisboa as instituições públicas ligadas à saúde, ao ensino e à cultura. Uma proliferação megalómana, megalocéfala, que cria sérias dificuldades de coordenação e gestão, e não menos sérios problemas de custos. Os mais elementares princípios de uma democracia equitativa e eficiente não deveriam aconselhar a transferir as instituições em demasia para “o interior” ? Decisões deste tipo foram tomadas noutros países europeus : por que não em Portugal ? Isso até ajudaria Lisboa a aliviar-se de um preocupante congestionamento…

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Os riscos do híper-ativismo

Política e média
J.-M. Nobre-Correia
A nova conceção da Presidência abre portas a derrapagens inquietantes…
Os cidadãos têm motivos de regozijo. A um presidente da República obtuso, cinzento e distante sucedeu outro capaz de fulgurância, entusiasmo e sociabilidade. O anterior era incapaz de se assumir como homem de Estado e ultrapassar clivagens políticas, de dar valor a quem reconhecidamente o tinha e não cair no enaltecimento de gente civicamente pouco recomendável. O atual é manifestamente mais aberto, culto e intuitivamente capaz de perceber o que é conforme a um Estado de direito democrático.
Mas os cidadãos têm também motivos para se inquietarem. Porque há no comportamento do novo presidente duas opções constantes e preocupantes. Há antes do mais um ativismo em nada comparável à atitude dos seus quatro predecessores e que dá sinais de transbordar a área habitual, constitucional, da ação presidencial. Um ativismo que o leva a imiscuir-se notoriamente na área de ação governamental. O que só tem sido possível porque o governo é levado a fechar os olhos, sabendo que precisa de um aliado em Belém para contrapor à fragilidade original de acordos parlamentares que não ousaram traduzir-se em coligação ministerial. Com uma base de apoio mais sólida, não teria o governo reagido ao singular convite a Mario Draghi para participar numa reunião do Conselho de Estado e à não menos singular visita a Berlim para conversar com a chanceler alemã sobre a  relação de Portugal com a União Europeia ?
A outra opção inquietante é a da omnipresença quotidiana nos média, com telejornais a consagrarem uma, duas, três, quatro ou mais sequências ao dia do presidente e às suas declarações a propósito de tudo e de nada. Uma omnipresença que o próprio presidente manifestamente favorece e que o serviço de comunicação de Belém indubitavelmente promove. Quando o chefe de Estado num sistema constitucional não presidencialista deve saber preservar uma certa reserva, de modo a que a sua palavra e a sua ação possam ter o devido peso quando necessárias forem.
A atual banalização dos atos e da palavra do chefe de Estado não tem comparação alguma com a dos seus congéneres (presidentes ou monarcas) nos outros países da Europa ocidental. Olhe-se em redor, digamos de há cinquenta anos para cá : nem no sistema constitucional francês, que atribui poderes mais largos ao presidente do que no português [1], os média evocam todos os dias os seus atos ou declarações. E as televisões não pensariam um só instante consagrar diariamente uma série de sequências aos factos e gestos do presidente. Nem o grande Charles de Gaulle, no tempo em que dominava soberanamente o audiovisual francês, tinha direito a tal atitude de cega reverência…
Que se trate da República francesa ou da Monarquia belga, por exemplo, o chefe de Estado só intervém nos média nas grandes ocasiões : a festa nacional e o primeiro dia do ano. Excecionalmente, por ocasião de uma grave crise governamental ou de um referendo considerado decisivo para os destinos da nação. Embora, no caso francês, tenha havido algumas entrevistas excecionais dos sucessivos presidentes da República, sobretudo em televisão, desde os tempos de Valéry Giscard d’Estaing. Como houve algumas raríssimas emissões nas televisões belgas, mais ou menos hagiográfico-laudativas, sobre o atual monarca e os seus dois predecessores [2].
Ora, o híper-ativismo nomeadamente verbal do presidente português já começou por levantar um e outro problemas que necessitaram ulteriores esclarecimentos dos serviços de Belém. Só que as derrapagens são consequência inevitável deste híper-ativismo potencialmente suscetível de provocar problemas maiores de natureza constitucional e de inconvenientes confrontos entre a presidência e o governo.
