quarta-feira, 16 de março de 2016

Entrever um futuro mais risonho…

J.-M. Nobre-Correia *
Num livro publicado em fevereiro do ano passado em França e acabado de ser editado em Portugal, Julia Cagé faz uma análise da crise dos média de informação e avança propostas para procurar ultrapassá-la…

Comecemos por uma interrogação que espíritos apressados não deixarão de acusar de sexismo : se Julia Cagé não fosse a jovem esposa de Thomas Piketty, o seu Salvar os média teria sido editado em tantas línguas estrangeiras ? É que, pelo menos no que diz respeito às mais próximas (francesa, a original, portuguesa, castelhana, italiana, inglesa), o livro de Cagé e O Capital no século XXI de Piketty, que obteve um enorme e justificado sucesso, são publicados pelos mesmo editores. Pura coincidência ? E será também pura coincidência se Piketty escreve o prefácio (sem dizer, é claro, que a autora é sua esposa) e isto figura na capa do livro ?…
É que, para quem acompanha mediamente o universo dos média e sobretudo da imprensa, o livro de Cagé não traz grandes elementos de informação novos. Pondo para mais essencialmente o acento na situação das imprensas francesa e estado-unidense, esquecendo por demais as situações particulares bastante diferentes de uma e de outra. E esquecendo quase totalmente as imprensas europeias ou pelo menos as dos países histórica, económica e sociologicamente mais próximos da francesa.
Não quer dizer isto que o livro de Cagé seja desprovido de interesse, embora a exposição dos argumentos não seja um modelo de síntese, de linearidade e de limpidez. No fim de contas, o que Cagé nos diz é que a economia da imprensa mudou substancialmente. Não apenas como consequência da crise financeira ou mesmo do aparecimento da internet : a erosão dos investimentos publicitários na imprensa data já da chegada da publicidade aos ecrãs de televisão. E ela acentuou-se, é claro, com o aparecimento da internet, a gigantesca proliferação dos emissores de informação que esta permite e o acesso gratuito à informação que ela autoriza.
Só que, como faz notar judiciosamente Cagé, a deslocação dos leitores das edições em papel para as edições digitais não foi acompanhada de uma deslocação idêntica em valor da publicidade. Com uma agravante : os jornais em papel perdem publicidade e, por consequência, receitas, enquanto que os jornais digitais continuam larguissimamente a não conseguir obter receitas publicitárias ou de assinaturas suficientes. O que significa, num caso como no outro, meios financeiros limitados e, consequentemente, redução das equipas de redação indispensáveis para cobrir seriamente a atualidade. Situação que, tudo leva a crer, será irreversível no caso dos jornais em papel e suficientemente durável no que se refere aos jornais em linha.
É aqui que Cagé, sem ser revolucionária, faz propostas com aspetos inovadores. Nomeadamente quando propõe que os jornais (em papel ou em linha) sejam incluídos no sector do conhecimento, onde se encontram “a cultura, o ensino superior e a investigação” (p. 29). E proponha paralelamente “um novo modelo económico e jurídico para os média do século XXI, um estatuto inovador de ‘sociedade de média’, no cruzamento da sociedade por ações e da fundação” (p. 111). Proposta a que é aliás consagrado o terceiro e último capítulo do livro onde Cagé avança “um estatuto de ‘sociedade de média com fins não-lucrativos’, a meio caminho entre a fundação e a sociedade por ações” (p. 121). Sociedade de média alimentadas por financiamentos participativos “cuja alocação será irrevogável” (p. 121), onde os direitos de votos seriam devidamente ponderados entre os diversos acionistas, de modo a garantir a perenidade e a independência do média.
No contexto atual de crise generalizada dos média de informação (e não apenas da imprensa), o livro de Cagé tem no mínimo a grande virtude de fazer um balanço de situações irreversíveis, de avançar propostas “que permitam entrever um futuro mais rosado para os média” [i] e de sugerir que se abra o debate sobre uma temática “basilar do nosso ideal democrático” (p. 152). Temática que nestas últimas semanas tem tomado uma particular e preocupante acuidade na sociedade portuguesa, mas que os grandes altos responsáveis sociais e políticos parece preferirem continuar a ignorar…

Julia Cagé
SALVAR OS MÉDIA
Temas e Debate, 166 pp, 15,50 euros

* Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles



[i] Ver outras propostas em torno desta temática : J.-M. Nobre-Correia, « Incrementar a informação regional », in JJ, Jornalismo e Jornalistas, Lisboa, n° 37, janeiro-março 2009, pp. 28-31 e J.-M. Nobre-Correia, « Repensar as estruturas » in revista em linha Notas de Circunstância, Fundão, n° 1, 5 setembro 2013.


Texto publicado no quinzenário JL Jornal de Letras, Lisboa, 16 de março de 2016, p. 32.