sábado, 22 de abril de 2017

Anomalias e incertezas

J.-M. Nobre-Correia
Política : A campanha para as eleições presidenciais marcará data na história de França. Até porque nada se passou na relativa quietude habitual. E porque as consequências são demasiado imprevisíveis…
Decididamente, a campanha para as eleições presidenciais em França terá sido do início ao fim marcada por toda uma série de anomalias. O que a transformou num oceano de incertezas não só sobre os destinos da França como também da União Europeia. Para além de anunciar muito provavelmente uma nova cartografia da paisagem político-partidária francesa que não deixará de ter repercussões no resto da Europa [1]
A primeira anomalia constituiu uma surpresa em três planos. Emmanuel Macron, ministro da Economia sem etiqueta política, funda um movimento político (em abril de 2016) cinco meses antes de se demitir das suas funções ministeriais. Demitiu-se depois (em agosto), oito meses apenas antes do fim do mandato presidencial de François Hollande, dando assim a impressão de abandonar o navio quando estava a meter seriamente água. Declarou-se depois candidato à presidência da República (em novembro), obtendo rapidamente sondagens extremamente favoráveis, tanto mais surpreendentes que não tinha atrás de si uma das tradicionais forças partidárias.
As surpresas abusivas das primárias
Outra anomalia importante foi o facto de terem saído das “primárias” dos ecologistas (em outubro-novembro), da “direita e centro” (em novembro) e da “esquerda” (em janeiro de 2017) três eleitos inesperados. Três eleitos que os média como as sondagens tinham durante longas semanas considerado com fracas probabilidades. O que fará muito provavelmente que os grandes partidos (ou as organizações que lhes sucederem) deixarão no futuro de organizar tal tipo de contenda, geradora de incerteza e fragilidade por demais evidentes.
Situação inédita a de um presidente em exercício, François Hollande, que decide não voltar a apresentar-se às eleições presidenciais. Consequência de sondagens assombrosamente negativas. Mas decisão tomada demasiado tarde, o que complicará seriamente a organização de “eleições primárias” pelo Parti Socialiste, assim como, em seguida, a campanha do eleito nestas “primárias”.
Enquanto os outros candidatos ditos “principais” tinham começado as suas campanhas meses atrás, o candidato do PS, Benoît Hamon, meteu-se em negociações anormalmente demoradas com o candidato ecologista ...eleitoralmente pouco significativo. Errou igualmente fazendo apelos sucessivos para que, no fundo, o candidato da esquerda radical, Jean-Luc Mélenchon, desistisse em seu favor, quando este se encontrava em posição desfavorável nas sondagens. Só que Mélenchon fez uma campanha muito mais carismática e mobilizadora do que Hamon, começando por ultrapassar este nas sondagens e desterrando-o finalmente para uma posição extremamente inconfortável de quinto classificado… Situação tanto mais inconfortável que diversas personalidades do PS traíram os compromissos tomados e mesmo devidamente subscritos : foi o caso de antigos concorrentes nas primárias, como o ecologista François de Rugy e o antigo primeiro ministro Manuel Valls que se declararam apoiantes do centrista Macron !
Numa lógica elementar de esquerda, Hamon deveria finalmente retirar-se em favor de Mélenchon. Tanto mais que isso significaria que boa parte dos seus eleitores se repartiriam entre, à sua direita, Macron, e, à sua esquerda, Mélenchon, reforçando deste modo o campo dos que se opõem a François Fillon, da direita conservadora, e a Marine Le Pen, da extrema direita. Mas esta lógica política opõe-se à lógica partidária. Porque retirar a candidatura significaria entregar o futuro do PS à direita do partido. Mas significaria também que o PS perderia o reembolso previsto pela lei de 47,5 % das despesas da campanha (o que corresponderá certamente a alguns, para não dizer muitos milhões de euros), caso Hamon obtenha mais de 5 % dos votos.
A imprensa e a Justiça na contenda
Entretanto, no meio de todas estas anomalias e incertezas, vieram a imprensa e a Justiça a acusar Fillon e Le Pen de, nomeadamente, desvios de bens públicos e abuso de bens sociais em proveito pessoal e familiar, no primeiro caso, em proveito pessoal e do partido, no segundo. O que abalou a posição favorável de Fillon nas sondagens, posição que veio depois a reconquistar parcialmente. Mas o que não provocou grandes mudanças no que diz respeito a Le Pen, a sua base eleitoral dando pouca importância às questões de ética e de exemplaridade…
A França encontra-se assim, pela primeira vez na história da V.a República, numa situação de total incerteza no que diz respeito aos resultados da primeira volta da eleição este domingo. E até mesmo em relação à segunda volta da eleição em 7 de maio. Tanto mais que, em fim de campanha, é descoberta a preparação de um atentado terrorista em Marselha. E que ontem um atentado terrorista teve significativa e simbolicamente lugar nos Campos Elísios (Champs Élysées), em Paris, suscitando um clima de insegurança e dramatização que terá muito provavelmente consequência sobre o voto.
Ora, o sentimento de insegurança leva geralmente os eleitores a votarem em favor dos adeptos de posições autoritárias, pouco ou nada respeitadoras do pluralismo e da legalidade. E nisto, os dois candidatos da direita conservadora e da extrema direita poderão bem ser os beneficiários. Até porque os terroristas, e nomeadamente os terroristas islâmicos, procuram à viva força desde há muito anos que a Europa, e muito particularmente a França, renuncie progressiva e notoriamente ao que a leva a aparecer aos olhos do mundo como uma terra de liberdade e de democracia…