A omnipresença diária nos média é também de natureza a levar estes mesmos média a quererem saber mais sobre a “face oculta” do presidente e da presidência. A quererem ir para além da versão oficial da vida quotidiana do personagem, das suas relações familiares, sociais e afetivas, dos meandros do seu passado nomeadamente político. O que tem grandes probabilidades de lhe retirar a aura simbólica indispensável à magistratura suprema junto da opinião pública. Esvaziando desde logo muito seriamente, junto dos cidadãos, a sua capacidade de intervenção e decisão política, com autoridade e serenidade, desmonetizado que foi o seu titular ao longo dos meses por um híper-ativismo omnipresente…
Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles


[1] O presidente da República francesa preside nomeadamente o conselho de ministros semanal e representa a França nas reuniões de chefes de Estado e de governo da União Europeia, num caso como no outro sejam quais forem as maiorias parlamentares do momento.
[2] Sobre os efeitos da mediatização da monarquia belga : J.-M. Nobre-Correia, "L'"affaire Delphine" : l'inévitable rupture", in Le Soir, Bruxelles, 25 de outubro de 1999, p. 2.


Original do texto publicado no diário Público, Lisboa, 20 de junho de 2016, p. 47.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Des révolutions dans la continuité…

J.-M. Nobre-Correia
Les mouvements qui traversent depuis quelques années le monde des médias et du journalisme ont peut-être besoin d’être situés dans une perspective historique pour pouvoir être relativisés…

Manifestement, depuis quelques longues années déjà, les médias et le journalisme traversent une zone de fortes turbulences. Ce sont tous les repères traditionnels de ces deux mondes qui se sont effondrés ou, tout au moins, ont été sérieusement ébranlés.
Dans un tel contexte, des considérations contradictoires ont surgi d’ici de là. Les unes, pessimistes, voire catastrophistes, décèlent dans la situation actuelle l’écroulement des médias d’information, et en tout cas celui de l’information de qualité, quand ce n’est pas la disparition progressive du journalisme tel qu’il a été conçu fin du XIXe siècle, début du XXe [1]. D’autres, euphoriques, voient dans la flopée de nouveautés technologiques qui la traversent l’aube d’une nouvelle ère et la naissance annoncée d’un nouveau monde, d’une nouvelle manière de vivre en société…
Pourtant, à la lumière de l’histoire des médias dits « traditionnels » (presse, radio et télévision), peut-être conviendrait-il de relativiser beaucoup des arguments péremptoires qui font florès ces temps-ci dans des conversations de café du commerce comme dans des aréopages plus savants. Notamment ceux qui établissent des comparaisons entre la qualité de l’information proposée de nos jours et celle à laquelle les citoyens avaient accès autrefois. Mais aussi ceux qui évoquent une ancienne pratique journalistique érigée en référence technique, déontologique et éthique. Alors que beaucoup de critiques qui ont cours aujourd’hui remontent parfois à la naissance de la grande presse d’information, voire à l’apparition de la presse elle-même…
Vendre du papier pour tous les goûts
Or, si l’imprimerie typographique est utilisée tout d’abord pour tirer bibles, placards, indulgences, grammaires, dès la fin du XVe siècle apparaissent des publications à caractère journalistique (ou parajournalistique) à l’occasion d’un événement important (et d’un seul) : bataille, funérailles princières, fête, vie à la cour,… dont elles font le récit. On les appelle occasionnels. Mais, un peu plus tard, on assiste aussi à la naissance des canards, adressés à un public plus populaire, qui font le récit de faits surnaturels, miracles, crimes, catastrophes naturelles et tout ce qui relève du monstrueux, du merveilleux, de l’extraordinaire, souvent illustrés et écrits dans un langage simple. C’est-à-dire : le fait divers et le sensationnel, fruits volontiers d’une imagination plus ou moins fertile. Plus tard encore, au début de XVIe siècle, paraissent les libelles axés sur la polémique religieuse, d’abord, et sur la polémique politique, ensuite. Ils sont donc axés sur l’expression d’opinions et le combat idéologique, l’agressivité et l’exaltation en étant des condiments fort prisés.
Autant dire que le souci des éditeurs-imprimeurs de « vendre du papier » remonte aux origines. Informer n’est pas nécessairement leur premier souci. Et ils ne sont d’ailleurs pas très regardants sur la qualité des contenus proposés aux lecteurs, ayant volontiers recours à l’affabulation, voire à la pure imagination, à la spéculation et à l’anathème afin de faire mousser l’intérêt du public pour les feuilles qu’on lui propose d’acheter.
