quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Deslumbre e inquietude


J.-M. Nobre-Correia
Média : A evolução das tecnologias da comunicação são cada vez mais de natureza a tonar possível uma informação rigorosa e exigente. E, no entanto, derrapagens e derivas são dia a dia mais frequentes…

Vivemos tempos simultaneamente entusiasmantes e preocupantes. Entusiasmantes sobretudo para os que ficam deslumbrados, fascinados, com as revoluções sucessivas e intermináveis em termos tecnológicos. Revoluções que fazem que, em matéria de média e de informação, o mundo em que vivemos pouco tenha ainda a ver com o de há 40 anos ou o de apenas 20. Com as formidáveis implicações que tiveram na vida quotidiana de todos nós e, mais pontualmente, na maneira como passámos a poder ter acesso a uma colossal proliferação das fontes de informação. E até como pudemos, cada um de nós, deixar de ser apenas receptores e sermos também doravante emissores de informação.
E no entanto, vivemos tempos preocupantes no que diz respeito à qualidade da informação a que temos acesso, nomeadamente nos média dominantes. Porque muitos dos requisitos de base exigidos pelo jornalismo sério, “de referência”, que marcavam precisamente a diferença com práticas em que a procura da emoção predominava, entraram largamente em crise.
Dos efeitos da estratégia plurimédia
Como poderia ter sido de outro modo ? Quando a proliferação dos média provocou uma inevitável fragmentação das audiências. Quando esta redução da audiência de cada um teve como consequência natural a diminuição de toda a espécie de receitas, vindas do leitor, ouvinte, espectador ou internauta, como das empresas e instituições anunciantes ou patrocinadoras. Quando, como se estas desgraças todas não bastassem, a redefinição das estratégias publicitárias dos anunciantes os levou a afastarem-se dos “média tradicionais” (sobretudo da imprensa, mas também da rádio e da televisão). E quando, por fim, a atual profunda crise financeira e económica veio ainda acentuar a erosão das receitas destes “média tradicionais” sem todavia permitir aos “novos média” uma existência desafogada. Haja embora casos de “tradicionais” como de “novos” que se vão desenvencilhando razoavelmente bem, por vezes até mesmo muito bem.
Esta dupla mutação de fundo (proliferação dos média e erosão das receitas) produziu consequências que têm afetado profundamente a qualidade do jornalismo proposto aos cidadãos. Sobretudo no que diz respeito a essas noções fundamentais do jornalismo que são o rigor e a exigência.
Porque a multiplicação dos estações de rádio e de televisão, assim como, mais tarde, dos sítios de informação, levou os editores [1] a conceberem estratégias plurimédia, no seio do mesmo grupo como até com média de outros grupos. Fazendo assim que um mesmo jornalista tenha que assumir simultaneamente a sua produção para publicação(ões) impressa(s), rádio(s), televisão(ões) e sítio(s). Veja-se o que acontece nesta matéria com jornalistas da Cofina, da Global Média e da Impresa, por exemplo, que encontramos regularmente em diferentes média destes grupos. Embora muitos observadores avisados afirmem que se tratam de conceções diferentes de jornalismo, que supõem abordagens e tratamentos diferentes dos temas da atualidade…
Ora, a crise mais ou menos generalizada das receitas dos média teve, entre outras mais [2], uma consequência altamente significativa : a redução por vezes brutal das equipas de redação. Com inevitáveis efeitos : exigência de uma maior produção de “peças” por cada jornalista, para o seu próprio média como para os média integrados na estratégia plurimédia do editor. O que se traduz numa evidente redução do tempo consagrado a cada “peça”, à preparação, documentação prévia, verificação dos dados fatuais, multiplicação das fontes, aprofundamento do tema e, por fim, à elaboração escrita, oral ou visual da “peça”.
Das “exclusividades” às “golpadas”
Precisamente : a verificação dos dados e o aprofundamento dos temas nunca foram tão concretamente possíveis como o são hoje. Graças nomeadamente à internet e a um sem número de documentos, centros de documentação e bancos de dados interrogáveis à distância, muitas vezes sem custo e praticamente em tempo real. O que supõe no entanto disponibilidade de tempo para reunir os dados indispensáveis e poder devidamente “digeri-los” e interpretá-los, tomando o devido e indispensável recuo crítico.
Porém, a “estratégia” que leva a exigir que se produza mais em menos tempo e com menos meios humanos e materiais, aliada a outra que consiste em privilegiar a “exclusividade” e de preferência a “golpada” que fará falar dela, provoca frequentemente derrapagens. Derrapagens incalculavelmente negativas para a imagem dos média, como mostram três casos recentes no Expresso, que é no entanto uma instituição do meio jornalístico português, mais de 42 anos após o seu lançamento.
