segunda-feira, 18 de maio de 2020

Aquelas coisas que se vão repetindo…

J.-M. Nobre-Correia
Em matéria de imprensa, fazem-se para aí afirmações totalmente desprovidas de fundamento. Mas a gente do meio quer lá saber disso…
Em reação a um texto intitulado “Grupo de cidadãos pede urgente classificação do arquivo do DN”, aparecido esta manhã no Público, Pedro Tadeu publica esta tarde um interessante artigo no Diário de Notícias em linha.
Tadeu ocupou postos de responsabilidade na direção do Diário de Notícias e assina o dito artigo como “diretor da Direção de Documentação e Informação da Global Media Group”, o grupo proprietário do jornal.
No dito texto, Tadeu faz no entanto uma afirmação que é uma velha lengalenga a propósito do Açoriano Oriental: “o mais antigo diário da Europa, fundado em 1835”. Afirmação que não tem fundamento algum.
Há uma vintena de anos, o então diretor Gustavo Moura (falecido no ano passado) escreveu-me para Bruxelas, pedindo-me para eu lhe confirmar tal estatuto de “mais antigo diário da Europa”. Respondi-lhe com um correio relativamente pormenorizado que não lhe deve ter agradado, …dado que nunca agradeceu a resposta. E a lengalenga foi continuando a ser repetida por aí pelas mais diversas “autoridades” do meio!…
Ora, tal afirmação contém de certa maneira dois dados que não correspondem à realidade dos factos. O primeiro é que o Açoriano Oriental, lançado em 18 de abril de 1835, era na origem um semanário e só adotou a periodicidade diária em 3 de janeiro de 1979 (quer dizer: 144 anos depois). Pelo que é solicitar “a ferros” um estatuto de “mais antigo diário”, quando o é apenas há 41 anos.
Quanto à pretensão de ser “o mais antigo diário da Europa”, ela não tem fundamento nenhum. Há bastantes diários por essa Europa foram criados antes de 1835 (…para não falar de 1979). Um exemplo conhecido por todos aqueles que têm algumas noções de história da imprensa: The Times, de Londres, foi lançado em 1 de janeiro de 1785 (chamava-se então Daily Universal Register, tendo adotado o nome atual exatamente três anos depois).
Já menos conhecidos são os casos de dois diários italianos que se publicam ainda hoje: Gazzetta di Mantova, de Mântua, lançada em junho de 1664 (mesmo se o nome só data de 3 de janeiro de 1807), e Gazzetta di Parmalançada em 1735 (o primeiro número conhecido datando de 19 de abril de 1735).
É inútil continuar a lista. Mas seria bom que no meio profissional não se continuassem a fazer tais afirmações que dão prazer aos “bons patriotas” e sobretudo aos nossos amigos açorianos. Pela simples razão que tais afirmações não têm ponto por onde se lhes pegue…

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