terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

O descalabro anunciado

J.-M. Nobre-Correia
Sindicatos, ordens e ligas são geralmente fatores de reforço do Estado democrático. Não é isso que acontece em Portugal…
Um vento nauseabundo sopra sobre a Europa. Um após outro, os pilares fundamentais das sociedades democráticas vão-se desmoronando. De maneira estrondosa na chamada “Outra Europa”. Aquela para a qual a União Europeia quis alargar-se por pura opção anti-russa, quando boa parte desses países não partilharam uma história comum com a Europa Ocidental. Para constatarmos agora que o compreensível anti-soviétismo deles era fruto de considerações histórico-culturais e não exatamente de um real desejo de vida em democracia liberal. E os melhores exemplos de “democraturas” autoritárias são agora a Hungria e a Polónia.
Para cá da antiga “cortina de ferro”, os pilares da democracia pluralista desde o século XIX e sobretudo desde após a Segunda Guerra Mundial vacilam fortemente. Com o fim das grandes famílias políticas (e não apenas dos partidos) na Itália e na França, países que caíram num vacum pleno de incertezas, formações populistas e de extrema direita sendo cada vez mais importantes. E com uma instabilidade largamente anunciada em Espanha e mesmo na Alemanha, para não falar já de uma Grã-Bretanha a largar amarras.
Em todos estes países, o neoliberalismo thatcheriano fulgurante e as inconsideradas deslocalizações da produção industrial para regiões de mão de obra barata, provocaram o empobrecimento e a precarização das classes médias e populares. E, paralelamente, assistiu-se ao enriquecimento descomedido de meios dirigentes, puros especuladores financeiros muitas das vezes.
Observadores europeus pouco atentos afirmam há largos meses que, neste contexto geral, Portugal constitui uma exceção. Porque, caso praticamente único, é governado por um partido de esquerda “clássico”, apoiado no parlamento por duas formações de esquerda radical. Mas também porque, tendo feito opções de caráter económico a contracorrente do que então “fazia lei” na União Europeia, conseguiu resultados económicos e financeiros elogiados pela maioria das instituições internacionais especializadas.
Só que, vista de dentro, a situação é extremamente inquietante e com origens bastante diferentes do que se passa no resto da União Europeia. Porque aqui são sindicatos, ordens e ligas que, escapando às suas razões de ser históricas, desencadearam uma “canhonada” permanente dos serviços públicos e do aparelho de Estado.
Ao criarem uma instabilidade permanente que impede escolas e hospitais públicos de assumir a função social essencial que é a deles, estão de facto a provocar o seu funcionamento insatisfatório e, paralelamente, a favorecer as empresas privadas desses sectores. E quando ameaçam também impedir o funcionamento normal dos serviços fiscais e da justiça, estão manifestamente a reforçar o sonho de uma certa direita radical de entregar largamente a gestão de tais serviços a privados.
O regresso da democracia em Portugal operou-se de maneira original, por um golpe militar, a contracorrente da história recente da Europa. Também agora o enfraquecimento do Estado democrático está a ser operado por associações que só puderam ser criadas porque a democracia assim o quis. Mas enquanto, no resto da Europa, sindicatos, ordens e ligas são quase sempre fatores de reforço do Estado democrático, muitos deles estão a transformar-se em Portugal em aprendizes-coveiros da sociedade democrática. Abusando de um entendimento em que os cidadãos só têm direitos e não deveres, fazendo reivindicações gananciosas irrealistas, provocando uma instabilidade potencialmente favorável a um salazarismo “ao gosto do dia”.
Neste dealbar de um Portugal cinzentão em que grande parte dos sectores públicos de base passariam sob o controlo do sector privado (onde, repare-se, não há greves nem exigências salariais, de promoções, idade de reforma ou pensões : só o Estado é a grande “vaca leiteira” !), a direita radical e a extrema direita acederiam de novo a postos de comando. Graças aos sindicatos, ordens e ligas abastardados que temos. E graças também à irresponsabilidade de média (e sobretudo de televisões) obcecados pela procura permanente de declarações sensacionais, excessivas e caricaturais de líderes inconscientes. Líderes que, esperemos, terão um dia que responder pelo estado de descalabro em que estão a pôr o país…
Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles, autor do livro Média, Informação e Democracia(Almedina).

