sábado, 30 de julho de 2016

Esta cruel valsa fúnebre...

J.-M. Nobre-Correia
Média : Uma ininterrupta sucessão de demissões e nomeações nas direções de importantes jornais de informação (impressos, radiofónicos, televisivos e digitais) deixa recear mais um acelerar da crise do que a sua ultrapassagem…

Para quem viveu quase toda a vida de adulto no estrangeiro e frequentou logo de início os média do país de residência como dos países limítrofes, Portugal constitui um caso espantoso. Um caso cuja especificidade é nomeadamente ilustrada pela “valsa” atual nas direções de diversos média. “Valsa” cujos primeiros passos começaram a ser dados há meses atrás e dizem respeito à maioria dos diários, dos semanários, dos radiojornais e dos telejornais que contam.
A primeira caraterística que espanta nesta “valsa” é o facto de se tratar largamente de permutas entre membros de um pequeno microcosmos. Entre gente que se conhece, que se frequenta, que muitas vezes mantem relações de amizade …que não impedem um omnipresente e acutilante sentimento de rivalidade. Neste microcosmos, quem chegou a um lugar de direção tem grandes probabilidades de vir a ocupar sucessivamente outros lugares de direção noutros média. Sem que haja pois um verdadeiro afluxo de sangue novo, de oxigénio, capaz de favorecer o aparecimento de uma prática jornalística nova adequada aos tempos que correm …de que este país tanta necessidade tem.
Outra particularidade posta em evidência, mais noutras ocasiões do que propriamente agora, é a que consiste em transferências dificilmente concebíveis (embora não totalmente impossíveis nalguns casos) para além da fronteira luso-espanhola. De um média popular para outro de referência, de um desportivo para um generalista, de um diário para um semanário jornal ou magazine, de um jornal impresso para um radiojornal, telejornal ou jornal digital. E vice versa. Quando cada um destes média supõe práticas de jornalismo bastante diferentes e recurso a meios técnicos de “escrita” e de edição próprios, assim como a suportes de difusão totalmente distintos.
Terceiro aspeto igualmente surpreendente é o que leva os proprietários dos média a escolheram indiferentemente como diretores gente cuja consistência intelectual, cultural e política (no melhor sentido da palavra) nem sempre é adequada àquilo que, em princípio, constitui a identidade do média. Casos há em que a clivagem é mesmo por demais evidente, brutal. Mas este aspeto constitui precisamente um dos dramas dos média portugueses e sobretudo, é claro, das publicações impressas diárias ou semanais : alguém poderá afirmar claramente qual é a identidade sociocultural de cada uma das principais publicações de informação geral deste país (Correio da Manhã excluído, …et pour cause) ?
Em boa verdade, as oscilações de estilo jornalístico e de orientação político-cultural, e a consequente flacidez das “colunas vertebrais” identitárias, têm sido uma constante de praticamente todos os jornais impressos em 42 anos de democracia. Com o que isso significa de roturas sucessivas no contrato de leitura que tinham implicitamente estabelecido com os seus “leitorados” e as inevitáveis perdas de vendas em vagas sucessivas cada vez mais aceleradas. E, à primeira vista e na maioria dos casos, as mudanças atuais não parecem poder evitar o suicídio a que gestões muitas vezes incompetentes e proprietários maioritariamente ainda mais incompetentes têm condenado os média portugueses. No país da União Europeia que conta menos diários impressos e a mais baixa taxa de leitura de jornais. E num país em que, tudo leva a crer, a credibilidade dos média anda cada vez mais preocupantemente de rastos…