sábado, 17 de janeiro de 2015

Estranha gente essa ali ao lado !


J.-M. Nobre-Correia

Bruxelas e Washington disputam o lugar de cidade com mais correspondentes de média do mundo inteiro. Mas estes mesmos correspondentes ignoram tudo ou quase tudo da vida política, económica, social ou cultural dos belgas…

De repente, o terrorismo faz da Bélgica tema de atualidade nos média portugueses. Há porém que prevenir leitores, ouvintes e espectadores : a grande maioria dos correspondentes dos média portugueses em Bruxelas nada ou quase nada sabe da vida política, da economia, da cultura ou mesmo da sociedade belga…
Largas centenas de jornalistas [1] estão em Bruxelas como correspondentes antes do mais para cobrirem a atualidade da União Europeia e da NATO. E, nestas matérias, repetem largamente o que lhes dizem os serviços de comunicação destas instituições, em conferências de imprensa diárias e em numerosos documentos que lhes são endereçados todos os dias. Ou então repetem mais ou menos religiosamente o que lhes dizem ministros portugueses, representantes de Portugal junto destas duas instituições e altos funcionários geralmente de origem portuguesa.
Acrescente-se que os ditos correspondentes vivem em “vase clos”, em circuito fechado, em gueto, de preferência nas cercanias do Rond-Point Schuman, mesmo ao lado Comissão, do Parlamento e do Conselho Europeus, em Bruxelas. Escapando de vez em quando à rotina com uma breves expedições até ao Luxemburgo ou a Estrasburgo.
Depois, quando se passa algo na Bélgica, os média de que são correspondentes procuram “rentabilizá-los” e pedem-lhes “peças” sobre assuntos de atualidade. Recorrem então sobretudo à leitura dos diários Le Soir e La Libre Belgique, e à escuta da pública RTBF ou das privadas Bel RTL e RTL-TVI, sendo quase todos incapazes de ler ou compreender os média em língua neerlandesa, o que põe um sério problema quando se trata de atualidade que se desenrola no norte do país, na Flandres.
Aqui há meia dúzia de anos, encontrei no edifício da Comissão Europeia um dos mais antigos correspondentes portugueses em Bruxelas. “Ainda bem que o vejo”, exclamou. Perguntou-me então quem poderia entrevistar para lhe fazer o ponto sobre a situação política na Bélgica e fazer até um rápido apanhado geral sobre a história da “questão linguística” na Bélgica.
Aconselhei-lhe os nomes das duas pessoas que me pareciam mais indicadas : Vincent de Coorebyter e Xavier Mabille. Mas o nosso correspondente desconhecia tais nomes ! Expliquei-lhe então que o primeiro era diretor geral do CRISP (que depois enveredou por uma carreira universitária) e o segundo presidente do dito CRISP (entretanto falecido).
Só que o correspondente português também não sabia o que era o CRISP ! Ora, o Centre de Recherche et d’Information Socio-Politiques é o mais célebre centro de investigação do país em matéria sociopolítica. Criado em 1959, publica desde então, para além do mais, um Courrier Hebdomadaire (semanal, como indica o nome) em formato A 4, com uma média de uma quarentena de páginas, sobre temas políticos, sociais, económicos próprios à sociedade belga. Um Courrier Hebdomadaire que é uma referência absolutamente indispensável.
O nosso correspondente, apesar da sua longuíssima estadia em Bruxelas, ignorava a existência deste centro e dos seus dois mais altos responsáveis, autores no entanto de intervenções regulares nos principais média do país !
Ficam pois os leitores, ouvintes e espectadores prevenidos sobre o nível de qualidade das correspondências de Bruxelas. Ou melhor : sobre as manifestas deficiências dos correspondentes. Basta ver como, em boa parte dos casos, pronunciam nomes de localidades, instituições ou personalidades em vista da Bélgica : um verdadeiro festival de humor involuntário !…



[1] Em 1995, em Bruxelas, a Comissão Europeia registava 770 jornalistas acreditados, estrangeiros na maior parte dos casos. Em maio de 2004 eram 920 e em 2005 atingiam os 1 300. Em 2006 já só eram 1 180, em 2008 apenas 1 100 e em 2010 só 752. Neste sector, como em muitos outros, a crise da imprensa em papel e a crise económica tiveram consequências evidentes…