Texto publicado no diário Público, Lisboa, 26 de fevereiro de 2019, p. 7.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Sinal dos tempos em que vivemos

J.-M. Nobre-Correia
Homenagem, ontem, a José Afonso, por ocasião da passagem do 32° aniversário do seu falecimento. Estavam presentes umas 150 pessoas. Mas nem uma com menos de uns 50-60 anos ! Todas com uns 60, 70 ou mesmo mais de 80 anos…
As novas gerações deste país desconhecem o que José Afonso representou nos tempos do salazarismo. O que as letras de muitos dos seus cantos manifestavam como resistência à ditadura, à miséria, à repressão. O que as músicas de muitos dos seus cantos representavam como redescoberta de um formidável cancioneiro popular lamentavelmente esquecido.
Esta ausência dos jovens traduz de facto um triste sinal dos tempos em que vivemos. E um triste reflexo dos programas de média audiovisuais nacionais em que impera a música anglófona, mais umas brasileirices e as musiquinhas dos amigalhaços/as com quem se partilham copos, comezainas, festas e namoradas/os.
Média audiovisuais que soberanamente ignoram as músicas espanhola, francesa, italiana,… Músicas de países que, como Portugal, fazem parte da mesma União Europeia e que, em pé de igualdade com a música anglófona, tanto se tocavam e cantavam nos anos 1960 deste país.
Média audiovisuais que arrogantemente ignoram a riqueza extremamente diversificada da música que se toca e canta nas aldeias e nos campos recônditos deste Portugal que os pedantes alfacinhas ignoram e mesmo desconhecem…
Longa vida ao cancioneiro de José Afonso !…

domingo, 30 de dezembro de 2018

Do jornalismo bota-fogo

J.-M. Nobre-Correia
Quando os média esquecem que o seu futuro e até a sua sobrevivência estão intimamente ligados aos da democracia plural…
Historicamente, a função de emoção sempre coexistiu com a de razão. Os “ocasionais” parajornalísticos, aparecidos em finais do século XV por essa Europa fora, relatavam factos de atualidade com incidência na vida dos meios dirigentes. Mas, um pouco mais tarde, os “canards”, para um público mais popular, falavam de sobrenatural, de milagres, de crimes, de catástrofes naturais mais ou menos excitantes.
Com a industrialização da imprensa no século XIX eclodiu também a prática jornalística propriamente dita. E, progressivamente, foram-se decantando dois tipos de imprensa de informação geral. A que dava a prioridade à exposição e interpretação serenas dos factos, a que se dedicará a chamada imprensa de referência. E a que privilegiaria o que era de natureza sensacional, mais preocupada com ingredientes bem condimentados e que se chamará imprensa “popular”. Passando esta a ser dominante em termos de vendas, a partir dos anos 1860.
Esta segunda tendência será reforçada com a chegada da rádio, dos seus “diretos”, dos seus jornais a várias vozes e as suas gravações dos mais diversos sons: gritos, risos, choros. O que acontecerá sobretudo a partir dos anos 1950. Tendência reforçada ainda com a imagem animada e a invasão dos lares europeus pela televisão nos anos 1960-70.
A desmonopolização do sector audiovisual nos anos 1970-80, fruto conjugado de novas tecnologias e de um novo “ar do tempo” cultural e político, desencadeou uma terrível lógica da concorrência. Todas as artimanhas serão doravante usadas para atrair o público, aumentar as audiências e fazer falar das próprias “exclusividades”. Tanto mais que a dita desmonopolização provocou uma incomensurável fragmentação do tecido social e uma cada vez maior incomunicabilidade entre grupos sociais que deixaram de partilhar temáticas de diálogo e até mesmo linguagem. Situação que a internet, a partir da segunda metade dos anos 1900, virá a acentuar de maneira exponencial.
Em fins do século XIX e início do século XX, os média foram um instrumento de integração social e um catalisador do sentimento de cidadania em democracias balbuciantes. E os destinos da imprensa e da informação jornalística estavam então intima e dialeticamente ligados aos da democracia política e do pluralismo sociocultural. Progressivamente, nestes últimos decénios, os média passaram a ser fatores de fragmentação social e de individualização dos comportamentos.
Com a perda de audiência de todos eles (considerados individualmente), resultado de uma infindável proliferação, os média de informação passaram a privilegiar acontecimentos e personagens disruptivos. Acontecimentos embora menores, mas que dão o sentimento de que, decididamente, nada funciona nesta nossa democracia. Personagens líderes ultra-egocêntricos de sindicatos, ordens ou ligas que fazem declarações e propõem ações quantas vezes inaceitáveis e até antidemocráticas.
No seu umbigo-centrismo, estes personagens perceberam bem que a boa estratégia para passarem constantemente nos média, e sobretudo na televisão, é fazerem declarações mais ou menos aterrorizantes : ausência de aulas ou de avaliações  nas escolas, atrasos em atos médico-cirúrgicos decisivos, riscos de incêndios fora de controlo,… E os média, esquecendo-se da responsabilidade social do jornalismo, põem-nos em evidência e até favorecem, reforçam este tipo de atitudes. Agindo de facto como verdadeiros bota-fogos de situações capazes de constituir autênticos atentados à democracia legalmente constituída.
Pensam eles, média e jornalistas, que vão assim conquistar público e alargar as suas audiências. Na realidade, vão apenas cobrir-se de descrédito, levar cada vez mais os cidadãos com um pouco de sentido crítico a afastar-se, a deixar pura e simplesmente de frequentá-los. Sobretudo quando boa parte destes cidadãos tem (erradamente) o sentimento de que poderão encontrar nas chamadas “redes sociais” a informação de que precisam, dispensando assim a produção dos jornalistas.
Os média de informação geral estão assim a cavar a cova em que se hão de enterrar. Esquecendo que o seu próprio futuro, a sua própria sobrevivência estão intimamente ligados aos da democracia plural. Quando o jornalismo bota-fogo atual consiste inequivocamente num convite irresponsável para uma “democratura” com que os órfãos do salazarismo tanto sonham…
Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles, autor do livro Teoria da Informação Jornalística (Almedina).

