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Cidadania e responsabilidade

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J.-M. Nobre-Correia O relato e a interpretação da atualidade não podem consistir em entrevistas sem nexo. Para mais em tempos de crise… Digam lá o que disserem. Mas todo e qualquer projeto de média tem à partida uma opção politico-cultural da sociedade. É claro que a dimensão económica, empresarial, é nalguns casos decisiva. E é mesmo importante que assim seja: num média, a prática jornalística só pode gozar de real autonomia e desabrochar plenamente se as receitas financeiras forem superiores aos custos e as contas geridas com mestria. A comunhão em torno da opção politico-cultural é, no entanto, indispensável para fazer bem funcionar uma redação. É a sensibilidade correspondente que preside ao tratamento da atualidade e leva também o público a identificar-se com o “seu” média. O que se traduz na partilha de uma mesma visão em relação aos acontecimentos de atualidade, à seleção operada pelo média e à apreciação da sua importância, assim como à interpretação relativamente vizinh...

Por onde andam os jornalistas ?

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J.-M. Nobre-Correia Os nossos jornais, sobretudo os audiovisuais, dão cada vez mais o sentimento de serem meros canais de assessorias… “Oiçam nos autocarros, nos caminhos de ferro, na rua”. Mais: “deem-se bem conta da opinião”. Mas também: “estejam ao corrente de todas as descobertas, de todas as invenções, vulgarizem todas as coisas que se vão enterrando em pesadas revistas”. Assim mandava Moïse Polydore Millaud, criador da chamada “imprensa popular” em França, falando aos seus jornalistas. E graças nomeadamente a estas receitas,  Le Petit Journal , que lançara em 1863, atingirá cerca de dois milhões de exemplares em 1895, sendo então o maior diário do mundo. Nestes últimos meses, a atualidade em Portugal tem muitas vezes feito pensar em Millaud. Quando personalidades ao mais alto nível de uma certa direita radical europeia se reúnem em Fátima. Ou quando bispos opostos a  Jorge Bergoglio [o papa Francisco],  vindos de várias partes do mundo, se encontram em Sintra...

Inconvenientes de uma conceção

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J.-M. Nobre-Correia A fragilização dos média levou muitos a praticar um jornalismo ligeiro e explosivo: uma estratégia de vistas curtas… O ofício de informar sempre existiu. Utilizando sucessivamente, e até mesmo paralelamente, a expressão oral, manuscrita e impressa. Em ambiente de repressão ou de liberdade, em maior ou menor grau. Mas é claro que o jornalismo enquanto atividade profissional supôs uma sociedade democrática. E não foi por acaso se, de fins do século XVIII à atualidade, as lutas pela democracia e pela liberdade de informar foram nitidamente concomitantes. É claro que, uma vez alcançada a liberdade de informar, isso não significou que a atividade jornalística passou a ser uma garantia para a democracia. Até porque a perceção da atualidade e o seu relato não são do domínio das ciências ditas exatas: a apregoada objetividade não existe. Há sim competência profissional, rigor e honestidade. A que se vêm juntar a sensibilidade e a cultura de quem perceciona e relata o...

Esta obstinada letargia congénita

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J.-M. Nobre-Correia Professor emérito de Informação e Comunicação na Université Libre de Bruxelles. A situação extremamente preocupante em que se encontra a imprensa em Portugal tem razões históricas que a explicam sem a justificarem… A imprensa é em Portugal uma atividade tardia.  O  primeiro mensal,  Gazeta em que se relatam as novas todas que houve nesta Corte e que vieram de várias partes no mês de novembro de 1641 , é publicado em 5 de dezembro de 1641, quarenta e quatro anos depois dos primeiros congéneres europeus. A  Gazeta de Lisboa , primeiro semanário, aparece em 10 de agosto de 1715, cento e dezasseis anos após os primeiros periódicos deste tipo. E o  Diário Lisbonense , lançado em 1 de maio de 1809, chega cento e cinquenta e nove anos depois do  Einkommende Zeitungen , de Lípsia [Leipzig]. Isto é: o atraso não só não é recuperado como até vai aumentando!… Por outro lado, a situação da imprensa em Portugal sempre foi bastante frágil. Co...

A indispensável dupla estratégia

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J.-M. Nobre-Correia Os tradicionais obstáculos ao desenvolvimento da imprensa em Portugal desapareceram. Há agora que definir novas ambições… Sabemos hoje bem porque é que a imprensa em Portugal foi sempre fraca em relação à congénere de outros países da Europa ocidental. Porque bastante mais tardia do que a dos países pioneiros em matéria de mensários, de semanários ou de diários. Porque confrontada a um analfabetismo de 82,4% em 1878 e que ultrapassa ainda os 20,0% em 1970, quando havia populações totalmente alfabetizadas em fins do século XVII na Alemanha, por exemplo. Porque a distribuição deparava com a falta de comunicações fáceis com “o interior”, não sendo as publicações postas à venda em todas as localidades. Porque, fora da área costeira de Braga a Lisboa, as tipografias capazes de produzir diários ou periódicos de uma certa importância praticamente não existiam. Porque a grande maioria da população vivia numa economia de subsistência e o jornal era então um produto de l...

Dois fantasmas afrontáveis

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J.-M. Nobre-Correia O pluralismo e a qualidade da imprensa são a urgência. E não debater dos inconvenientes das ajudas públicas ou privadas… No atual prenúncio de debate sobre as ajudas à imprensa, duas oposições clássicas surgem. A dos que são contra as ajudas públicas, sejam quais forem as proveniências. E a daqueles que desconfiam das ajudas privadas, quaisquer que sejam as origens. Duas oposições manifestamente ideológicas, que não tomam em consideração o que se passa de facto nesta matéria no resto da Europa ocidental. As ajudas públicas à imprensa existem em boa parte dos países da Europa ocidental. Por vezes mesmo há longos decénios. Tomando contornos diversos de um país para outro, desde a ajuda nos custos do papel, das comunicações, da impressão ou da distribuição, até à intervenção em reconversões industriais, em formações profissionais ou em iniciativas editoriais. Recentemente, o orçamento de Estado adotado na Alemanha prevê assim um montante de 40 milhões de euros d...

Propostas para demarcar um debate

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J.-M. Nobre-Correia Ao que parece, os média vão mal. Há pois quem queira que todos sejam ajudados. Mas há que fazer escolhas… De repente faz-se luz! Que importa que haja quem ande há longos anos a fazer notar que a situação da informação jornalística em Portugal é incrivelmente insuficiente. E que a imprensa de informação geral se encontra num estado perto da miséria. Constatações estas feitas a partir, não de uma qualquer perceção impressionista, mas sim do conhecimento do que são as paisagens mediáticas e jornalísticas para além da fronteira com o país vizinho… Pouco importa! O facto é que tal triste situação passa agora a ser tema de discussões, artigos e colóquios diversos. Regozijemo-nos, pois, com isso. Embora tenhamos que constatar que se manifestam por aí ambições claramente desmedidas. Como se fazem também muitas afirmações desprovidas do mais elementar fundamento. Por obras de magia descobre-se que os média portugueses precisam de ajuda. Mas de uma ajuda indiferencia...