Um dilema perfeitamente límpido

 J.-M. Nobre-Correia

Assumir responsabilidades perante eleições que se aproximam num contexto singularmente sombrio…

A situação não tem nada de original. Um pouco por toda a parte, nos países da União Europeia, é a mesma correria: partidos ultraminoritários consideram não ter suficientemente eco nos média dominantes e que é por isso que não têm mais militantes, simpatizantes e votantes. Pelo que as campanhas eleitorais são uma boa ocasião para poderem fazer chegar as posições desses partidos a largas audiências, usufruindo de legislações que garantem o pluralismo ou mais simplesmente de práticas jornalísticas habituais nesta matéria.

Os ditos partidos minoritários apresentam assim candidatos a todos os níveis de poder: local, legislativo, presidencial. Tendo raramente a ilusão de, com as eleições, conseguirem sair das suas posições minoritárias. Com a agravante que, durante as campanhas eleitorais, põem boa parte das vezes em evidência mais os conflitos entre componentes da área de que fazem parte, do que aquilo que verdadeiramente os opõe ao campo adversário.

Porém, uma vez chegadas ao fim as campanhas eleitorais e o aproveitamento que puderam tirar do acesso aos média, estes partidos minoritários são confrontados a um dilema: o de irem a votos e porem em evidência pelos resultados eleitorais o pouco que representam de facto no seio da população; ou de, num arrebate de lucidez, retirarem-se da contenda, convidando os eleitores a derrotar o campo adverso. O que, neste segundo caso de figura, leva boa parte dos eleitores a votar então na formação dominante ou no principal candidato da mesma área.

No caso das próximas eleições presidenciais, dentro de duas semanas, a acreditar nas numerosas sondagens que têm sido publicadas — e que deviam ter merecido uma análise crítica judiciosa por parte dos média —, a manterem-se todas as candidaturas anunciadas, poder-se-iam encontrar na segunda volta dois candidatos da mesma área política mais ou menos alargada. O que se traduziria na eleição, pela quinta vez, de um presidente da República de direita, quando a atual Assembleia da República está dominada pela direita e a extrema direita, o governo em exercício se situando ele mesmo bastante à direita.

Ora, vivemos atualmente um momento da História em que tal alinhamento em posições conservadoras e até mesmo reacionárias seria extremamente inquietante. E tanto mais quanto os ventos que sopram dos Estados Unidos à Rússia, passando por diversos países da União Europeia, para não falar já da América Latina, trazem relentos de autoritarismo, quando não de um fascismo modernizado por novas tecnologias a que os detentores do Poder recorrerão sem hesitar para se imporem…

Para os grupos minoritários, que nalguns casos o são cada vez mais e sem reais esperanças de poderem atingir a segunda volta das eleições presidenciais, põe-se então um dilema.  Ou se retiram responsavelmente da contenda antes mesmo da primeira volta e apelam os seus eleitores potenciais a votar pelo candidato que, apesar das críticas que lhe podem ser endereçadas, faz parte da mesma área e tem maiores probabilidades de passar para a segunda volta e quiçá de ser eleito. Ou manterem-se para a primeira volta e entregarem assim muito provavelmente o terreno da disputa final a dois candidatos de direita e até mesmo de extrema direita, um deles vindo então a ser eleito presidente da República…

Será esta a enorme responsabilidade que cairá sobre os ombros dos candidatos minoritários da esquerda. Esperando que o sectarismo não lhes faça perder a lucidez e que não sejamos nós, cidadãos, a pagar as consequências de uma eventual cegueira…

 

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