Texto publicado no diário Público, Lisboa, 28 de dezembro de 2018, p. 46.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Um “comentador” do antigamente…

J.-M. Nobre-Correia
Público de terça-feira 27 de novembro publicou nada menos de dois « comentários » de Augusto M. Seabra : um sobre um realizador de cinema e outro sobre um cantor de ópera. Confesso nunca tal ter visto num diário de referência europeu, onde os comentários de cinema e de ópera são assumidos por especialistas diferentes e claramente confirmados em cada uma destas áreas culturais.
Ora, o dito Seabra procede no caso do cinema como no caso da ópera com uma incrível ligeireza, inadmissível num diário de referência.
No primeiro texto, Seabra afirma a certa altura, a propósito do filme Antes da Revolução « que Bertolucci fez na sua cidade — também a cidade de Verdi —, Parma ». Ora Verdi nasceu em Roncole (que se chama hoje Roncole Verdi !) na província de Parma, o que não é a mesma coisa que a cidade de Parma.
Por outro lado, Seabra despacha em grande velocidade o filme Novecento de Bernardo Bertolucci : « Sim, Bertolucci fez filmes tão desastrados ou mesmo horrendos como 1900 ». Sem se dignar explicar por que é « desastrado ou mesmo horrendo », quando é isso que um leitor espera de um crítico de cinema : quais as razões técnicas e estéticas que o levam a fazer tais afirmações a propósito de um filme que muitos consideram no entanto como uma verdadeira obra prima ?
Quanto ao texto sobre o falecimento do cantor Álvaro Malta, o dito Seabra permite-se afirmações tão aproximativas como « E foi aí que, salvo erro em 1971 ». Ora, a obrigação de um especialista é de verificar precisamente os dados que avança antes de escrever sobre qualquer assunto, sobretudo se é considerado e se considera como especialista na matéria.
Seabra faz jornalismo no segundo decénio do século XXI como se fazia ainda nos últimos decénios do século XIX, quando os leitores tinham praticamente acesso apenas ao “seu” jornal. Só que um século e meio passou sem que manifestamente Seabra se tenha dado conta e continue a fazer um jornalismo inaceitável hoje em dia, sobretudo num diário de referência. É que, agora, os cidadãos podem ter acesso a uma multiplicidade de fontes de informação e darem-se assim conta das insuficiências pedantes de certos “comentadores”…

