Mensagens

A tentação de Ícaro

Imagem
J.-M. Nobre-Correia Numa larga ausência de sentido crítico, os média dão-lhe uma tal guarida que o levam provavelmente a sonhar com outros altos voos… Vivemos em Portugal tempos espantosos. De grande originalidade. Mas bastante estranhos também. Em termos políticos como mediáticos. Ou melhor: tempos que são fruto precisamente da conjunção de uma singularidade política com uma não menor singularidade mediático-jornalística. De um lado, temos um personagem que há cinquenta anos instrumentaliza compulsivamente os média. Com a “criação de factos”. Com pseudoanálises da atualidade política, mas de facto sobre toda a espécie de assuntos. Com constantes declarações a propósito de tudo e de nada. Por uma obsessiva necessidade de fazer falar de si, de levar os média a citá-lo a propósito dos mais inverosímeis temas. Nunca esquecendo a dimensão manobreira do que diz ou escreve. Mantendo porém relações de extrema cordialidade com os meios jornalísticos, guardando embora a distância que convém ent...

Dois enormes achados

J.-M. Nobre-Correia Na sua história milenária, a Igreja Católica fez duas “trouvailles” gigantescas e notoriamente essenciais: a confissão e o celibato dos religiosos…   Na sua longa história, a Santa Madre Igreja Católica Romana fez nomeadamente duas descobertas formidáveis de enorme importância: a confissão e o celibato dos religiosos. Graças à confissão, os padres passavam a controlar a vida mais íntima dos indivíduos, nomeadamente no que dizia respeito à sexualidade e às “encartadas” de toda a ordem nesta e noutras matérias. Para que confessassem tudo e não escondessem nada aos padres (roubos, malversações, conspirações, invejas…), ameaçava-se com um horrível inferno e prometia-se uma limpeza da alma depois de umas avé-marias, uns padres-nossos e por vezes algo mais do que isso. Consequências da confissão: os pecadores, depois do ato de contrição, poderiam voltar de novo a pecar porque seriam libertados do pecado na confissão seguinte. O que explica a grande diferença da conceç...

Da excitação à tragédia

J.-M. Nobre-Correia Anda por aí gente a vociferar pedindo “respeito”. Esquecendo-se de respeitar os outros cidadãos e o Estado de direito… Há movimentações tidas como inseridas na tradição histórica da esquerda cujo líderes consideram quanto mais um Poder instituído for fragilizado, mais “le grand soir de la lutte finale” [a grande noite da luta final] se aproxima. E quanto mais a desordem social for grande e a fragilização do Poder evidente, mais as perspetivas da “verdadeira esquerda” serão favoráveis em termos de chegada ao Poder ou, mais modestamente, para ganhar peso em inevitáveis próximas eleições. As organizações e os líderes implicados em tais movimentações provocadoras de desordem social ignoram ou preferem ignorar a História europeia dos últimos dois séculos. Porque estes “lendemains qui chantent” [amanhãs que cantam] anunciados transformam-se quase sempre em vigor acrescido de uma extrema direita até então minoritária, quando não em tragédia com consequências autoritárias i...

O desmoronamento anunciado

J.-M. Nobre-Correia A atual conjuntura social e política em Portugal, particularmente agitada, parece deixar antever uma grave crise com consequências imprevisíveis…   A estupefaciente atualidade política e social dos últimos dias provoca um profundo abalo no observador habituado ao funcionamento das democracias vizinhas. O que, subsequentemente, causa o tétrico sentimento de assistirmos ao desmoronamento da democracia portuguesa… Estamos de facto perante uma espécie de série piramidal de fortes disfuncionamentos do sistema político. Para começar, com um presidente da República que ostenta cada vez mais a sua incapacidade para assumir responsavelmente o cargo. Semeando permanentemente opiniões, quando não intrigas e ameaças, que não deveriam muito simplesmente ser publicamente exprimidas. Intervindo manifestamente sobre matérias que não são constitucionalmente da sua competência. Fragilizando outros mandatários de poderes constituídos. Sendo incapaz de assumir a serenidade, a reser...

O empecilho falante

J.-M. Nobre-Correia É bem conhecido o egocentrismo exibicionista do residente em Belém. Mas a sua irresponsabilidade torna-se também cada vez mais evidente nestes últimos tempos. Hoje disse assim que tenciona deslocar-se nos próximos dias a hospitais que conhecem atualmente problemas para se inteirar da situação. À parte a necessidade obsessiva que ele tem de se pôr constantemente em evidência perante os média, o que é que lá vai fazer?! Permito-me transcrever aqui um parágrafo das pp. 185-186 do meu livro  Teoria da Informação Jornalística , publicado pela Almedina: “Esta preocupação de se pôr em valor, em bicos dos pés, de estar omnipresente lá onde, como consequência da atualidade, se encontram as câmaras de vídeo, suscita práticas dos meios políticos que passaram a ser correntes:  « Não há falecimento que não seja preciso saudar com um elogio lacrimoso. Nem uma libertação de reféns que não exija uma presença presidencial ou governamental na pista de aterragem. Nem um crime...

Estas manifestas insuficiências

Imagem
J.-M. Nobre-Correia Os jornais portugueses estão confrontados a dificuldades decorrentes dos meios humanos, técnicos e financeiros de que dispõem… Leitor, ouvinte, espectador ou internauta, tem-se demasiadas vezes o sentimento que o jornalismo praticado em Portugal é globalmente insuficiente. E até que, de certo modo, não evoluiu com as necessidades do tempo presente. Que, exagerando um pouco, continua a fazer-se jornalismo como em fins do século XIX ou, pelo menos, como até aos anos 40 do século XX. Isto é: anunciando factos recebidos na redação ou, na melhor das hipóteses, cuidadosamente recolhidos por jornalistas da redação. A que se juntavam tomadas de posição ideológicas consideradas indispensáveis. Só que o jornalismo de há uns 70-80 anos para cá evoluiu. E evoluiu sob a pressão mesmo da extensão da paisagem mediática e da progressiva proliferação dos atores que nela intervêm. Porque a entrada em cena decisiva da rádio no território da informação jornalística no após Segunda Guer...

Um agradável bálsamo para o coração / Un agréable baume au cœur

Imagem
Quando, há pouco mais de dois anos, foi aberta a campanha eleitoral para a Reitoria da Université Libre de Bruxelles (ULB), recebi uma mensagem da Professora Annemie Schaus. Mensagem que deu lugar a um curto diálogo concluído então com a promessa de que, se ela fosse eleita, iria cumprimentá-la à Reitoria, em Bruxelas. Quando, por essa altura, eu não tinha voltado a Bruxelas há já oito anos… A pandemia do covid veio retardar durante mais de dois anos a concretização da promessa. E pequenos contratempos recentes fizeram que só agora, neste final de outubro, fosse possível ir a Bruxelas. Quando anunciei a apenas uma pequena vintena de amigos belgas que iria estar uma semana em Bruxelas, recebi imediatamente um convite da Senhora Reitora da ULB: receber-me-ia na Reitoria e iríamos jantar em seguida. E, dada a sobrecarga da sua agenda, o convite era para o próprio dia da minha chegada a Bruxelas. Dada a minha experiência três semanas antes com um atraso da TAP de 13h05 na ligação Lisboa- M...