[1] Ver a este propósito J.-M. Nobre-Correia, « A nova revolução francesa ? », in Notas de Circunstância 2, 12 de março de 2017.



Texto publicado no blogue A Vaca Voadora, 21 de abril de 2017.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

O argueiro e a trave

J.-M. Nobre-Correia
Média : O telejornal da RTP 1 é um reflexo de vaidades num oceano de inconsistência e de irresponsabilidade…
Anda por aí uma polémica daquelas de que o meio mediático português tem o segredo. Ou melhor : de que só o microcosmos jornalístico lisboeta sabe confeccionar a receita. E isto porque, como noutros países, os jornalistas estimam ter o direito (e devem de facto tê-lo) de se interrogarem sobre tudo e todos, e, se necessário, criticarem as opiniões de uns ou os feitos de outros, mas não suportam que alguém possa também fazê-lo sobre a maneira como praticam o ofício.
Esta rejeição é tanto mais inflexível quanto a “classe” vive como num bocal, conhecendo-se uns aos outros, frequentando os mesmos lugares e manifestações de toda a ordem, quando não conviveram nas mesmas escolas, em próximos círculos de família ou de amigos, e até tiveram os/as mesmos/as namorados/as. O que os torna ainda mais susceptíveis em relação às críticas vindas do exterior, considerando-as traição ou arrivismo quando provêm de antigos jornalistas, ignorância ou pedantismo quando oriundas de outros meios profissionais.
Que os telejornais da RTP 1 sejam quase sempre de uma enorme indigência, nas temáticas escolhidas, na hierarquização das sequências e nos tratamentos adoptados, são manifestamente considerações proibidas de fazer. Como não é permitido notar que os principais apresentadores estão cheios de tiques faciais, gestuais e de elocução, o mais inacreditável sendo o piscar de olho final de um deles. Ou que é perfeitamente insuportável a preferência doentia dada aos faits divers (brutais, sangrentos, desgarrados, gritados e carpidos se possível) e à futebolite aguda (a não confundir com o desporto em geral).
Mas até há outras razões para crítica. Que em vez de explicações didácticas de temas obscuros, os jornalistas preferem mostrar-se a si próprios em locais que nem sempre têm a ver com o assunto, juntando muitas vezes imagens passe-partout e não-pertinentes. Que os comentários interpretativos são raramente assumidos por gente competente da redação, mas sim por “comentadores” exteriores todo-o-terreno, palradores raramente capazes de síntese. Que os “directos” são uma assoladora praga, quando na grande maioria dos casos a actualidade não justifica estas intervenções de pseudo-repórteres (que se abstêm aliás de proceder a etapas essenciais : filmar acontecimentos, seleccionar passagens significativas, montá-las e gravar o som que as deve acompanhar).
Que são abusados por políticos, sindicalistas, dirigentes desportivos e demais actores sociais que, como por acaso, têm declarações a fazer à hora do telejornal, impondo “directos” desprovidos da mais elementar “edição” jornalística, assumindo o “repórter” de serviço a função de mero canalizador. Que haja jornalistas que andam diariamente atrás dos líderes partidários e acham que devem absolutamente retransmitir extractos das declarações deles, mesmo quando são totalmente desprovidas de interesse.
Que a maior parte das vezes os correspondentes no estrangeiro se abstêm de fazer a mais elementar reportagem (ou então esta é-lhes fornecida por instituições locais), tendo sobretudo a preocupação de se mostrarem a si próprios e dizendo-nos coisas para as quais não era preciso terem saído de Lisboa para poderem dizê-las até de maneira mais aprofundada e construída. Que a investigação, o dossiê e a grande reportagem são extremamente raros, porque isso supõe trabalho em equipa e, claro está, meios financeiros, técnicos e humanos.
Espantemo-nos depois que um fait divers em nada significativo da evolução da sociedade e do estado da moral social, muito menos sem incidência na vida quotidiana dos cidadãos, redunde de facto numa lamentável cena de pancadaria generalizada. Tema e cena certamente apreciada pela direcção da informação da televisão pública (como aliás pelas suas antecessoras) que lhe consagra 1 minuto e 38 segundos, depois de outros três temas de natureza criminal [*]. Peça que vem após duas outras sobre a CGD e o Montepio (a primeira das quais tecnicamente falhada), mas antes de temas de manifesta somenos importância como o surto de hepatite A, as desigualdades salariais, o aumento do preço das casas ou as eleições autárquicas. Cada um destes merece aliás uma só sequência, quando o Benfica-Porto de dois dias depois tem direito a quatro e claro, antes disso, a um anúncio a meio do telejornal.
Como a justificar uma popularunchização particularmente medíocre, vêm jornalistas da RTP em petição exigir a demissão de quem ousou criticar o tratamento de uma “peça” do jornal. Quando, se petição deveria haver, seria para reivindicar do conselho de administração a nomeação de uma direcção da informação e de chefes de serviço na redação capazes de conceber e construir diariamente um telejornal digno de uma televisão pública. Mas isso…
2 de Abril de 2017.

