domingo, 1 de junho de 2014

Quando a crise se acentua…


J.-M. Nobre-Correia
Diários de referência : Em apenas 11 meses, cinco títulos europeus e um estado-unidense entre os melhores foram objeto de movimentos que têm algo de inquietante…

A valsa dos diretores de diários de referência começou em junho. O diretor do parisiense Libération é então forçado a demitir-se da direção da redação e a de deixar o jornal em fevereiro. Em dezembro, é o do barcelonês La Vanguardia que é substituído significativamente pelo diretor de comunicação do proprietário Grupo Godó. Em seguida, em fevereiro, o do madrileno El Mundo é despedido. O seu concorrente mais direto, El País, substitui o diretor pelo correspondente em Nova Iorque no início de maio. Nomeado em julho, o diretor da redação de Libération demite-se em abril. A diretora do parisiense Le Monde demite-se, 14 meses apenas depois da sua nomeação. Para concluir a série, a diretora do New York Times é despedida e substituída pelo seu adjunto. E os dias do diretor do milanês Corriere della Sera parecem estar também contados…

Como explicar tal valsa ? São três as razões avançadas : queda das receitas publicitárias ; forte erosão das vendas ; difícil transição do papel para o digital. As duas primeiras têm sido sobejamente evocadas para não serem tratadas aqui. Mas têm uma consequência trágica para os jornais : a perda de rentabilidade. O que significa uma perda de independência em relação a grupos de pressão exteriores à redação.

A questão da transição para o digital toma aspetos diferentes : dificuldade de adaptação dos jornalistas do papel ao digital ; reposicionamentos problemáticos das edições papel e digital ; rentabilidade insuficiente da grande maioria das edições digitais dos antigos jornais. Sobretudo esta rentabilidade insuficiente está longe de compensar a perda de rentabilidade da edição em papel.

Os editores encontram-se cada vez mais em palpos de aranha, à procura de inencontráveis soluções. Enquanto as redações vão perdendo meios para concretizar a sua função, o número de redatores baixando, a cobertura da atualidade diminuindo e o preço de venda aumentando. Desencadeando uma espiral infernal que leva o leitor insatisfeito a abandonar o “seu” jornal…



Texto publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 24 de maio de 2014, p. 40.