sexta-feira, 10 de maio de 2019

Mon hommage à Michel Fromont

Personne qui a eu de très hautes responsabilités dans les médias belges me dit, de Bruxelles, que Le Soirn’a pas consacré un seul mot au tout récent décès de Michel Fromont.
Michel Fromont a été directeur général de La Nouvelle Gazette, d’abord, de La Meuse, ensuite, et du group Sud Presse qu’il a réé, finalement. Et c’esr en tant que directeur général de La Nouvelle Gazetteque, un des tout premiers, il z u le sentiment qu’il fallait que la presse quotidienne se diversifie vers les radios locales naissantes et a lancé RFMCharleroi en 1983, si j’ai bon souvenir (n’ayant pas ma documentation sous la main).
Avant ça, Michel Fromont a été secrétaire général de l’AGJPB, jouant le rôle que l’on imagine aisément au sein de cette association professionnelle forcément présente dans l’actualité des médias.
Michel Fromont joua surtout un rôle important et déterminant dans l’opposition frontale à l’arrivée de Robert Hersant au sein du groupe Rossel et plus particulièrement dans la presse hennuyère.
J’aimais chez Michel Fromont (dont j’ai publié un portait voici trente ans : « Michel Fromont : l’activiste de la Presse wallonne », in Trends Tendances, Bruxelles, 2 février 1989, pp. 28 et 29) l’homme chaleureux, plutôt « popu », batailleur, déterminé.
Du fond de ma province portugaise, je tiens à lui rendre ce modeste hommage que d’autres ont oublié : étonnons-nous après que beaucoup de journaux ne se vendent plus, alors même qu’ils oublient de parler de tant e tant de choses des jours qui passent !…

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Do grau zero da “análise”

J.-M. Nobre-Correia

Miguel Sousa Tavares ou a indigência de um certo “colunismo” de “comentador” todo-o-terreno…
Estamos assim: Miguel Sousa Tavares, grande especialista em todas as matérias (política nacional, política internacional, economia, finanças, ecologia, futebol…) propôs aos leitores do Expressode sábado passado um texto em que fala nomeadamente do Alqueva sob o título “A Catalunha e Espanha” !
Para além disto, Sousa Tavares não propõe a mínima informação inédita nem a mais ténue argumentação sobre o tema anunciado pelo título. Antes se limita a alinhar insultos a “intelectuais — alguns do tipo pronto-a-vestir e pronto-a-aderir”, muitos dos quais professores universitários reconhecidos internacionalmente, que ousaram publicar no Públicode 23 de abril um manifesto assinado por 63 individualidades : “Pela democracia e pelas liberdades na Catalunha” [i]. Assim como ao “anterior chefe do Governo espanhol, Mariano Rajoy, do PP, a quem, entre outras debilidades, a inteligência não favorecia particularmente”, que aliás é também tratado de “inepto Rajoy”. Ou ao “triste personagem chamado Carles Puigdmont” que tem também direito a um “patético Puigdemont, desde então em conveniente exílio” (Sousa Tavares que nunca foi exiliado sabe evidentemente do que fala). Ou ao “nosso omnipresente Boaventura Sousa Santos” (muitíssimo menos omnipresente do que Sousa Tavares nos média portugueses, mas bem mais conhecido no estrangeiro). Ou, de certo modo, a “Pedro Sánchez, um inesperado líder do PSOE”. Enquanto, segundo Sousa Tavares, “Pablo Iglesias, foi o mais calmo e o mais vazio de todos. Aliás, o mais dececionante, a começar pela sua postura datada e gasta de esquerdista de café”, quando, consultados por uma folha madrilena chamada El País, quatro em oito “politólogos, consultores e professores” consideraram que ele tinha sido o melhor no primeiro debate televisivo entre líderes e oito que tinha sido o melhor no segundo debate (mas “alguns” destes oito deviam ser “do tipo pronto-a-vestir e pronto-a-aderir” na elegante estilística do colunista-comentador todo-o-terreno).
Sousa Tavares, especialista em tudo, que mete demasiadas vezes “a foice em seara alheia” (a terminologia é dele), e sobretudo em “seara” que ignora, deve ter-se esquecido que escreve para um semanário de referência. O que, manifestamente, lhe acontece cada vez mais, esquecendo, com efeito, que a vacuidade de uma prosa entremeada de insultos não é exatamente o que os leitores esperam como informação e argumentação da parte de um “colunista”…