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Estas estranhas anomalias

J.-M. Nobre-Correia
Os média portugueses inventaram o estatuto e até a profissão de “comentador” que bota “opinião” em regime de concessão…
O jornalismo português sofre de enfermidades que o impedem de se situar ao nível do que de melhor se faz no resto da Europa. E uma dessas enfermidades é a que reúne duas estranhas anomalias : a superabundância dos “comentadores” todo-o-terreno em regime de concessão e a entronização de políticos profissionais como “comentadores”.
Os “comentadores” titulares (“residentes” !) dos média portugueses são de facto uma espécie de concessionários de espaço em papel ou em linha, ou de tempo de antena. Espaço com periodicidade e enquadramento preestabelecidos. E até, pasme-se, com variações de “escrita” autorizadas e adornos da intervenção do “comentador” estabelecidos por este…
Nesse espaço concessionado, o “comentador” escreve ou fala sobre o que lhe apetece. Sem sequer se concertar previamente com a redação que o acolhe. Ou então, no audiovisual, é-lhe anunciado o tema da emissão em que vai afrontar outros “comentadores” (quase sempre os mesmos). Uma confrontação numa espécie de pugilato em que procurará ocupar o máximo de tempo e impedir que os adversários falem, cobrindo com as suas intervenções as tomadas de palavra destes…
Mas o que há ainda de mais trágico nesta conceção do “comentário” é que os “residentes” são-no porque se autoproclamam competentes em tudo. E quando abordam temas que o leitor, ouvinte, espetador ou internauta conhece, é manifesto que a ignorância dos ditos “comentadores” é por vezes incomensurável. Só que são “bons clientes”, como se diz nos média francófonos : falam bem e têm garbo, possam embora dizer banalidades para encher o espaço ou o tempo que lhes é concedido…
Como se todas estas insuficiências não bastassem, para terem audiência e suscitaram reações nas edições em linha ou nas chamadas “redes sociais”, os “comentadores” recorrem à agressividade. Atacando rivais de média concorrentes. Atacando outros “comentadores” do média de que são “residentes”. Ou, sublime perfídia, criticando e mesmo chantageando a direção do média que lhes paga como “residentes”. Quando não insultam gratuitamente uns e outros, ou brincam aos irresponsáveis engraçadinhos…
Da “concessão” que lhe foi atribuída, muitos “comentadores” aproveitam para fazer a própria promoção (profissional ou narcísica) ou para ganhar mais ou menos faustosamente a vida. Mais do que isso : a falta de escrúpulos reinando, fazem referência às suas próprias vidas privadas e atividades profissionais ou a funções em que estão implicados. Enquanto vão “comentarizando” em vários média, de modo a ganharem mais notoriedade e dinheiro, provocando uma inacreditável concentração dos “fazedores de opinião”…
Mas o requinte máximo deste “comentarismo” é quando os profissionais da política são entronizados “comentadores”, com rubricas permanentes na imprensa, na rádio, na televisão ou em linha. Como se um profissional da política fosse naturalmente capaz de se alhear dos seus interesses partidários, tomar as devidas distâncias e analisar serenamente a atualidade nacional, internacional ou estrangeira.
A grande confusão nos média portugueses é que tudo é considerado “opinião”. Quando há uma diferença fundamental a fazer entre a “tribuna” de opinião e a “análise” de atualidade. Em princípio, a “tribuna” não tem titulares permanentes. É antes um espaço aberto em que personalidades da vida política, social, económica, cultural,… intervêm quando consideram deverem tomar posição sobre temas de atualidade e explicitar esta posição, propondo a um média uma contribuição puramente pontual.
A “análise” constitui ao contrário uma rubrica regular (e até mesmo diária), que surge em função da atualidade ou de maneira periódica (muitas vezes semanal). Nela, jornalistas seniores do próprio média, incontestáveis especialistas do assunto, ou personalidades exteriores de reconhecida autoridade na matéria, propõem perspetivações de um tema ou situação. Deixando os leitores, ouvintes, espectadores ou internautas tirar as próprias conclusões, reformulando eventualmente as suas próprias opiniões.
O que se faz na grande maioria dos média de informação portugueses pouco ou nada tem a ver com os géneros nobres do jornalismo que são, nomeadamente, a crónica, a análise, a entrevista, o debate. Antes pelo contrário, dizem sobretudo respeito a uma “recreatividade” que em nada contribui para uma informação jornalística de qualidade…
Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles, autor do livro Teoria da Informação Jornalística(Almedina)

Texto publicado no diário Público, Lisboa, 17 de novembro de 2018, p. 62.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Breves notas de perplexidade…

