Mensagens

Aos que ainda se lembram dela…

Pela leitura da edição de hoje do diário "Le Soir" de Bruxelas, tomo conhecimento da falecimento da etnomusicóloga Anne Caufriez (1945-2024)… Tenho várias recordações de Anne. A primeira das quais é a de que ela frequentava muito os estudantes portugueses no restaurante da Université Libre de Bruxelles em finais dos anos 1960-início dos anos 1970, quando a grande maioria de nós era exilada. Lembro-me depois que, quando a Anne soube das minhas origens no Fundão e que eu tinha trabalhado no "Jornal do Fundão", falou-me com muito entusiasmo do Fundão, de António Paulouro e do Padre António Morão, que ela tinha frequentado com Michel Giacometti (1929-1990), etnomusicólogo corso, formidável estudioso da música popular portuguesa que era na altura seu namorado. Giacometti a quem ela consagrou um livro concluído recentemente e ainda não publicado. Tive o seu irmão Philippe e o seu futuro marido Michel Plumley como alunos : que eles aceitem o meu abraço de solidariedade, ca...

Como é possível esta tragédia ?!…

Formidável peça de jornalismo de investigação no telejornal das 20h00 da pública France 2 (de quarta-feira 16, 19h00 em Portugal) provando que o exército israelita, depois de ter largamente destruído hospitais, escolas e demais infrastruturas de base em Gaza, pôs-se agora a destruir as instalações hidráulicas, criando problemas trágicos no que diz respeito à alimentação da população em água não só para beber como para as mais elementares utilizações no que diz respeito à higiene, por exemplo… Como é que um país nascido depois da Segunda Guerra Mundial, no seguimento da história trágica do povo judeu, é capaz agora de praticar um tal terrorismo genocidário brutal em relação aos povos vizinhos ? Como é possível que as nossas belas democracias ocidentais fechem os outros perante este genocídio arrogante que a extrema-direita no poder em Israel anuncia e pratica sem o menor escrúpulo ?! Inquietantes tempos que vivemos ! Inquietantes tempos em que as nossas democracias se permitem ignorar e...

Média e jornalismo em democracia

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J.-M. Nobre-Correia   Será a informação a que temos direito de natureza a nos permitir ser cidadãos no mais amplo sentido do termo?…   É preciso ler, ouvir e ver média de países da nossa própria área geográfica e cultural para nos darmos conta até que ponto a informação jornalística vai mal no “país à beira-mar plantado”. Ou melhor: não espreitá-los apenas de raspão, mas frequentá-los assiduamente com a devida atenção crítica. E procurar então compreender o porquê da situação em Portugal. Oh!, as insuficiências da informação jornalística vêm de longe, consequência de um velho país cedo ultracentralizado, vivendo durante séculos num analfabetismo largamente enraizado e naturalmente desprovido de preocupações culturais. A sua paisagem mediática nasceu assim disforme, praticamente circunscrita a uma estreita faixa do litoral Centro-Norte, tendo como ponto de apoio Lisboa e muito acessoriamente o Porto. Acrescentemos a tais dados de base o facto de os mecanismos de controlo da cri...

Conceber uma ambição para a Lusa - 3

No seguimento da publicação aqui (em 16 de agosto) do meu artigo publicado no "Expresso" de 15 de agosto e do texto de um Leitor (não identificado, mas do meu conhecimento, em 19 de agosto), recebi de Afonso Camões (que foi administrador não executivo da Lusa entre 2005 e 2009, e presidente e administrador executivo entre 2009 e 2014) um longo texto que já tem alguns anos mas que continua a ter grande interessante para compreender a importância da Lusa no contexto mediático nacional e lusófono… ••••• […] Cheguei à Lusa no outono de 2005, nomeado como administrador não executivo, em representação do acionista Lusomundo Média, designação do maior acionista privado da agência, que mudou posteriormente para Controlinveste e, depois ainda, para Global Media Group. Em princípios de 2009, fui eleito pela primeira vez presidente e administrador executivo, pela unanimidade dos acionistas, em assembleia geral, tendo sido reconduzido para novo mandato em 2012. Quando em outubro de 2014 ...

Conceber uma ambição para a Lusa - 2

Um Leitor altamente conhecedor do funcionamento da agência Lusa endereçou-me uma reação ao artigo que publiquei no "Expresso" de quinta-feira 15 de agosto. Porque considero o seu texto extremamente interessante, pedi-lhe para o poder publicar aqui no meu blogue, limitando-me a suprimir, com o consentimento dele, dois curtos parágrafos iniciais e outro final de caráter mais pessoal, e a não indicar o nome do Autor. Aqui fica esta importantíssima contribuição para um debate sobre o futuro da agência de informação em língua portuguesa… ••••• "[…] não posso deixar de lhe dizer o seguinte:   Do meu ponto de vista fez o Estado muito bem em comprar a quase totalidade do capital da Lusa. E só não é a totalidade porque há acionistas que estão desaparecidos em combate, faliram ou pura e simplesmente desapareceram.   E porque fez bem o Estado? Porque pura e simplesmente os privados não vêem qualquer interesse em manter-se como acionistas da Lusa e, para a Lusa, esses acionistas não...

Conceber uma ambição para a Lusa

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Portugal não pode contentar-se em dispor de uma agência de informação tão limitada no seu perímetro de ação…   J.-M. Nobre-Correia No último dia de julho, o Estado compra participações de acionistas privados na agência  Lusa  e passa a deter 95,86% do seu capital. Notícia que cai na indiferença geral de um país em férias. E até mesmo numa relativa distração dos média, quando  Lusa  dispõe em Portugal de um estatuto de monopólio de facto como agência de informação geral. Quando em boa parte dos países vizinhos, a grande agência nacional de informação conta com uma ou mais concorrentes que lhe disputam clientes, propondo abordagens diferentes da atualidade. Que esta alteração de fundo não tenha “provocado ondas”, traduz bem a inconsistência de um meio político que, na sua maioria, prefere média canalizadores de comunicação oficiosa e não vigilantes atentos e críticos da atualidade. Mas é também o reflexo de um panorama mediático nacional particularmente pobre. Com...

Uma questão de princípios

J.-M. Nobre-Correia Nunca tive alma de militante político! Ou mais exatamente: ser militante de um partido político nunca foi “ma tasse de thé”. Pela simples razão que sempre quis pensar pela minha cabeça e não alinhar em posições adotadas por instâncias dirigentes de um partido e seguir disciplinadamente o que elas decidiram. Mas, para que seja bem claro, até tenho uma certa admiração e respeito pelos militantes que se investem desinteressadamente na vida da “polis”. Dito isto, a vida política sempre me interessou como observador exterior, como leitor de jornais e livros na matéria e como cidadão “engagé” em questões que considero fundamentais em termos de Democracia pluralista, de Estado de direito e de Justiça social. O que explica que uma das minhas formações académicas seja precisamente em ciências políticas.  Não impede que, apesar de viver agora em Portugal, após uma vida académica como estudante e como profissional, inteiramente desenrolada prioritariamente no estrangeiro, ...