[i]Manifesto de que fui um dos autores.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

O descalabro anunciado

J.-M. Nobre-Correia
Sindicatos, ordens e ligas são geralmente fatores de reforço do Estado democrático. Não é isso que acontece em Portugal…
Um vento nauseabundo sopra sobre a Europa. Um após outro, os pilares fundamentais das sociedades democráticas vão-se desmoronando. De maneira estrondosa na chamada “Outra Europa”. Aquela para a qual a União Europeia quis alargar-se por pura opção anti-russa, quando boa parte desses países não partilharam uma história comum com a Europa Ocidental. Para constatarmos agora que o compreensível anti-soviétismo deles era fruto de considerações histórico-culturais e não exatamente de um real desejo de vida em democracia liberal. E os melhores exemplos de “democraturas” autoritárias são agora a Hungria e a Polónia.
Para cá da antiga “cortina de ferro”, os pilares da democracia pluralista desde o século XIX e sobretudo desde após a Segunda Guerra Mundial vacilam fortemente. Com o fim das grandes famílias políticas (e não apenas dos partidos) na Itália e na França, países que caíram num vacum pleno de incertezas, formações populistas e de extrema direita sendo cada vez mais importantes. E com uma instabilidade largamente anunciada em Espanha e mesmo na Alemanha, para não falar já de uma Grã-Bretanha a largar amarras.
Em todos estes países, o neoliberalismo thatcheriano fulgurante e as inconsideradas deslocalizações da produção industrial para regiões de mão de obra barata, provocaram o empobrecimento e a precarização das classes médias e populares. E, paralelamente, assistiu-se ao enriquecimento descomedido de meios dirigentes, puros especuladores financeiros muitas das vezes.
Observadores europeus pouco atentos afirmam há largos meses que, neste contexto geral, Portugal constitui uma exceção. Porque, caso praticamente único, é governado por um partido de esquerda “clássico”, apoiado no parlamento por duas formações de esquerda radical. Mas também porque, tendo feito opções de caráter económico a contracorrente do que então “fazia lei” na União Europeia, conseguiu resultados económicos e financeiros elogiados pela maioria das instituições internacionais especializadas.
Só que, vista de dentro, a situação é extremamente inquietante e com origens bastante diferentes do que se passa no resto da União Europeia. Porque aqui são sindicatos, ordens e ligas que, escapando às suas razões de ser históricas, desencadearam uma “canhonada” permanente dos serviços públicos e do aparelho de Estado.
Ao criarem uma instabilidade permanente que impede escolas e hospitais públicos de assumir a função social essencial que é a deles, estão de facto a provocar o seu funcionamento insatisfatório e, paralelamente, a favorecer as empresas privadas desses sectores. E quando ameaçam também impedir o funcionamento normal dos serviços fiscais e da justiça, estão manifestamente a reforçar o sonho de uma certa direita radical de entregar largamente a gestão de tais serviços a privados.
O regresso da democracia em Portugal operou-se de maneira original, por um golpe militar, a contracorrente da história recente da Europa. Também agora o enfraquecimento do Estado democrático está a ser operado por associações que só puderam ser criadas porque a democracia assim o quis. Mas enquanto, no resto da Europa, sindicatos, ordens e ligas são quase sempre fatores de reforço do Estado democrático, muitos deles estão a transformar-se em Portugal em aprendizes-coveiros da sociedade democrática. Abusando de um entendimento em que os cidadãos só têm direitos e não deveres, fazendo reivindicações gananciosas irrealistas, provocando uma instabilidade potencialmente favorável a um salazarismo “ao gosto do dia”.
Neste dealbar de um Portugal cinzentão em que grande parte dos sectores públicos de base passariam sob o controlo do sector privado (onde, repare-se, não há greves nem exigências salariais, de promoções, idade de reforma ou pensões : só o Estado é a grande “vaca leiteira” !), a direita radical e a extrema direita acederiam de novo a postos de comando. Graças aos sindicatos, ordens e ligas abastardados que temos. E graças também à irresponsabilidade de média (e sobretudo de televisões) obcecados pela procura permanente de declarações sensacionais, excessivas e caricaturais de líderes inconscientes. Líderes que, esperemos, terão um dia que responder pelo estado de descalabro em que estão a pôr o país…
Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles, autor do livro Média, Informação e Democracia(Almedina).