J.-M. Nobre-Correia
Estas duas últimas semanas foram férteis em acontecimentos inquietantes sobre o nosso Estado de direito e a nossa Democracia …
Os acontecimentos das últimas duas semanas nos meios das Forças Armadas e da Justiça deixam um muito desagradável sentimento de que estas duas instituições vivem verdadeiramente em roda livre. À margem do Estado de direito e da Democracia. Sem se preocuparem muito nem com aquele nem com esta. E sem que os supostos autores dos atentados a um e a outra sejam imediatamente suspensos, postos fora do ativo, enquanto se desenrolam os devidos processos de instrução.
Este sentimento em relação às Forças Armadas e à Justiça é extensivo às chamadas forças da ordem, que são aliás teoricamente um elo de ligação entre aquelas e esta. Mas que se ilustraram estes últimos dias com comportamentos absolutamente inaceitáveis. Quer no que diz respeito à publicação de fotos intoleráveis. Quer no que se refere à recente manifestação em frente da Assembleia da República.
Num país de velha democracia como a Bélgica, por exemplo, toda e qualquer manifestação é pura e simplesmente proibida num perímetro bastante alargado em torno do Câmara dos Representantes e do Senado. Em Portugal, e pela segunda vez, as forças policiais tentaram assaltar a Assembleia da República. Sem que se proceda depois à devida investigação para que os líderes de tal inqualificável iniciativa possam ser judicialmente expulsos da administração pública.
As competências e as companhias
Numa relação indireta com o tema das Forças Armadas, põe-se o caso do ex-ministro da Defesa. E a questão que se põe é a de saber se, de maneira geral, é politicamente são nomear alguém para altas funções, quando essa pessoa manifestamente não dispõe das competências indispensáveis para assumi-las ? Professor de Direito internacional, o ministro demissionário foi estranhamente antes presidente de uma instituição reguladora dos média (a ERC) e mais recentemente ministro da Defesa. E neste último caso, era manifestamente imaginável, concebível, que a engrenagem das Forças Armadas, com os seus ritos singulares, o seu espírito de corpo e até mesmo de casta, o tragaria se necessário fosse na devida altura.
Reparo anexo : não impede que se tenha nomeado há menos de um ano um novo presidente da ERC sem que o novo titular tenha manifestado anteriormente a menor competência em matéria de média, de informação e de programação. Diz mesmo quem sabe que a razão que o levou a assumir tal cargo foi a de prolongar assim a data limite da sua reforma ! E é isto que de certo modo explica a quase inexistência de intervenção da ERC na por vezes calamitosa atualidade dos média em Portugal…
Noutra matéria totalmente diferente, a coordenadora nacional do Bloco de Esquerda, veio no Públicocom um texto assinado por ela e mais três líderes partidários. O ilustre desconhecido de uma De Rød-Grønne dinamarquesa não menos desconhecida por estas bandas extremo ocidentais da Europa. O controverso líder do não menos controverso Podemos espanhol. E o insuportável líder de La France Insoumise que, na sua verborreia ultra vulgar, se preocupa antes do mais em destruir o que resta da esquerda em França e do que historicamente constituía o substrato comum às formações de esquerda, um líder que aliás se encontra atualmente a braços com a justiça. A coordenadora nacional faria bem em escolher melhor as suas companhias a nível europeu e não esquecer o célebre “diz-me com quem andas”…
As derrapagens da inconsistência
Temos por fim um ex-presidente da República que, uma vez mais, vem a público com um livro em que faz apreciações de caráter de personalidades públicas com quem privou nas suas funções. Mas onde faz também “revelações” de conversas que institucionalmente, como chefe de Estado, teve com estas mesmas pessoas.
Numa velha democracia como a Bélgica, o rei recebe semanalmente o primeiro ministro, como recebe muitas outras personalidades da vida social, económica, cultural… Chama-se à conversa que então tem lugar “um colóquio singular”. E ninguém imagina vir cá para fora dizer em que consistiu a conversa. Como é evidente que o chefe do Estado nunca dará parte destas mesmas conversas.
Em vinte anos de poder, o precedente presidente da República nunca percebeu bem quais eram os seus deveres de Estado. E, é claro, nunca soube afirmar-se como homem de Estado. Não há pois que admirar que ele venha agora uma vez e outra a meter a pata na poça. Interroguemo-nos antes sobre as caraterísticas socioculturais de um povo que o elegeu tantos anos a fio…
No contexto europeu, os países que funcionam incontestavelmente melhor são aqueles onde as noções de Estado de direito e de Democracia estão solidamente enraizadas no espírito dos seus habitantes, por vezes há centenas de anos. Mas isso não é razão para desesperarmos de um Portugal em que os sintomas de disfuncionamento se vão repetidamente arrastando. Há porém que legislar serena e ponderadamente, de modo a reforçar solidamente os mecanismos de proteção do bom funcionamento do Estado de direito e da Democracia…

