Uma prece ao novo Presidente

 J.-M. Nobre-Correia

Anuncia-se um novo quinquénio constitucional. Esperemos que o seja também em termos de práticas de comunicação e de informação… 

Boa parte dos portugueses, nomeadamente aqueles que tiveram a ocasião de viver noutros países da União Europeia e de ver a discrição como se comportam por lá os chefes de Estado (presidentes ou monarcas), ficaram fartos do personagem egocêntrico exibicionista cujo mandato em Belém chega agora ao fim.

Fartos deste personagem que mobilizava quase diariamente os média e que tudo fazia para que assim fosse, fazendo declarações sem conta a propósito de tudo e de nada. Declarações quantas vezes desprovidas da pertinência e da consistência que se espera de um chefe de Estado. E tantas vezes sobre matérias que não eram da sua competência em termos constitucionais como de conhecimentos específicos.

É verdade que, aquele cujo mandato chega por estes dias ao fim, tudo fazia para que assim fosse, adorando as beijoquices, as selfieces e até as graçolas de mau gosto. Quando não a ida a um multibanco ou a um comércio de gelados. Mas também é verdade que isso  foi possível porque, na conceção "jornalística" que tristemente domina em Portugal, isso permitia, à chusma de profissionais dos média que lhe corria atrás, produzir matéria para encher papel e tempo de antena, com um mínimo de esforço pouco cansativo

Respeitando evidentemente a liberdade de iniciativa e de movimentos de quem trabalha para a informação dos jornais (escritos, sonoros ou vídeo), os colaboradores do novo Presidente deverão afastá-los dele. Fazendo-lhes amavelmente compreender que não o obrigarão a fazer declarações desprovidas de atualidade e de pertinência. Que ele não se deixará empurrar para constantes "diretos" jornalisticamente absurdosE que os jornalistas serão evidentemente bem-vindos às conferências de imprensa organizadas para recolher as declarações do Presidente e fazer-lhe as perguntas que acharem por bem

No novo ciclo que agora é inaugurado, precisamos de uma Presidência da República respeitável, digna,serena, à altura das responsabilidades que as sombrias e preocupantes atualidades nacional e internacional exigem. E não de uma espécie de  engraçadinho, animador permanente e a despropósito de espetáculos audiovisuais…

 Publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 26 de fevereiro de 2026, p. 4.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Da nova razão de ser

Opções de uma singularidade

Três princípios essenciais