À leur début, ces différents types de publications paraissent de manière ponctuelle, occasionnelle. Quand la question de la périodicité se pose, les imprimés sont d’abord annuels ou semestriels. Ces derniers apparaissent presque un siècle et demi après la découverte de l’imprimerie, et il faut attendre la fin du XVIe siècle pour les premiers mensuels. En mettant en place des courriers qui partent des villes importantes une fois par semaine, la poste favorise la création d’hebdomadaires au début de XVIIe siècle. Mais ce n’est qu’en 1650, deux siècles après la découverte de l’imprimerie typographique, que paraît le premier quotidien [2].
Du fait même de la lenteur des circuits empruntés par l’information, d’une composition manuelle et d’une impression à force de bras, le contenu des feuilles proposées aux lecteurs ne brille pas par sa fraîcheur. Le premier numéro de La Gazette, premier hebdo français lancé par Théophraste Renaudot, daté du 30 mai 1631, publie des informations en provenance de Constantinople (datant du 2 avril), « de Rome (26 avril), de Haute-Allemagne (30 avril), de Silésie (1er mai), de Venise (2 mai), de Vienne (3 mai), de Stettin (4 mai), de Prague (5 mai), de Francfort-sur-le-Main (14), d'Amsterdam (17), d'Anvers (24 mai) » [3]
Des censures à la liberté avant la massification
En outre, la presse subit les affres de la censure ecclésiastique (épiscopale ou papale) et celle du pouvoir civil (impérial, royal ou territorial). Car l’information est clairement perçue comme un outil indispensable aux gens du pouvoir pour qu’ils puissent exercer ce pouvoir. Bien souvent, les premiers périodiques sont d’ailleurs lancés à l’initiative de l’entourage même des souverains.
Il faut attendre 1695 pour que la censure soit abolie en Angleterre, la Révolution française, un siècle plus tard, imposant le principe de la liberté de la presse : « la libre communication des pensées et des opinions est un des droits les plus précieux de l’homme ; tout citoyen peut donc parler, écrire, imprimer librement sauf à répondre de l’abus de cette liberté dans les cas déterminés par la loi ». Quitte à ce que, pendant deux siècles encore, la censure sévisse ici et là sur le continent européen, pendant des durées de temps parfois très longues.
Avec l’industrialisation de la presse au XIXe siècle, les tirages augmentent et les journaux atteignent des publics beaucoup plus vastes. Les coûts de production par exemplaire diminuent considérablement et l’introduction de la publicité comme source de revenus (outre la vente) permet de baisser fortement le prix d’achat. D’où une diversification des publications proposées aux lecteurs, les faits divers faisant alors leur entrée à différents degrés dans des journaux autrefois consacrés prioritairement à l’information politique et culturelle.
Cette diversification des journaux et des contenus s’accentue jusqu’aux années 1950-60. Les quotidiens dits « populaires » deviennent largement dominants en termes de diffusion, consacrant une place parfois démesurée aux titres et aux illustrations, aux affaires de sexe et de sang, aux spectacles et aux sports, cherchant à susciter l’intérêt des lecteurs et l’acte d’achat. Alors que les quotidiens dits « de référence », plus sobres et privilégiant la politique, l’économie et la culture, doivent se contenter de diffusions plus modestes, de loin inférieures à celles des « populaires ».
Ainsi donc, l’histoire se répète à une échelle différente. On parle de quelques dizaines à quelques maigres milliers d’exemplaires du XVIe au XVIIIe siècles. Mais dans les dernières décennies du XIXe siècle, on parle déjà de centaines de milliers, voire de millions d’exemplaires dès le tournant du XIXe au XXe siècle. Et la logique financière s’impose, du fait d’équipements de plus en plus lourds et d’équipes de production de plus en plus nombreuses. Ce qui implique une guerre commerciale entre journaux en quête de lecteurs, entraînant une logique d’ « exclusivités » et une multiplication d’éditions tout au long de la journée [4]. Car il s’agit d’annoncer des « coups », devancer les concurrents et proposer l’information la plus fraîche possible, provoquant une surenchère et des dérapages célèbres, comme quand le parisien La Presse du 9 mai 1927 annonce sur cinq colonnes à la une l’arrivée des aviateurs français Charles Nungesser et François Coli à New York, où ils ont été accueillis par une foule enthousiaste, alors que leur avion s’est abîmé dans l’Atlantique !…
Le déclin de la presse et la montée des rivaux
La presse était alors un média tout puissant. Mais l’arrivée de la radio dans l’entre-deux-guerres va lui infliger des coups de boutoir, pouvant annoncer l’information plus vite qu’elle, les délais de production de la presse étant inévitablement plus longs. Dans des circonstances exceptionnelles, la radio va même couvrir l’actualité en temps réel : ce fut le cas en Belgique lors des funérailles du roi Albert 1er, le 20 février 1934.