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Sair desta aflitiva miséria

J.-M. Nobre-Correia
Portugal dispõe de uma paisagem mediática de informação que não está à altura de uma democracia moderna europeia…
Dentro de um mês, o XXI governo constitucional completará três anos de vida. E o balanço da sua ação é mais ou menos contrastado segundo o posicionamento político de quem faz a avaliação. Há porém um sector em que a ação do governo foi inexistente. Até porque os dois titulares que se sucederam no Ministério da Cultura não manifestaram o mínimo interesse pela matéria.
Ora, a situação dos média — é deles que se trata — é há longos anos caraterizada por uma profunda inadequação às necessidades de uma sociedade moderna em democracia. Não só porque a paisagem mediática impressa é a mais pobre de todas as da Europa ocidental, em termos de difusões como de pluralismo. Mas também porque as próprias paisagens radiofónica e televisiva são pouco diversificadas, no que diz respeito aos conteúdos como às estruturas de propriedade.
A triste realidade é que o 25 de Abril, o novo Portugal democrático, dizimou a imprensa do país. É certo que qualquer cidadão passou a ter o direito de criar um jornal (caso disponha dos meios financeiros indispensáveis para o fazer). E que todo e qualquer média pôde começar a praticar a liberdade de informar segundo a sua própria conceção (por vezes bem mais descomedida do que em países europeus de velha democracia). Mas, dos doze diários ditos “nacionais” de então, só o Jornal de Notíciassobrevive ao lado de três nascidos em democracia. Nos semanários generalistas “nacionais”, só o Expressonascido um ano antes ainda é publicado. Enquanto que a imprensa regional, mais numerosa hoje do que antes do 25 de Abril, é, com raríssimas exceções, extremamente frágil, pouco profissional e com difusões reduzidíssimas…
Por seu lado, a rádio e a televisão tiveram uma entrada em democracia a contracorrente do que se estava a passar na Europa ocidental. Enquanto os anos 1970 foram os da explosão das chamadas “rádios e televisões livres”, em Portugal as rádios foram todas fundidas na nova RDP pública, só a Rádio Renascençado episcopado tendo sobrevivido. As televisões privadas nacionais chegaram uma boa dezena de anos mais tarde do que as congéneres europeias. E não falemos sequer em rádios e televisões regionais que, com a exceção da Porto Canal, não existem.
A paisagem mediática portuguesa é pois de uma aflitiva pobreza. E, globalmente, mais pobre é ainda a informação jornalística proposta. Quando uma sociedade democrática tem uma imperativa necessidade de informação de qualidade tratando dos diferentes aspetos da atualidade, propondo aos cidadãos abordagens plurais e análises contrastadas desta atualidade.
As autoridades responsáveis do país deveriam pois favorecer a elaboração de um programa de desenvolvimento dos média existentes e de incentivação à criação de novos média de informação. Instigando, nas grandes regiões onde não existem, a criação de uns quatro diários regionais digitais, até porque as estruturas de impressão e de distribuição locais não existem. Fortalecendo os semanários com uma real implantação regional. Apoiando o reforço das redações dos diários ditos nacionais, nomeadamente em matéria de informação regional, internacional e da lusofonia, e incrementando as suas difusões. Estimulando também a criação de uma meia dúzia de rádios e de outras tantas televisões regionais devidamente espalhadas pelo território. Delimitando o perímetro das atuais televisões nacionais e impondo cadernos de encargos bem precisos de modo a evitar as derivas atuais.
É certo que as iniciativas governamentais na matéria são geralmente mal acolhidas pelos média instalados. O que não constitui pois uma tática política judiciosa em véspera de eleições europeias e legislativas… Mas a nova ministra da Cultura deveria considerar este dossiê como prioritário, de modo a poder ser abordado logo no início da próxima legislatura. Porque há verdadeiramente urgência em sair da inaceitável miséria atual. A não ser que o mundo político pense que é mais fácil governar sem média de informação. Sem média que possam agir como contrapoderes da sua ação. Sem que os cidadãos sejam convenientemente informados e possam assim ter a legítima pretensão de participar nos destinos da nação !…
Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles, autor do livro Teoria da Informação Jornalística (Almedina).

Texto publicado no diário Público em linha, Lisboa, 24 de outubro de 2018.