Texto publicado no diário Público, Lisboa, 26 de fevereiro de 2019, p. 7.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Sinal dos tempos em que vivemos

J.-M. Nobre-Correia
Homenagem, ontem, a José Afonso, por ocasião da passagem do 32° aniversário do seu falecimento. Estavam presentes umas 150 pessoas. Mas nem uma com menos de uns 50-60 anos ! Todas com uns 60, 70 ou mesmo mais de 80 anos…
As novas gerações deste país desconhecem o que José Afonso representou nos tempos do salazarismo. O que as letras de muitos dos seus cantos manifestavam como resistência à ditadura, à miséria, à repressão. O que as músicas de muitos dos seus cantos representavam como redescoberta de um formidável cancioneiro popular lamentavelmente esquecido.
Esta ausência dos jovens traduz de facto um triste sinal dos tempos em que vivemos. E um triste reflexo dos programas de média audiovisuais nacionais em que impera a música anglófona, mais umas brasileirices e as musiquinhas dos amigalhaços/as com quem se partilham copos, comezainas, festas e namoradas/os.
Média audiovisuais que soberanamente ignoram as músicas espanhola, francesa, italiana,… Músicas de países que, como Portugal, fazem parte da mesma União Europeia e que, em pé de igualdade com a música anglófona, tanto se tocavam e cantavam nos anos 1960 deste país.
Média audiovisuais que arrogantemente ignoram a riqueza extremamente diversificada da música que se toca e canta nas aldeias e nos campos recônditos deste Portugal que os pedantes alfacinhas ignoram e mesmo desconhecem…
Longa vida ao cancioneiro de José Afonso !…

domingo, 30 de dezembro de 2018

Do jornalismo bota-fogo

J.-M. Nobre-Correia
Quando os média esquecem que o seu futuro e até a sua sobrevivência estão intimamente ligados aos da democracia plural…
Historicamente, a função de emoção sempre coexistiu com a de razão. Os “ocasionais” parajornalísticos, aparecidos em finais do século XV por essa Europa fora, relatavam factos de atualidade com incidência na vida dos meios dirigentes. Mas, um pouco mais tarde, os “canards”, para um público mais popular, falavam de sobrenatural, de milagres, de crimes, de catástrofes naturais mais ou menos excitantes.
Com a industrialização da imprensa no século XIX eclodiu também a prática jornalística propriamente dita. E, progressivamente, foram-se decantando dois tipos de imprensa de informação geral. A que dava a prioridade à exposição e interpretação serenas dos factos, a que se dedicará a chamada imprensa de referência. E a que privilegiaria o que era de natureza sensacional, mais preocupada com ingredientes bem condimentados e que se chamará imprensa “popular”. Passando esta a ser dominante em termos de vendas, a partir dos anos 1860.
Esta segunda tendência será reforçada com a chegada da rádio, dos seus “diretos”, dos seus jornais a várias vozes e as suas gravações dos mais diversos sons: gritos, risos, choros. O que acontecerá sobretudo a partir dos anos 1950. Tendência reforçada ainda com a imagem animada e a invasão dos lares europeus pela televisão nos anos 1960-70.
A desmonopolização do sector audiovisual nos anos 1970-80, fruto conjugado de novas tecnologias e de um novo “ar do tempo” cultural e político, desencadeou uma terrível lógica da concorrência. Todas as artimanhas serão doravante usadas para atrair o público, aumentar as audiências e fazer falar das próprias “exclusividades”. Tanto mais que a dita desmonopolização provocou uma incomensurável fragmentação do tecido social e uma cada vez maior incomunicabilidade entre grupos sociais que deixaram de partilhar temáticas de diálogo e até mesmo linguagem. Situação que a internet, a partir da segunda metade dos anos 1900, virá a acentuar de maneira exponencial.
Em fins do século XIX e início do século XX, os média foram um instrumento de integração social e um catalisador do sentimento de cidadania em democracias balbuciantes. E os destinos da imprensa e da informação jornalística estavam então intima e dialeticamente ligados aos da democracia política e do pluralismo sociocultural. Progressivamente, nestes últimos decénios, os média passaram a ser fatores de fragmentação social e de individualização dos comportamentos.
Com a perda de audiência de todos eles (considerados individualmente), resultado de uma infindável proliferação, os média de informação passaram a privilegiar acontecimentos e personagens disruptivos. Acontecimentos embora menores, mas que dão o sentimento de que, decididamente, nada funciona nesta nossa democracia. Personagens líderes ultra-egocêntricos de sindicatos, ordens ou ligas que fazem declarações e propõem ações quantas vezes inaceitáveis e até antidemocráticas.
No seu umbigo-centrismo, estes personagens perceberam bem que a boa estratégia para passarem constantemente nos média, e sobretudo na televisão, é fazerem declarações mais ou menos aterrorizantes : ausência de aulas ou de avaliações  nas escolas, atrasos em atos médico-cirúrgicos decisivos, riscos de incêndios fora de controlo,… E os média, esquecendo-se da responsabilidade social do jornalismo, põem-nos em evidência e até favorecem, reforçam este tipo de atitudes. Agindo de facto como verdadeiros bota-fogos de situações capazes de constituir autênticos atentados à democracia legalmente constituída.
Pensam eles, média e jornalistas, que vão assim conquistar público e alargar as suas audiências. Na realidade, vão apenas cobrir-se de descrédito, levar cada vez mais os cidadãos com um pouco de sentido crítico a afastar-se, a deixar pura e simplesmente de frequentá-los. Sobretudo quando boa parte destes cidadãos tem (erradamente) o sentimento de que poderão encontrar nas chamadas “redes sociais” a informação de que precisam, dispensando assim a produção dos jornalistas.
Os média de informação geral estão assim a cavar a cova em que se hão de enterrar. Esquecendo que o seu próprio futuro, a sua própria sobrevivência estão intimamente ligados aos da democracia plural. Quando o jornalismo bota-fogo atual consiste inequivocamente num convite irresponsável para uma “democratura” com que os órfãos do salazarismo tanto sonham…
Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles, autor do livro Teoria da Informação Jornalística (Almedina).

