Antes que o futuro nos sufoque…
J.-M. Nobre-Correia
Lentamente, a paisagem mediática portuguesa vai-se transformando num preocupante deserto em termos de informação jornalística. Há que reagir!…
Um verdadeiro tsunami varreu o mundo dos média desde os anos 1960. Primeiro com as rádios e televisões livres. Depois com as redes de cabo e os satélites geoestacionários. E em seguida com a internet e a tecnologia digital. Pelo que a paisagem mediática atual pouco se assemelha à circunscrita paisagem de então. Enquanto a informação jornalística se foi afogando num vasto oceano de informações nada jornalísticas. Quando a informação jornalística constitui um pilar essencial da democracia parlamentar. Urge pois conceber uma nova paisagem mediática de informação e uma nova prática da informação jornalística. Até porque de pouco servirá querer manter em vida o que vai penosa e irreversivelmente soçobrando.
Ora, o Portugal mediático e jornalístico é historicamente caracterizado por evidentes deficiências. A paisagem mediática, de grande aridez, é dominada por jornais, rádios e televisões que têm unicamente por origem a faixa costeira centro-norte, e mais precisamente Lisboa e um pouco o Porto. O resto do país, na faixa raiana do Nordeste e da Beira Interior, como a sul do Tejo, são um quase deserto. Com esta agravante: mesmo em Lisboa e no Porto os jornais ditos “nacionais” vão desaparecendo, nunca tendo aliás alcançado a importância que tiveram e têm os seus congéneres em países europeus demograficamente comparáveis. Enquanto rádios e televisões caiem num simili-jornalismo de declarações e opiniões.
Mais de meio século em democracia, quando novas tecnologias mais ligeiras e menos onerosas o permitiam, poucas iniciativas foram tomadas para superar esta aridez, procurando pôr Portugal entre os melhores em termos de pluralidade dos média e de pluralismo de sensibilidades perante a atualidade. Há pois que tirar conclusões que decorrem da história em Portugal, mas também da dos média na Europa. E, como nos encontramos num tempo de viragem radical desta história dos média, é preciso ousar tomar iniciativas que se impõem de modo a que a informação jornalística venha a ser realmente um bem público, assumido como um serviço público de primeira necessidade, não o entregando apenas à iniciativa de interesses privados e mesmo a interesses estrangeiros.
A história europeia dos média mostra que a constituição de institutos públicos de rádio, que deram depois nascimento a televisões, se saldam por balanços globalmente positivos. Em termos de informação jornalística como de divertimento, as estações públicas afirmam-se em boa parte dos casos pela qualidade em comparação com o que propõem a maioria das rádios e televisões privadas. Porque não alargar então a experiência à informação escrita, numa altura em que os jornais escritos impressos estão em grave perta de audiência e em risco de vida?…
Por que não criar então institutos públicos trimédia (com redações autónomas de jornalismo escrito, de jornalismo sonoro e de jornalismo vídeo) a fim de salvaguardar o futuro da imprensa escrita (o média mais favorável a uma abordagem racional serena da atualidade) e, no caso português, criá-los nas regiões de “baixa densidade” atualmente desprovidas de média capazes de propor uma leitura da atualidade regional, nacional e internacional diferente da que propõem os microcosmos de Lisboa e acessoriamente do Porto? Uns três ou quatro institutos públicos totalmente autónomos em relação à atual RTP, detidos por fundações que teriam como origem os mundos académico, socioeconómico e sociocultural da respetiva região, contribuindo o Estado central financeiramente à maneira do que faz com os sectores do ensino e da cultura.
Multiplicar os institutos públicos de modo a dotar a informação jornalística de um estatuto de serviço público, salvando-a de uma asfixia pela informação-comunicação, não garantirá só por si uma melhoria substancial da qualidade da informação proposta aos cidadãos. Há pois que rever a formação dos que irão trabalhar em tais institutos. Fomentar o aparecimento de duas ou três escolas superiores de jornalismo (e não de “comunicação [social]” ou de “ciências da informação/da comunicação”) à imagem do que são hoje as formações universitárias em direito ou em medicina, com as especializações de que a prática do jornalismo necessita. Até porque o jornalismo generalista todo-o-terreno já não está à altura do que os cidadãos esperam como diferença, como mais valia, em relação à abundância da informação-comunicação que inunda atualmente a paisagem mediática em favor de empresas, instituições e mesmo individualidades que procuram instrumentalizar consumidores, eleitores e demais adeptos dos mais diversos interesses.
Vasto programa, é certo! Mas um programa em que, para além das possíveis ou desejáveis adequações, é cada vez mais urgente refletir se quisermos salvar o jornalismo, a informação e a democracia…
Publicado do diário Público, Lisboa, 13 de maio de 2026, p. 8.
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