sexta-feira, 27 de março de 2015

Estas subtis variações de tempo…


J.-M. Nobre-Correia
Média : Na sua edição de hoje, o Sol afirma que José Sócrates não é o autor do livro que publicou sob o seu nome. Em boa verdade, o jornal pouco sabe sobre o assunto. O que não o impede de dar por certo o que diz nos títulos…

O principal título de primeira página da edição de hoje do Sol e a peça que lhe diz respeito levanta problemas em termos jornalísticos. O título é categórico : “Livro de Sócrates não foi escrito por ele”. E no subtítulo pode ler-se : “o SOL apurou que nem foi ele que o escreveu, mas sim um professor catedrático pago para o efeito”. É possível, só que o Sol não avança dados fatuais nenhuns que provem o que afirma.
Ora, qualquer docente académico experimentado sabe, na maioria dos casos, detetar uma tese (e neste caso concreto : uma memória, “un mémoire”) que é fruto de um plagiato parcial. Porém, quando o docente não conhece bem o estudante (mas em princípio um diretor de “mémoire” teve contactos regulares com o futuro autor), já é mais difícil detetar este plagiato, caso se trate de plagiato mais ou menos integral. Mas existem hoje programas informáticos que permitem fazer verificações perfeitamente concludentes. Embora estas verificações sejam problemáticas caso o texto original tenha sido escrito noutra língua e sobretudo numa língua pouco praticada.
No entanto, nas instituições europeias de ensino superior, um “mémoire” escrito dá geralmente lugar, num segundo tempo, a uma exposição e defesa orais do trabalho perante um júri competente na matéria. E aqui é perfeitamente fácil para os membros do júri, que leram previamente a dissertação escrita, verificar se o estudante em causa é ou não o autor do “mémoire” escrito, se está “à altura” do documento escrito que entregou. Ora, o Institut d’Études Politiques de Paris (designado na linguagem corrente pelo sobrenome “Sciences Po”) é uma instituição que data de 1872 e que goza de grande prestígio a nível internacional. Pelo que se imagina que uma falsa autoria de um “mémoire” não teria escapado aos membros do júri. Sem que isso possa todavia ser afirmado como absoluta certeza.
Já no texto da página 15 do Sol são feitas afirmações inadmissíveis em termos jornalísticos. Começa o dito texto dizendo que “Terá sido um professor catedrático português a escrever o livro”. Para dizer no terceiro parágrafo do mesmo texto : “o volume foi redigido por um professor universitário”. Em que ficamos ? O Sol sabe que “foi” ou pensa, imagina que “terá sido” ?
O Sol afirma um pouco mais adiante, no mesmo terceiro parágrafo, que “o mesmo catedrático já teria a incumbência de redigir um novo livro para surgir também sob a autoria de Sócrates, que se intitularia Carisma”. Repare-se nesta variação na utilização dos tempos dos verbos, indo do “terá sido” (não é certo), ao “foi” (é uma certeza) ao “já teria” (que também não é nada certo). O que em termos jornalísticos é perfeitamente inadmissível. Em escolas de jornalismo chumba-se um aluno por entorses deste género a elementares princípios da técnica jornalística.
Por outro lado, se o Sol sabe ou pelo menos dispõe de elementos de informação que lhe permitem pôr-se numa boa pista, porque não esperou o tempo necessário para proceder à devida investigação ? Junto do diretor de “mémoire” e dos membros do júri, em primeiro lugar, para procurar averiguar se terá havido dúvidas sobre a autoria do texto. E depois, num segundo tempo, de modo a saber quem é afinal o tal “professor catedrático” que seria o verdadeiro autor do “mémoire” que deu lugar ao livro de José Sócrates.
A afirmação que consiste em dizer que o “novo livro” de Sócrates “se intitularia Carisma” é no mínimo curiosa : qualquer autor de livro ou de simples texto de revista ou jornal sabe bem que o título é quase sempre fruto de uma última ação criativa, de uma abordagem final. E são extremamente raros os casos em que o título precede a redação do texto. Daqui que, a querer “demonstrar” a exaustividade da sua informação, o Sol não prova nada, antes envereda por uma “bordadura” criativa suscetível de alimentar a emoção dos leitores. De “animar a malta”, dizia José Afonso…
O Sol não sabe, mas afirma ! E graças a este maldito provérbio que diz não haver fumo sem fogo, caso o Sol não venha a conseguir provar o que afirma, haverá sempre quem fique a duvidar da autoria do “mémoire” de Sócrates que deu lugar ao livro em questão…