Texto publicado no diário Público, Lisboa, 28 de dezembro de 2018, p. 46.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Um “comentador” do antigamente…

J.-M. Nobre-Correia
Público de terça-feira 27 de novembro publicou nada menos de dois « comentários » de Augusto M. Seabra : um sobre um realizador de cinema e outro sobre um cantor de ópera. Confesso nunca tal ter visto num diário de referência europeu, onde os comentários de cinema e de ópera são assumidos por especialistas diferentes e claramente confirmados em cada uma destas áreas culturais.
Ora, o dito Seabra procede no caso do cinema como no caso da ópera com uma incrível ligeireza, inadmissível num diário de referência.
No primeiro texto, Seabra afirma a certa altura, a propósito do filme Antes da Revolução « que Bertolucci fez na sua cidade — também a cidade de Verdi —, Parma ». Ora Verdi nasceu em Roncole (que se chama hoje Roncole Verdi !) na província de Parma, o que não é a mesma coisa que a cidade de Parma.
Por outro lado, Seabra despacha em grande velocidade o filme Novecento de Bernardo Bertolucci : « Sim, Bertolucci fez filmes tão desastrados ou mesmo horrendos como 1900 ». Sem se dignar explicar por que é « desastrado ou mesmo horrendo », quando é isso que um leitor espera de um crítico de cinema : quais as razões técnicas e estéticas que o levam a fazer tais afirmações a propósito de um filme que muitos consideram no entanto como uma verdadeira obra prima ?
Quanto ao texto sobre o falecimento do cantor Álvaro Malta, o dito Seabra permite-se afirmações tão aproximativas como « E foi aí que, salvo erro em 1971 ». Ora, a obrigação de um especialista é de verificar precisamente os dados que avança antes de escrever sobre qualquer assunto, sobretudo se é considerado e se considera como especialista na matéria.
Seabra faz jornalismo no segundo decénio do século XXI como se fazia ainda nos últimos decénios do século XIX, quando os leitores tinham praticamente acesso apenas ao “seu” jornal. Só que um século e meio passou sem que manifestamente Seabra se tenha dado conta e continue a fazer um jornalismo inaceitável hoje em dia, sobretudo num diário de referência. É que, agora, os cidadãos podem ter acesso a uma multiplicidade de fontes de informação e darem-se assim conta das insuficiências pedantes de certos “comentadores”…

