Não se enganem de profissão!…

 J.-M. Nobre-Correia

Dar diariamente tanto espaço à extremas direitas não é fazer jornalismo, mas sim canalizar os gestos e declarações delas, e servir-lhes de altifalante…

Em maio do ano passado, no seguimento das eleições legislativas em Portugal, Le Soir, o grande diário de referência de Bruxelas e o maior diário da Bélgica francófona, publicou um editorial de primeira página com o título “Au Portugal, l’extrême droite peut dire merci aux médias” (“Em Portugal, a extrema direita pode dizer obrigado aos média”).

Uma análise que não era de espantar num país que nunca conheceu a censura desde a sua independência. E num país onde também é há anos naturalmente praticado nos média o chamado “cordão sanitário” em relação à extrema direita. Porque o Estado democrático tem que ser naturalmente defendido. Como tem que ser defendida a liberdade de informar. E a história da Europa nas suas diferentes componentes nacionais mostrou sobejamente que a extrema direita, uma vez no poder, a nível local, regional ou nacional, procura destruir rapidamente a democracia e o Estado de direito, e impede furiosamente os jornalistas de exercerem livremente a profissão de informar os cidadãos.

Ora, em Portugal, a imprensa generalista é cada vez mais rara e a informação é largamente dominada pela televisão, com o que isso significa em termos de prática jornalística. Com redações que dispõem de meios humanos e técnicos limitados, com jornalistas sobretudo de rabo sentado, vivendo antes do mais de comunicados, de telefonemas, de conferências de imprensa, de declarações de uns e de outros, preenchendo páginas e tempos de antena com prestações de personalidades em vista que lhes propõem algo de sensacional, de chocante, de emotivo, de preferência com uma pontinha de espetacular…

O chefito dos fachos em Portugal percebeu isso muito bem e então, nesta perspetiva, faz todos os dias declarações mais ou menos sensacionais, estrondosas, de modo a que os nossos média de rabo sentado, os tais que não vão para o terreno ver o que se passa realmente por este país fora, aproveitam logo o que ele diz para produzir “peças”. E os telejornais da televisão pública, que deveriam por isso mesmo ser mais rigorosos em termos profissionais, deontológicos e éticos, não têm escrúpulo nenhum em nos proporem diariamente no mesmo jornal uma e mesmo duas “peças” com o devido ator.

A falecida Soledad Gallego-Díaz, que foi diretora do diário madrileno El País, escreveu em janeiro de 2024 neste jornal: “Reproduzir as acusações de um chantagista é um caso clássico, mas há muitas ocasiões em que a mera reprodução das contínuas denúncias, sem dados, de políticos implica oferecer-lhes um altifalante para os seus interesses particulares”. Fazendo os jornalistas correr “o risco de se converterem […] em cooperadores necessários de delitos ou manipulações interessadas com objetivos políticos ou económicos”.

É evidente que a atualidade das extremas direitas em Portugal deve ser tratada com atenção e o devido rigor. O que não significa transformá-la em tema diário e até pluridiário obrigatório. Porque os jornalistas deste país não podem esquecer o seu dever de cidadãos na defesa da democracia, do Estado de direito e do futuro do jornalismo. Até porque não é imaginável que tenham irresponsavelmente saudades do salazarismo…

 

Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles.

Publicado no diário Público em linha, Lisboa, 3 de setembro de 2026.

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