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Um erro que se repete, repete, repete…

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J.-M. Nobre-Correia Diz-se por aí que o  Diário de Notícias  festeja hoje o seu 157° aniversário. E até o próprio  Diário de Notícias  o diz. Só que em 29 de dezembro de 1864 foi publicado apenas um “programma”. E foi publicado outro no dia 30. Mas já não houve um terceiro “programma” em 31… Com efeito, o primeiro número do  Diário de Notícias , com a indicação de “N. 1” tem data de “DOMINGO 1 DE JANEIRO” (subentendido: de 1865). E lá está o editorial intitulado “Ao Público”, tendo como primeira frase: “O Diário de Notícias começa hoje o primeiro período da sua existência […]”. A imprensa portuguesa deste fim do século XIX tinha muitas vezes por modelo a imprensa francesa, que era então a que alcançava maiores tiragens na Europa, com diários como  Le Petit Journal ,  Le Petit Parisien ,  Le Matin  e  Le Journal  que, em véspera da Primeira Guerra Mundial, alcançavam em conjunto mais de 4 milhões de exemplares de difusão (Ver a minha...

Um "Jornal do Fundão" bem singular

  J.-M. Nobre-Correia Tinha lido não sei onde (provavelmente no próprio jornal da semana passada) que a RTP ia consagrar uma emissão ao “Jornal do Fundão”. Porém, não tomei nota e confesso que tal anúncio não despertou particularmente o meu interesse. Pelo que, quando a emissão passou ontem, encontrava-me noutras ocupações… Quis amavelmente uma colega mandar-me uma mensagem por telemóvel a assinalar-me a emissão, já esta tinha começado há uns 20 minutos. Liguei o televisor, vi uns três ou quatro minutos, mas o que vi estava demasiado ficcionado e desliguei. Hoje, porém, ao ver no Facebook várias reações à emissão, achei que deveria vê-la. E, no fim de contas, fiz bem tê-la visto. Como nasci no Fundão, fui “redactor-estagiário” (nos termos de António Paulouro) do “Jornal do Fundão” na minha juventude, nele escrevi por intermitência durante 50 anos e sou profissionalmente aquilo que sou, sem abordar aspetos mais essenciais permito-me, no entanto, fazer aqui dois reparos. Os autores d...

História dos Média na Europa

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O meu mais recente livro está à venda a partir de hoje nas livrarias Almedina, Bertrand e Fnac, assim como noutras. Quatro parágrafos extraídos do prefácio : " O conhecimento das tendências que marcaram a história dos média europeus e dos países de que somos geográfica e culturalmente próximos, é absolutamente indispensável. Só assim poderemos compreender por que é que, quase seis séculos depois da “descoberta” da prensa tipográfica, a paisagem impressa é tão contrastada. E como é que, ao longo do século XX, a rádio e a televisão, os seus emissores e os seus conteúdos, evoluíram de maneira tão plurifacetada. A Europa Ocidental conheceu evoluções económicas, culturais, políticas e técnicas diferentes, tomando a paisagem mediática ares de  patchwork . Embora se assista a uma certa homogeneização desde a desmonopolização dos sectores radiofónico e televisivo, nos anos 1970-1980. Uma tendência reforçada a partir dos anos 1990, quando a União Europeia ia estendendo os seus contornos ex...

Os limites do pluralismo

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J.-M. Nobre-Correia Procurando repercussões na concorrência e nas redes sociais, média há que tentam a provocação, abrindo portas ao inaceitável… Num país onde a reportagem, a investigação e até mesmo a correspondência são pouco praticadas, reina nos média uma estranha conceção do pluralismo. Até porque as redações são reduzidas e por vezes mal estruturadas, o conteúdo propriamente jornalístico (no sentido forte da palavra) sendo desde logo escasso. Para tentar superar esta pobreza, a solução encontrada é recorrer a “colunistas” e “comentadores” muito diversos. Boa parte da colaboração destes não acarreta custos: serem publicados, passarem na rádio ou mostrarem-se na televisão é o pagamento de que usufruem socialmente. Embora haja outros que ganham muito bem a vida com tais prestações, pontificando em diversos média, imprensa diária e semanal, rádio e televisão. O que se traduz numa concentração da “opinião” que reflete uma estranha conceção do pluralismo. Esta conceção singular do plu...

As sensações de gozo e a democracia

J.-M. Nobre-Correia António Costa é um político hábil e consistente. Mas cometeu um enorme erro quando manifestou publicamente o seu apoio a uma ainda não anunciada candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa  a  um segundo mandato na Presidência da República. A o longo da vida,   a  personalidade de Rebelo de Sousa dera   suficientes provas daquilo que é realmente e do que é capaz. Francisco Pinto Balsemão, que foi seu patrão e superior hierárquico, ilustrou bem o caráter do personagem com a  metáfora  do escorpião… Desde há algum tempo, Costa está a pagar cada vez mais as consequências do seu erro.  H á que recear  agora  que Rebelo de Sousa não tenha escrúpulo algum em experimentar a sensação de gozo que certamente  lhe provocar ia  uma destabilização da democracia portuguesa … Já no seu primeiro mandato, Rebelo de Sousa deu sobejas provas de ultrapassar repetidamente os poderes que  são atribuídos   pela Constituição a...

Uma incompreensível suscetibilidade

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  J.-M. Nobre-Correia Poderão os telejornais da RTP ser objeto de crítica sem que o chavão da “censura” seja brandido para tentar intimidar os autores?… É claro que boa parte dos cidadãos não se dá conta. Até porque sempre conheceu esta maneira de funcionar. Mas há também quem frequente rádios e televisões de outros países europeus. Ou que tenha vivido longos anos longe, sem contactos durante muito tempo com as estações portuguesas. E que, por isso mesmo, saiba comparar com outras maneiras de produzir entretenimento como informação. O que leva naturalmente a uma atitude crítica para com o que rádios e televisões propõem em Portugal. Tal atitude manifesta-se sobretudo em relação à televisão. Até porque ela é, há longos anos, o ator dominante da paisagem mediática. E, claro está, a crítica endereça-se a maior parte das vezes à RTP. Porque é ela que faz parte há mais tempo do património cultural português. Porque é considerada como “serviço público” e, por isso mesmo, paga naturalment...

Era uma vez o pluralismo…

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J.-M. Nobre-Correia Há coisa de meio século a paisagem mediática europeia parecia libertar-se da inevitabilidade do declínio e do garrote que a sufocava… Nos anos 1960-1970 uma lufada de ar fresco percorre a Europa dos média. No entre-duas-guerras e depois da Segunda Guerra Mundial, muitos jornais e rádios desaparecem. Por razões sobretudo económicas no caso dos jornais. Por razões técnico-legais no que se refere às segundas. Mas agora, as novas tecnologias em matéria de imprensa, de som e de vídeo abrem as portas à criação de novas publicações e novos emissores. Seja embora necessário, no caso do audiovisual, emitir ainda a partir de fora das fronteiras nacionais ou em perfeita ilegalidade no próprio país. Quando, perante novas tecnologias que tornam inevitável a abertura do sector audiovisual ao pluralismo público-privado e à proliferação de estações privadas, a legalidade instituída passa nos anos 1970-1980 a reconhecer uma situação de facto. O sentimento geral é de entrarmos então ...