Mensagens

A indispensável dupla estratégia

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J.-M. Nobre-Correia Os tradicionais obstáculos ao desenvolvimento da imprensa em Portugal desapareceram. Há agora que definir novas ambições… Sabemos hoje bem porque é que a imprensa em Portugal foi sempre fraca em relação à congénere de outros países da Europa ocidental. Porque bastante mais tardia do que a dos países pioneiros em matéria de mensários, de semanários ou de diários. Porque confrontada a um analfabetismo de 82,4% em 1878 e que ultrapassa ainda os 20,0% em 1970, quando havia populações totalmente alfabetizadas em fins do século XVII na Alemanha, por exemplo. Porque a distribuição deparava com a falta de comunicações fáceis com “o interior”, não sendo as publicações postas à venda em todas as localidades. Porque, fora da área costeira de Braga a Lisboa, as tipografias capazes de produzir diários ou periódicos de uma certa importância praticamente não existiam. Porque a grande maioria da população vivia numa economia de subsistência e o jornal era então um produto de l...

Dois fantasmas afrontáveis

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J.-M. Nobre-Correia O pluralismo e a qualidade da imprensa são a urgência. E não debater dos inconvenientes das ajudas públicas ou privadas… No atual prenúncio de debate sobre as ajudas à imprensa, duas oposições clássicas surgem. A dos que são contra as ajudas públicas, sejam quais forem as proveniências. E a daqueles que desconfiam das ajudas privadas, quaisquer que sejam as origens. Duas oposições manifestamente ideológicas, que não tomam em consideração o que se passa de facto nesta matéria no resto da Europa ocidental. As ajudas públicas à imprensa existem em boa parte dos países da Europa ocidental. Por vezes mesmo há longos decénios. Tomando contornos diversos de um país para outro, desde a ajuda nos custos do papel, das comunicações, da impressão ou da distribuição, até à intervenção em reconversões industriais, em formações profissionais ou em iniciativas editoriais. Recentemente, o orçamento de Estado adotado na Alemanha prevê assim um montante de 40 milhões de euros d...

Propostas para demarcar um debate

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J.-M. Nobre-Correia Ao que parece, os média vão mal. Há pois quem queira que todos sejam ajudados. Mas há que fazer escolhas… De repente faz-se luz! Que importa que haja quem ande há longos anos a fazer notar que a situação da informação jornalística em Portugal é incrivelmente insuficiente. E que a imprensa de informação geral se encontra num estado perto da miséria. Constatações estas feitas a partir, não de uma qualquer perceção impressionista, mas sim do conhecimento do que são as paisagens mediáticas e jornalísticas para além da fronteira com o país vizinho… Pouco importa! O facto é que tal triste situação passa agora a ser tema de discussões, artigos e colóquios diversos. Regozijemo-nos, pois, com isso. Embora tenhamos que constatar que se manifestam por aí ambições claramente desmedidas. Como se fazem também muitas afirmações desprovidas do mais elementar fundamento. Por obras de magia descobre-se que os média portugueses precisam de ajuda. Mas de uma ajuda indiferencia...

Catalunha : as razões de uma retirada

No  Público  desta manhã apareceu um manifesto pela Catalunha intitulado “Contra a judicialização da política”, assinado por quatro autores e subscrito por várias dezenas de pessoas. Na realidade, este manifesto tinha na origem cinco coautores, sendo eu um deles. Como já tinha sido aliás o caso com o manifesto intitulado “Pela democracia e pela liberdade na Catalunha” publicado no mesmo jornal em 23 de abril. A explicação para o facto do manifesto de hoje ter apenas quatro autores é simples. Preparado desde sábado 12, na perspetiva da sentença que seria pronunciada na segunda-feira 14, o texto final foi-me submetido na manhã de sexta-feira 18, pouco antes de ser endereçado ao  Público . Descobri então que o manifesto era subscrito por quatro dirigentes da Fenprof, entre os quais Mário Nogueira. Note-se que, salvo um único caso, a Fenprof é o único sindicato (ou federação) a estar representado entre os subscritores. Ora, eu considero há muito que Nogueira é um provoca...

Questões de democracia e de calendário

J.-M. Nobre-Correia Dizem os francófonos, naquela que é minha outra língua, que …il y a des choses qu’on ne dit pas, mais cela va mieux en le disant.  Com duas traduções possíveis : há coisas que não se dizem, mas mais vale dizê-las / sentimo-nos melhor dizendo-as ! Tenho para mim, há muitos, muitos anos, que há três instituições que não foram devidamente democratizadas depois do 25 de Abril : a Justiça (eternamente insatisfatória, lenta e conservadora), a Diplomacia (elitista, mundana e conservadora) e as Forças Armadas (tendo o 25 de Abril tido como origem um golpe militar, quem não foi saneado foi sobrevivendo entre os sobressaltos da democracia). E, pelo menos no que diz respeito à Justiça e às Forças Armadas, é manifesto que elas vivem em roda livre, longe do controlo mais elementar das instituições democráticas. O que se está a passar atualmente com a Justiça e com as Forças Armadas é significativo. Manifestamente na (inacreditável e escandalosa) questão de Tancos, os ...

Portugal : le "modèle". Quel modèle ?

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La droite comme l’extrême gauche annonçaient l’expérience de majorité parlementaire de gauche comme condamnée d’avance. Quatre ans après, en fin de législature, le bilan est largement satisfaisant et annonce peut-être même un avenir prometteur… Soudain, après avoir ignoré « l’expérience portugaise »  [1] , l’Europe, de Madrid à Bruxelles en tout cas, se met à évoquer « le modèle portugais ». Mais est-ce qu’il s’agit vraiment d’un « modèle » ? Et en quoi consiste-t-il ? La première chose qu’il faut savoir c’est que le « modèle portugais » n’a vraiment pas été le fruit d’une élaboration stratégique préalable. Ce fut plutôt la conséquence de deux événements malheureux. D’abord, une coalition de droite, réunissant PSD et CDS  [2] , qui a gouverné le pays de juin 2011 à novembre 2015, rabotant de nombreux acquis sociaux, augmentant fortement le chômage, poussant à l’émigration, remettant entre les mains d’intérêts étrangers b...

A informação que temos ou não…

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J.-M. Nobre-Correia Os governos deste país não podem continuar a alhear-se das condições em que operam os média em matéria de jornalismo… Em recente entrevista na  Visão , é perguntado ao primeiro-ministro o que conta fazer em matéria de ajuda pública à imprensa. Mas António Costa esquiva a questão. Comete assim um erro na avaliação que faz implicitamente do estado da democracia e da cidadania em Portugal. Porque, em termos gerais, os cidadãos são insuficientemente informados e globalmente mal informados. Como poderá desde logo o sistema democrático funcionar de maneira satisfatória, com uma participação ativa e responsável dos cidadãos? Portugal é o país de Europa ocidental onde se publicam menos jornais de informação geral de caráter nacional. Mas é também aquele em que as difusões são mais baixas, com uma taxa de penetração nove vezes inferior ao que é na Escandinávia, por exemplo. E a estes infortúnios vem acrescentar-se uma prática jornalística insatisfatória, vítima de...