Nota final em forma de interrogação : que capacidade de tolerância e sentido do debate, da confrontação de ideias, poderia revelar a “classe” jornalística dos média ditos “nacionais” perante este texto ?…




[*] Telejornal das 20h00 de quinta-feira 30 de março na RTP 1.


Texto publicado no blogue A Vaca Voadora, 11 de abril de 2017.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Cegueira e imobilismo


J.-M. Nobre-Correia
Média : No caso da ERC, a atitude dos partidos (do governo, da maioria parlamentar e da oposição) é perfeitamente confrangedora…

Para quem fez toda a carreira profissional no estrangeiro e viveu toda a vida de adulto lá fora (com um regresso recente ao país) há em Portugal coisas de espantar. Assim a apatia mais ou menos geral da sociedade civil a acontecimentos e decisões que marcarão o destino dos portugueses. Ou a indiferença com que os partidos políticos preferem fazer que não veem flagrantes anomalias no funcionamento da democracia…
Mesmo quando a arquitetura parlamentar e governamental muda de maneira marcante, nada de substancial muda em certas matérias. É o caso da paisagem mediática : Portugal tem a imprensa mais frágil de toda a Europa ocidental. Tanto no que diz respeito ao reduzido número de diários e semanários de informação geral como às tiragens diminutas destes. E no entanto, neste “tempo novo” da vida política, nada, absolutamente nada foi feito para que a imprensa possa ganhar dinamismo e diversificação. Para que os portugueses sejam pluralisticamente mais informados, de modo a melhor poderem assumir o estatuto de cidadãos.
Nesta matéria, a nova maioria parlamentar (…e a oposição) como o governo (e em particular o Ministério da Cultura, que tem o sector nas suas atribuições) têm-se mostrado totalmente amorfos. Dando a impressão horripilante de que este ultra-subdesenvolvimento da informação escrita lhes convém bem, mantendo os cidadãos longe ...do que lhes deveria dizer respeito. E tanto mais quanto é certo que na televisão, média dominante, o infotretenimento domina, misturando faits divers e futebol de modo a provocar sensações forte, mas não melhor compreensão da sociedade em que vivem.
Esta indiferença de cidadãos e parlamentares é posta em evidência com a situação atual da Entidade Reguladora para a Comunicação Social. É certo que a instituição foi criada para instalar uns amigos do PS e do PSD em situação social e financeira confortável. Cada um nomeia dois aderentes ou inquestionáveis compagnons de route que serão eleitos por uma maioria de dois terços da Assembleia da República. Teoricamente estes quatro cooptam um quinto e os cinco elegem depois o presidente. Na realidade, o partido no governo escolheu até agora o quinto elemento e futuro presidente da ERC.
Só que desta vez, o PSD estima que, tendo sido o partido mais votado nas legislativas, é ele que deve escolher. Encontramo-nos assim com uma ERC atualmente reduzida a três membros (os outros dois tendo-se demitido) que deveriam ter cessado funções em 9 de novembro ! O que prova bem que PS e PSD acham que não há urgência em se ocuparem dos média ...não renunciando no entanto a nomear gente deles para lugares apetecíveis.
Mas há na situação dois outros aspetos significativos. PS e PSD continuam a ignorar aliados habituais ou atuais e a considerar a ERC como coutada estritamente reservada. Enquanto que os demais partidos aceitam de facto esta situação, num mutismo revelador de insensibilidade em relação a um possível desabrochar de uma informação mais democrática e pluralista…

Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles


Texto publicado no semanário Expresso, Lisboa, 8 de abril de 2017, p. 34.


Texto publicado no blogue A Vaca Voadora, 9 de abril de 2017.

domingo, 12 de março de 2017

A nova revolução francesa ?



J.-M. Nobre-Correia
Política : Os acontecimentos que tiveram lugar a partir de 1789 provocaram uma rotura fundamental na História do país como do resto da Europa. As eleições que se aproximam poderão bem provocar outra viragem decisiva…

Falar hoje de política francesa supõe um indispensável preâmbulo : tudo pode mudar ainda de maneira radical em relação ao que parece poder diagnosticar-se seis semanas antes da primeira volta das eleições presidenciais. Que mais não seja porque a Justiça tem em curso procedimentos em relação a pelo menos dois candidatos. Mas também porque os conflitos internos no seio das duas principais formações políticas estão longe de estar apaziguados…
De qualquer modo, as próximas eleições presidenciais, seguidas de eleições legislativas, poderão bem fazer desmoronar o sistema político francês, não deixando pedra sobre pedra do que foi a V.a República erigida pelo general Charles de Gaulle. Até porque a França vive desde há meses uma série de acontecimentos inéditos na sua história recente. Com o presidente da República sortant que renuncia a candidatar-se a novo mandato. E com as duas principais formações políticas (o Parti Socialiste [PS] e Les Républicains [LR] [1]) organizando eleições primárias de onde saem vencedores inesperados, eliminando os “prometidos” que média e sondagens iam anunciando…
A recomposição da vida democrática
Estas mesmas sondagens, cuja fiabilidade tem sido posta em causa, dizem agora que três candidatos se disputarão de facto a primeira volta das presidenciais : o centrista Emmanuel Macron, a extremista de direita Marine Le Pen e o conservador François Fillon. Ficam muito provavelmente excluídos da segunda volta todos os outros, nomeadamente o socialista Benoît Hamon, vencedor das primárias da esquerda alargada [2], e o autoproclamado candidato de esquerda radical Jean-Luc Mélenchon.
A concretizarem-se tais previsões, isso significaria que a esquerda, e mais particularmente o PS, pela segunda vez na história da V.a República não estaria presente na segunda volta das presidenciais [3]. A direita do PS tudo tem feito para que assim seja, das críticas públicas ao posicionamento de Hamon às adesões de grandes figuras do partido à candidatura do centrista Macron. Enquanto que o esquerdista Mélenchon nada mais deseja do que a implosão do seu antigo partido, esperando assim construir uma nova formação “autenticamente de esquerda”, com franjas de esquerda do PS e o que resta do Parti Communiste Français, assim como com algumas das micro-formações da esquerda radical e do esquerdismo.
O reposicionamento do PS à esquerda é também a ambição de Hamon. Mas a batalha será rude, pois não interessa à direita social-liberal entregar os destinos do partido a quem foi notoriamente crítico em relação à ação dos governos presididos por François Hollande nos últimos anos. E a manifesta incapacidade e má vontade da direita do partido em afirmar uma união de fachada em relação ao candidato da esquerda traz à luz do dia a violência interna que se declarará depois das eleições. Logo por ocasião da elaboração das listas para as legislativas de 11 junho, mais ainda quando for preciso fazer alianças para enfrentar a segunda volta de 18 e sobretudo depois do provável resultado insatisfatório destas. Tanto mais que Manuel Valls, ex-primeiro ministro que considera que as “duas esquerdas” são “irreconciliáveis”, procurará reposicionar o PS no social-liberalismo com que ele próprio se identifica.
