sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Silêncios inaceitáveis


J.-M. Nobre-Correia
Média : Os jornais têm tendência a informar pouco ou nada sobre o que lhes diz respeito. Deixando isso aos concorrentes. E perdendo assim credibilidade aos olhos dos fiéis leitores. É o que está a acontecer com o I e o Sol

Os jornais perdem cada vez mais leitores. Sobretudo os de informação geral. Sobretudo em Portugal. Só que os ditos jornais de informação geral nunca se interrogam sobre as razões da sua perda de importância. Ou melhor : arranjam a desculpa habitual. Habitual mas real : a internet. E para explicarem a situação financeira difícil em que em muitos casos se encontram, têm outra desculpa. Desculpa ela também real : a queda das receitas publicitárias. E pronto : as explicações ficam-se por aqui !…
Geralmente, os ditos jornais abstêm-se de se interrogar sobre eles próprios. Sobre a variedade do seu conteúdo. Sobre a qualidade do produto proposto. Sobre o rigor dos factos. A mais valia das interpretações, das análises e dos comentários. A estética da escrita e da iconografia. Sobre a adequação a um público alvo mais ou menos delimitado. Sobre as condições de distribuição e de comercialização…
Do enviesamento ao mutismo
Para evocar apenas a questão do conteúdo, quantos deles não cometem erros monumentais em matéria de credibilidade ? Nomeadamente quando se trata de matérias que lhes dizem respeito. O caso dos dados periódicos da APCT (sobre a difusão) e da Bareme (sobre a audiência) é aliás significativo disso : cada jornal interpreta-os de maneira geralmente favorável a ele próprio e desfavorável em relação à concorrência, ou decide muito simplesmente nem falar no assunto. Quanto à preocupação em fazer uma análise séria e competente dos resultados, isso é ideia que nem sequer passa pela cabeça dos responsáveis dos ditos jornais.
Mais grave ainda quando o próprio jornal é o último a dizer o que se passa com ele próprio, com a sua propriedade, com a sua sociedade de edição, com a sua redação. Ou mesmo quando estas questões nem sequer são evocadas por ele próprio. E é nos concorrentes que se têm que procurar as notícias a este propósito, até porque se ouviram ou leram já elementos de informação sobre o assunto. Pelo que o jornal em questão perde inevitavelmente credibilidade aos olhos dos seus leitores habituais…
Notícias sobre o diário I e o semanário Sol apareceram aqui e ali em 30 de novembro. No dia seguinte, 1 de dezembro, os teoricamente mais diretos concorrentes do I, o Diário de Notícias e o Público davam grande importância ao assunto : “Mais de cem trabalhadores do Sol e do i são despedidos em dezembro”, escrevia em título o primeiro, dando 2/3 de página ao tema ; “Despedidos dois terços dos trabalhadores dos jornais Sol e i” dizia em título o segundo, tema a que consagra uma página inteira.
No I do mesmo 1 de dezembro, nem uma palavra sobre o assunto. No dia 2, o diretor escreve um editorial a uma coluna intitulado “Fazer jornais é mais do que uma paixão. É uma forma de vida”. Um texto relativamente “literário” sobre os estados de alma do autor perante a situação que estão a atravessar o I e o Sol, sem todavia dizer nada, absolutamente nada de concreto, de fatual, sobre a dita situação. No dia 3, de novo nem uma palavra. E no dia 4 aparece uma coluna de um jornalista intitulada “Imprensa” que faz uma exposição teórica sobre as dificuldades que conhecem os jornais, sem nunca evocar os casos do I e do Sol
Porém, dia 4 de dezembro é sexta-feira e portanto dia de publicação do semanário Sol. Desiludamo-nos no entanto. Também não encontraremos no Sol a desejável informação fatual sobre o assunto. Uma “Nota Editorial” publicada na primeira página e concluída na última do caderno principal, intitulada “Com os olhos no futuro”, informa-nos todavia que a Newshold, que controla os dois jornais, “vai deixar de operar em Portugal”, mas que “os dois títulos continuarão a publicar-se”. E termina a “agradecer aos acionistas da Newshold […] pelo investimento considerável que fizeram e que permitiu manter o jornal vivo em circunstâncias muito adversas”.
Credibilidade e perda de leitores
A ler o diário I e o semanário Sol nada saberemos portanto das razões que levam a Newshold a sair de Portugal e a despedir uns 120 trabalhadores. Nem o que permite afirmar que os dois jornais “continuarão a publicar-se”. Nem quem serão os novos acionistas. Nem como explicar as alterações nas direções dos jornais (nomeadamente num post-scriptum do diretor executivo do Sol), assim como na periodicidade dos dois títulos, mudanças anunciadas por outros…
Para saber o que se passa no I e no Sol, há que procurar a informação em jornais concorrentes. Quando é no I e no Sol que se encontram certamente os jornalistas mais bem informados sobre o assunto. E se eles não dizem aos leitores o que melhor sabem, como acreditar que relatem bem factos que não lhes dizem diretamente respeito e que muito provavelmente conhecem menos ? Uma perda de credibilidade aos olhos dos leitores habituais que se paga precisamente com a perda de leitores…