Le déclin de presse en tant que média d’information dominant devient évident fin des années 1940, début des années 1950. Peu à peu, la radio s’impose comme un média d’information performant, suivant l’actualité tout au long de la journée. Et la télévision fait ses premiers pas, devenant le média auquel les citoyens consacrent le plus de temps libre et, dans les années 1960-70, le média d’information dominant. Parallèlement, radio et télévision vont recueillir de plus en plus de recettes publicitaires au détriment de la presse qui s’affaiblit, alors même que dans les années 1960-70 elle doit se reconvertir technologiquement dans la photocomposition et l’impression en offset.
Les années 1970-80 sont marquées par la démonopolisation du secteur audiovisuel. Grâce à la modulation de fréquence, aux réseaux câblés, aux satellites géostationnaires et aux antennes paraboliques, on assiste à une énorme prolifération de stations de radio et de télévision [5]. Ce qui a trois conséquences fort importantes : l’instauration d’un féroce régime de concurrence entre médias, l’adoption de plus en plus fréquente d’une pratique de l’information en temps réel et une énorme fragmentation des investissements publicitaires entre médias chaque jour plus nombreux.
En fait, on a joyeusement confondu prolifération des émetteurs et pluralisme, alors que la multiplication des rédactions et la baisse des recettes publicitaires entraine un effondrement des moyens humains et financiers dont ils peuvent disposer pour couvrir l’information [6]. Tandis qu’une pratique grandissante de l’information en temps réel entraine les rédactions dans des dérapages de plus en plus fréquents, faisant oublier régulièrement des principes élémentaires de la pratique journalistique.
Quand les récepteurs deviennent émetteurs
Ces tendances s’accentuent encore avec l’arrivée d’internet dans la deuxième moitié des années 1990. La prolifération des médias devient incommensurable. En outre, tout un chacun n’est plus seulement récepteur mais peut aussi devenir émetteur de messages écrits, sonores et/ou visuels. Tandis que l’aire de diffusion dépasse les frontières géographiques habituelles et s’étend désormais sur toute la planète.
Toutefois, internet offre aux annonceurs des formes d’interactivité qui facilitent grandement le contact avec les consommateurs. Dès lors, la publicité échappe progressivement aux médias classiques (presse, radio et télévision) au profit notamment des médias numériques. À ce détail près que les recettes de ceux-ci sont largement inférieures en valeur à celles des médias classiques.
Ces dernières évolutions ont des conséquences tragiques sur l’information journalistique : beaucoup de quotidiens et d’hebdos cessent de paraître ; les médias classiques, voyant leurs recettes publicitaires diminuer et leurs ventes fondre à vue d’œil, réduisent fortement leurs équipes de rédaction ; tandis que les nouveaux médias numériques disposent le plus souvent de recettes de la vente de leurs contenus très limitées (les lecteurs s’étant habitués à la gratuité de l’information), alors même que les recettes de la publicité sont fort maigres.
Autant dire que, un peu partout en Europe, il y a de plus en plus de journalistes dans des situations professionnelles précaires ou bien plus simplement au chômage. Du coup, les médias véhiculent davantage textes, sons et images proposés par des services de communication d’institutions, entreprises et individualités désireuses de les voir véhiculer des sujets qui les mettent en valeur. Une pratique développée à partir des années 1960 et fort répandue de nos jours, rappelant étrangement les contenus paraissant dans les périodiques nés au XVIIe siècle dans l’entourage des souverains…
Parallèlement se développe ce que l’on a pompeusement appelé le « journalisme citoyen ». Autrement dit : tout un chacun peut tendre compte, interpréter et prendre position face à des faits d’actualité. Et beaucoup d’éditeurs accueillent ce « journalisme citoyen », question de remplir gratuitement des pages de journal, du temps d’antenne et de l’espace des médias en ligne.
Les deux vrais changements
Au fond, les inquiétudes que l’on manifeste aujourd’hui au sujet de l’évolution du journalisme ne sont pas particulièrement originales. Insuffisances, dérapages et dérives ont marqué son histoire tout au long des cinq siècles de la presse et plus particulièrement le siècle et demi de la « grande presse ».