Les Républicains estarão confrontados a uma situação relativamente idêntica caso Fillon não consiga vir a ser um dos dois candidatos que se afrontarão na segunda volta das presidenciais. Muito embora as diferentes correntes do partido estejam a dar uma imagem pública de união, depois de uma fase em que as hostilidades em relação ao candidato do partido vieram abertamente a público, por vezes seguidas de afastamentos da sua campanha. Porém, depois das duas eleições, e até talvez já antes das legislativas, a confrontação entre Nicolas Sarkozy e Alain Juppé parece inevitável.
A crise anunciada da V.a República
A recomposição da paisagem partidária francesa parece pois estar inscrita num horizonte imediato. A acreditar na fiabilidade das sondagens, Emmanuel Macron tem grandes probabilidades de vir a ser o próximo presidente da República, pois é dificilmente imaginável que a “disciplina republicana” não leve na segunda volta os eleitores de esquerda a escolhê-lo na confrontação com Marine Le Pen ou mesmo com François Fillon. Mas a questão que se põe imediatamente é a de saber como é que Macron, personagem sem filiação partidária e sem partido, conseguirá constituir uma formação política capaz de se impor no parlamento e de apoiar solidamente a ação governamental do novo presidente. E a questão seguinte será a de saber que correntes irão reforçar o novo partido de Macron após as presidenciais, que partidos se aliarão a ele antes da segunda volta das legislativas e o apoiarão depois de facto na vida parlamentar.
Atualmente, Macron conta com apoios vindos da direita (como o ex-fascista reconvertido em liberal Alain Madelin), do centro (nomeadamente o democrata-cristão François Bayrou que foi três vezes candidato à presidência da República) ou da esquerda (vários expoentes socialistas como comunistas, nomeadamente o ex-secretário geral do PCF Robert Hue). Alain Juppé e Manuel Valls juntar-se-ão também a ele na segunda volta das presidenciais ou na segunda volta das legislativas ?
Por outro lado, caso venha a reforçar a sua posição no seio do LR, Sarkozy conseguirá atrair e absorver parte do Front National de Marine Le Pen ? O FN é antes do mais uma empresa de caráter familiar onde pai (Jean-Marie), filha (Marine) e neta (Marion) controlam as estruturas e os bens do partido. Mandatários haverá que se cansarão de continuar eternamente marginalizados, longe do Poder real : um LR reposicionado ainda mais à direita por Sarkozy tentá-los-á ?
Após as eleições presidenciais e as eleições legislativas há grandes probabilidades que o edifício construído antes do mais pelo general Charles de Gaulle e depois, de certo modo, por François Mitterrand venha a desabar. As duas formações políticas essenciais que foram os pilares-mestres da V.a República correm em todo o caso um sério risco de se desmoronarem e desaparecerem da cena política.
A aniquilação de formações tradicionais sustentáculos do sistema democrático já ocorreu na Itália com a Democrazia Cristiana e o Partito Comunista Italiano, e até de certo modo o Partito Socialista Italiano. Mas a recomposição em França não deixaria de ter repercussões ideológicas e estruturais no resto da Europa, até pelo peso político que o país tem no seio da União Europa, como pelo peso cultural que é o seu no resto da Europa, digam o que disserem por aí os amadores de simplismos e de verdades prontas-a-proclamar…



[1] Les Républicains é o atual nome do chamado « partido gaullista ». Partido liberal-conservador que sucedeu à UMP (2002-2015), ao RPR (1976-2002), à UDR (1967-1976) e à UNR (1958-1967) fundada por ocasião da chegada de Charles de Gaulle au poder.
[2] V. a este propósito J.-M. Nobre-Correia, « A mutação que se anuncia », in Notas de Circunstância 2, 2 de março de 2017.
[3] Em 2002, o socialista Lionel Jospin foi eliminado logo na primeira volta, tendo-se confrontado na segunda volta o gaullista Jacques Chirac e o presidente do FN, Jean-Marie Le Pen. Formalmente, o (novo) Parti Socialiste francês foi (re)fundado em 1971. Mas antes, em 1969, a esquerda tinha já estado ausente da segunda volta das eleições presidenciais de 1969.

Texto publicado no blogue A Vaca Voadora, 11 de março de 2017.