Ora, nestes últimos 20 meses, o Expresso publicou “peças” que puseram em evidência derrapagens e derivas do jornalismo contemporâneo. Primeiro, na edição de 15 de dezembro de 2012, a célebre entrevista de Artur Baptista da Silva, apresentado como especialista da ONU, encarregado pelo secretário-geral de coordenar uma equipa constituída para elaborar um relatório sobre a crise na Europa do Sul. Um “especialista”, ilustre desconhecido, que nunca sequer trabalhou na ONU. Depois, na edição de 21 de fevereiro de 2015, o texto sobre a “Portuguesa eleita vice-reitora da Universidade de Sorbonne”. Uma “vice-reitora” que nunca o foi (o que demonstraria o magazine Visão de 19 de março num texto intitulado “A reitora do faz de conta”).
Terceiro caso, num registo diferente : na edição de 22 de agosto, uma “opinião” de página inteira de Maria Filomena Mónica (em vez do quinto de página habitual), com chamada na primeira página, intitulada “Será Sócrates um mitómano ?”. Nesta “opinião”, Mónica mostra desconhecer o mundo académico francófono, as suas instituições, a sua terminologia, os seus critérios. Quando estas especificidades poderiam muito bem ter sido previamente verificadas : Institut d’études politiques e “Faculdade” ; “mémoire” e “thèse” nos sentidos francófonos destas palavras ; dissertação escrita e defesa oral no quadro de um mestrado (defesa que é bastante corrente em universidades francófonas, “perante um júri académico” precisamente). Como era igualmente verificável se Sócrates foi de facto, como diz, “o melhor aluno de Théorie Politique” (o que até é concebível da parte de um homem com a sua idade e experiência política).
Combate político e jornalismo
Da mesma maneira, qualquer pessoa que tenha frequentado o meio universitário francófono sabe que muitos professores convidam os alunos a fazerem reler os seus “mémoires” como as suas “thèses”, em termos de forma como de fundo, por conhecedores de uma ou de outro, antes de entregarem o documento final escrito (e depois há os que agradecem a quem os ajudou e os que não o fazem, e os que deixam isso escrito no “mémoire” e não na versão publicada sob a forma de livro, geralmente revista em função de critérios editoriais). Como sabe que um titular de um mestrado se pode inscrever em doutoramento, do momento em que o futuro orientador escolhido aprove previamente a proposta de “thèse” (e é Astrid von Busekist que foi professora nas universidades de Berlim, de Bruxelas e de Tel Aviv e é professora no internacionalmente prestigioso IEP-Science Po de Paris que tem que aprovar o tema, e não Mónica que acha que “a tortura em países democráticos pode ser analisada num trabalho académico : o que não pode é sê-lo assim”). Como sabe que um livro numa língua estrangeira desconhecida ou pouco conhecida pelo autor pode perfeitamente ser citado, porque utiliza dados puramente fatuais ou porque alguém o ajudou a fazer uma tradução rigorosa de uma passagem precisa. Como sabe que, nos países francófonos só o primeiro nome próprio é utilizado, o que explica que “Sócrates” seja suprimido mesmo em documentos oficiais, o que não quer dizer que “José Carvalho Pinto de Sousa” seja “o seu verdadeiro nome”, como afirma com manifesta malvadez Mónica.
Mas, para além de tudo o mais, o texto de Mónica põe uma questão de fundo : sob pretexto de “opinião”, poderá um jornal permitir-se publicar textos que não respeitam o rigor dos factos ou tomam liberdades fantasistas em relação a esses factos ? É que, para além mesmo deste texto publicado no Expresso, reina na imprensa portuguesa (ou, pelo menos, em grande parte dela) uma estranha ligeireza, para não dizer irresponsabilidade, naquilo que chamam “opinião”. Como se viu também, por exemplo, num texto de João Taborda da Gama, publicado em 9 de abril no Diário da Notícias, que fazia um ataque cerrado a António Sampaio da Nóvoa, fazendo acusações no que se refere à atitude deste nas provas de agregação do falecido J. L. Saldanha Sanches. Acusações cuja factualidade foi depois largamente posta em causa por diversas personalidades ligadas ao acontecimento.
Ora, em termos jornalísticos, os textos de “opinião” não escapam de modo algum às exigências que devem presidir à confecção de todo o conteúdo de um jornal : só a expressão de uma tomada de posição, de uma apreciação (pessoal ou coletiva) os distingue dos restantes textos. A não ser que as derivas do combate político — com as suas rivalidades, as suas rasteiras, as suas vinganças e os seus ódios, pouco respeitadoras dos mais elementares princípios éticos — se sobreponham doravante aos deveres da deontologia e da ética jornalísticas. O que não pronuncia nada de bom em matéria de informação dos cidadãos numa sociedade democrática…



[1] Editores no sentido antigo e português da palavra. Aqueles a que hoje, em português de cão e snobemente, chamam “publishers” !
[2] A propósito da situação atual da imprensa na Europa, ver J.-M. Nobre-Correia, “Presse : l’aube d’un nouveau monde”, in Politique revue de débats, Bruxelas, n° 91, setembro-outubro 2015, pp. 16-18, nas livrarias em 4 de setembro.