Les médias se trouvent à un tournant, comme chaque fois que les supports et les techniques de production ont changé : papier de tissu, caractères en plomb, presse à bras, papier de bois, presse à vapeur, composition mécanique, ondes hertziennes, photocomposition, offset, réseaux câblés, satellites géostationnaires, numérisation des signes, internet… Une suite de tournants qui ont chaque fois accéléré le processus de l’information, de la prise de connaissance d’un fait à sa communication aux citoyens. Une accélération qui conduit, le moment venu, à une pratique de plus en plus large de l’information en temps réel, qui est, par bien des côtés, la négation même du journalisme. Car le métier de journaliste consiste avant tout dans la quête de faits, situations et opinions, leur sélection et hiérarchisation selon des critères qui font la spécificité du média, leur contextualisation et interprétation, ainsi que l’éventuelle prise de position qu’ils supposent. Et tout cela en conformité avec des principes déontologiques progressivement affinés tout au long de ce dernier siècle et demi, mais aussi avec des principes éthiques qui caractérisent notre vie en société démocratique.
Pourtant, malgré dérives et dérapages, le journalisme au sens fort du terme survivra. Car les milieux dirigeants de nos sociétés auront toujours besoin d’une information de qualité (en termes de factualité et de valeur ajoutée dans l’interprétation et l’analyse) et seront toujours prêts à payer pour pouvoir y accéder. En revanche, la grande majorité des citoyens seront livrés à une information gratuite conçue dans une perspective de divertissement, de distraction : était-ce tellement différent un siècle auparavant ? En outre, cette information gratuite ou très bon marché sera largement fournie par des entreprises, institutions et hauts dirigeants, l’intervention des médias se limitant le plus souvent à des opérations purement techniques : mais ces documents prêts à publier n’ont-ils pas envahi progressivement les rédactions depuis une cinquantaine d’années ?…
Les médias d’information de qualité ont toujours été, sont et seront probablement chaque fois plus des outils destinés prioritairement aux milieux dirigeants et, au fond, cela n’a pas tellement changé tout au long de l’histoire. Un vrai changement est aujourd’hui la disparition accélérée des « éditeurs purs » en faveur de financiers et industriels peu suspects d’un amour subit pour l’activité éditoriale ou journalistique. L’autre grand changement consiste dans la possibilité que tout un chacun a désormais d’accéder à de sources d’information nombreuses et de chercher ainsi à confronter la qualité de l’information qu’on lui propose…



[1] Voir à ce propos J.-M. Nobre-Correia, « Journalisme : une certaine mort annoncée », in Politique, Bruxelles, n° 37, décembre 2004, pp. 46-49 ; ou, dans une version plus développée, « Une certaine mort annoncée… », in Communication et Langages, Paris, éd. Armand Colin, n° 147, mars 2006, pp. 15-24.
[2] On considère généralement The Daily Courant, lancé en 1702, comme le premier quotidien au monde. On sait aujourd’hui qu’il y a eu avant lui le Norwich Post, en 1701, toujours en Angleterre. Mais un demi siècle auparavant il y a eu l’Einkommende Zeitungen, en Allemagne, dès 1650.
[3] L. Trenard, "La Presse française des origines à 1788", in Cl. Bellanger et al. (dir.), Histoire générale de la presse française, vol. 1, Paris, PUF, 1969, p. 87.
[4] Fin des années 1960, le bruxellois Le Soir publiait encore sept éditions tout au long de la journée…
[5] Depuis la fin de la Seconde Guerre mondiale, radio et télévision vivaient en Europe en régime de monopole public ou du moins de monopole public pour chacune des communautés linguistiques d’un État. Curieusement, seuls les régimes autoritaires du Portugal et de l’Espagne reconnaissaient l’existence de stations publiques et de stations privées en radio. Alors que la France, en plus de la radio publique, tolérait l’existence de quatre « radios périphériques » privées émettant depuis la périphérie du territoire français : RTL (Luxembourg), RMC (Monaco), Europe 1 (Sarre) et Sud Radio (Andorre)…
[6] Voir à ce propos J.-M. Nobre-Correia, « L’aube d’un nouveau monde », in Politique, Bruxelles, n° 91, septembre-octobre 2015, pp. 16-18.





Texte publié dans Politique, revue de Débats, Bruxelles, n° 95, mai-juin 2016, pp. 22-25.