sábado, 24 de setembro de 2016

A perda de autonomia anunciada…

J.-M. Nobre-Correia

Para o mediólogo, professor emérito da Université Libre de Bruxelles, a presença de interesses estrangeiros nos média é inquietante

Decididamente, a indiferença dos meios dirigentes políticos, económicos, sociais e culturais ao que se passa nos média portugueses é absolutamente espantosa ! Talvez até nem possa ser comparada à de idênticos meios dirigentes de outros países europeus. E, no entanto, a situação tem progressivamente vindo a tornar-se preocupante, altamente preocupante…
Foram primeiro espanhóis, foram depois angolanos, são agora chineses. Só que no que diz respeito aos primeiros, trata-se de gente vinda de um país democrático e membro da União Europeia. Embora, historicamente, as ambições latentes no subconsciente de grande parte dos nossos vizinhos não seja propriamente pacifica no que diz respeito a Portugal.
Quanto aos angolanos e aos chineses, já a questão se formula em termos totalmente diferentes. Trata-se, num caso como no outro, de gente vinda de sociedades ditatoriais em que só quem faz parte das nomenclaturas cleptómanas dominantes dispõe de meios financeiros para investir no estrangeiro. E não é graças ao dinheiro a rodos que ela passou a integrar os valores mais elementares de uma sociedade democrática. E que integrou noções essenciais de pluralismo e de tolerância.
A capacidade de aceitação destas noções essenciais é ainda menos evidente no que diz respeito aos média. E é mesmo largamente, senão totalmente inexistente no campo da informação. Atitude que globalmente até partilharão espanhóis, angolanos e chineses quando se trata de informação referente à política interna dos seus países de origem, às opções políticas dos seus governos, às caraterísticas dominantes dos seus meios económicos, à política externa dos seus países. Com uma certa subtileza e flexibilidade no que diz respeito a espanhóis. Com uma evidente rudeza e intransigência no que se refere a angolanos ou a chineses.
Com gloriosas exceções cada vez mais diminutas, os portugueses estão pois progressivamente confrontados a uma informação largamente dominada por interesses estrangeiros. Uma informação que não pode de maneira alguma escapar a empenhos considerados vitais pelos meios dominantes na democrática vizinha Espanha. E a empenhos que as clepto-nomenclaturas dos partidos únicos angolano ou chinês têm demasiado tendência a estender às raias de um horizonte obscurantista.
Perante uma situação que assume traços cada vez mais sombrios, a total ausência de reação dos meios dirigentes políticos, económicos, sociais e culturais portugueses é absolutamente inquietante. O sociólogo estado-unidense Herbert Schiller (1919-2000) advertiu há largos anos : “uma nação cujos média são dominados pelo estrangeiro não é uma nação”. Excelente e arrepiante reflexão a submeter à consideração dos apáticos meios dirigentes do país. A supor que eles tenham consciência da situação de uma informação já largamente dominada por semanários, diários, rádios e televisões cujos donos são empresas ou cidadãos estrangeiros. E consciência do horizonte tragicamente sombrio que este controle dos média grande público deixa antever… 
Texto publicado no semanário Expresso, Lisboa, 24 de setembro de 2016, p. 35.

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