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Estas estranhas anomalias

J.-M. Nobre-Correia
Os média portugueses inventaram o estatuto e até a profissão de “comentador” que bota “opinião” em regime de concessão…
O jornalismo português sofre de enfermidades que o impedem de se situar ao nível do que de melhor se faz no resto da Europa. E uma dessas enfermidades é a que reúne duas estranhas anomalias : a superabundância dos “comentadores” todo-o-terreno em regime de concessão e a entronização de políticos profissionais como “comentadores”.
Os “comentadores” titulares (“residentes” !) dos média portugueses são de facto uma espécie de concessionários de espaço em papel ou em linha, ou de tempo de antena. Espaço com periodicidade e enquadramento preestabelecidos. E até, pasme-se, com variações de “escrita” autorizadas e adornos da intervenção do “comentador” estabelecidos por este…
Nesse espaço concessionado, o “comentador” escreve ou fala sobre o que lhe apetece. Sem sequer se concertar previamente com a redação que o acolhe. Ou então, no audiovisual, é-lhe anunciado o tema da emissão em que vai afrontar outros “comentadores” (quase sempre os mesmos). Uma confrontação numa espécie de pugilato em que procurará ocupar o máximo de tempo e impedir que os adversários falem, cobrindo com as suas intervenções as tomadas de palavra destes…
Mas o que há ainda de mais trágico nesta conceção do “comentário” é que os “residentes” são-no porque se autoproclamam competentes em tudo. E quando abordam temas que o leitor, ouvinte, espetador ou internauta conhece, é manifesto que a ignorância dos ditos “comentadores” é por vezes incomensurável. Só que são “bons clientes”, como se diz nos média francófonos : falam bem e têm garbo, possam embora dizer banalidades para encher o espaço ou o tempo que lhes é concedido…
Como se todas estas insuficiências não bastassem, para terem audiência e suscitaram reações nas edições em linha ou nas chamadas “redes sociais”, os “comentadores” recorrem à agressividade. Atacando rivais de média concorrentes. Atacando outros “comentadores” do média de que são “residentes”. Ou, sublime perfídia, criticando e mesmo chantageando a direção do média que lhes paga como “residentes”. Quando não insultam gratuitamente uns e outros, ou brincam aos irresponsáveis engraçadinhos…
Da “concessão” que lhe foi atribuída, muitos “comentadores” aproveitam para fazer a própria promoção (profissional ou narcísica) ou para ganhar mais ou menos faustosamente a vida. Mais do que isso : a falta de escrúpulos reinando, fazem referência às suas próprias vidas privadas e atividades profissionais ou a funções em que estão implicados. Enquanto vão “comentarizando” em vários média, de modo a ganharem mais notoriedade e dinheiro, provocando uma inacreditável concentração dos “fazedores de opinião”…
Mas o requinte máximo deste “comentarismo” é quando os profissionais da política são entronizados “comentadores”, com rubricas permanentes na imprensa, na rádio, na televisão ou em linha. Como se um profissional da política fosse naturalmente capaz de se alhear dos seus interesses partidários, tomar as devidas distâncias e analisar serenamente a atualidade nacional, internacional ou estrangeira.
A grande confusão nos média portugueses é que tudo é considerado “opinião”. Quando há uma diferença fundamental a fazer entre a “tribuna” de opinião e a “análise” de atualidade. Em princípio, a “tribuna” não tem titulares permanentes. É antes um espaço aberto em que personalidades da vida política, social, económica, cultural,… intervêm quando consideram deverem tomar posição sobre temas de atualidade e explicitar esta posição, propondo a um média uma contribuição puramente pontual.
A “análise” constitui ao contrário uma rubrica regular (e até mesmo diária), que surge em função da atualidade ou de maneira periódica (muitas vezes semanal). Nela, jornalistas seniores do próprio média, incontestáveis especialistas do assunto, ou personalidades exteriores de reconhecida autoridade na matéria, propõem perspetivações de um tema ou situação. Deixando os leitores, ouvintes, espectadores ou internautas tirar as próprias conclusões, reformulando eventualmente as suas próprias opiniões.
O que se faz na grande maioria dos média de informação portugueses pouco ou nada tem a ver com os géneros nobres do jornalismo que são, nomeadamente, a crónica, a análise, a entrevista, o debate. Antes pelo contrário, dizem sobretudo respeito a uma “recreatividade” que em nada contribui para uma informação jornalística de qualidade…
Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles, autor do livro Teoria da Informação Jornalística(Almedina)

Texto publicado no diário Público, Lisboa, 17 de novembro de 2018, p. 62.