domingo, 19 de outubro de 2014

Três princípios essenciais


J.-M. Nobre-Correia
Planeta Média : Durante quase sete anos, esta rubrica procurou observar o que se passava nos média europeus e praticar a crónica segundo os critérios europeus na matéria…

Tudo tem um princípio. E, ao que parece, tudo tem necessariamente um fim. O que é certo, em todo o caso, é que esta é a última rubrica “Planeta Média”. Após quase sete anos e mais exatamente 320 semanas. Pontualmente, aos sábados, sem exceção alguma, a não ser as quatro semanas de férias de verão previstas por contrato. E pontualmente com os dois mil carateres da crónica e os mil partilhados em três breves, apertadamente impostos pela direção precedente do Diário de Notícias.
Três grandes princípios nortearam a conceção da rubrica. Em primeiro lugar, uma abordagem dos média e do jornalismo numa perspetiva europeia, procurando escapar ao “provincianismo” nacional. Abordagem autorizada por mais de 45 anos de vida no centro da Europa e mais precisamente na “capital” da União Europeia. Abordagem tanto mais necessária que, para além dos discursos políticos mais ou menos propagandísticos, Portugal vive cultural, mediática e jornalisticamente demasiado longe de uma União Europeia de que até é membro.
Procurar, em segundo lugar, privilegiar dois aspetos. Por um lado, chamar a atenção para o que põe em evidência o subdesenvolvimento atroz dos média em Portugal. Em matéria de imprensa, como de rádio, de televisão ou de média digitais. E chamar a atenção para o estado de um jornalismo demasiado insatisfatório em termos de qualidade e pouco preocupado com a cidadania dos seus leitores, ouvintes, espectadores ou internautas. E, por outro lado, chamar também a atenção para as revoluções tecnológicas, económicas e editoriais que se operam para além das fronteiras nacionais.
Por último, praticar um tipo de crónica ontologicamente diferente do que é demasiado comum nos média deste país. Deixando aqui textos que não são fruto de qualquer egocentrismo. Nem descaradas louvaminhas a amigalhaços. Nem injuriosos ataques a inimigos. Nem esperas de benesses de quem quer que seja. Textos preocupados antes do mais em fazer compreender a dimensão cultural e democrática dos média e do jornalismo…

Texto publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 11 de outubro de 2014, p. 6-7.