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Uma estranha "carta aberta"

  J.-M. Nobre-Correia Por razões deontológicas, sempre me proibi sugerir publicamente a jornalistas assuntos a tratar. Faço hoje uma exceção à regra que me impus há quase cinquenta anos. E permito-me assim propor aos jornalistas e média generalistas portugueses que procurem saber 1. quais (ex-)bastonários da Ordem dos Médicos reagiram publicamente à recusa de hospitais privados em receberem doentes da covid-19 e até ao encerramento decidido por alguns deles nos primeiros meses da vaga de pandemia? 2. quais (ex-)bastonários da dita Ordem do Médicos dirigem atualmente empresas privadas do sector médico ou têm atividades profissionais em clínicas e hospitais privados? Compreenderemos assim muito melhor o sentido do “alerta público” publicado hoje no  Público  por nada menos de seis (ex-)bastonários, “quase oito meses depois da pandemia covid-19 ter entrado em Portugal”, como eles próprios fazem reparar. Até porque não vi confrades deles tomarem idênticas iniciativas nos jorn...

Uma iniciativa magnífica

J.-M. Nobre-Correia Diamantino Gonçalves está a realizar um trabalho que ficará certamente como um contributo essencial para a história local… O Fundão de hoje corresponde pouquíssimo à recordação que eu tinha da minha terra, da terra onde nasci. Mas é possível, acredito, que, durante longos decénios, eu tenha pintado o Fundão na minha memória com cores encantadoras que de facto não correspondiam ou correspondiam pouco à realidade de há uns 50 anos… Seja como for, o facto é, para mim, que a sociabilidade no Fundão morreu. Que uma certa dinâmica e um certo orgulho (justificado) morreram também. Que esta vila promovida a cidade está socialmente inerte, amorfa. E que, por conseguinte, tudo se passa hoje numa total indiferença, numa total letargia social… Vejamos um caso significativo: Diamantino Gonçalves, técnico de ótica ocular reconhecido, está a fazer, por iniciativa própria, um trabalho absolutamente excecional de levantamento fotográfico sistemático do matrimónio arquitetónico e urb...

Estes tais outros "comentadores"

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  J.-M. Nobre-Correia Comparar os futeboleiros aos políticos? “Intolerável!”, dizem estes. Talvez não tanto. E significativo de uma situação… Foi um alarido nos bastidores doirados do poder. Ousarem compará-los a “comentadores” futeboleiros! O que essas más-línguas querem é acabar com a liberdade de expressão e desencadear uma nova fase da antipolítica, do antipartidos. Como se eles, militantes, mandatários públicos e mesmo altos dignitários do aparelho de Estado, não fossem capazes de análises políticas totalmente independentes!… Que má-fé, com efeito. Alguém viu os políticos “comentadores” irem com os cachecóis dos partidos ao pescoço? E alguém os viu a insultarem-se aos gritos? Aí está a prova que não se podem confundir os “comentadores” todos! Só que, no fundo, no fundo, a natureza do serviço prestado aos cidadãos é relativamente idêntica: levá-los a partilhar a fé no partido/clube e naquilo que representa. Possa embora haver umas divergenciazitas com a direção do partido/clube...

A incerteza de uma aposta

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  J.-M. Nobre-Correia Lançado há duas semanas, o mais recente diário italiano constitui uma novidade editorial. Fará ele data na história ?… Nunca há certezas nesta matéria. Muito menos quando o projeto marca uma clara rotura em relação ao habitual. Até porque o potencial sucesso de um jornal depende sempre de uma série de fatores internos e externos. Em termos editoriais, de organização e de gestão, como de distribuição, de contexto sociocultural, de reação dos anunciantes e até de uma atualidade inesperada. O novo diário romano  Domani  (Amanhã), lançado fará amanhã duas semanas, constitui manifestamente uma incógnita. Uma enorme incógnita mesmo, tenha ele um financiamento inicial assegurado por Carlo De Benedetti, que doou 10 milhões de euros à sociedade de edição constituída para a circunstância. E, após a fase de lançamento, o capital da empresa será transferido para uma fundação encarregada de garantir a autonomia do jornal. A leitura dos primeiros 13 números de...

Dois exemplos vindos de Itália

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J.-M. Nobre-Correia Numa paisagem impressa e digital bastante prolífica, nasce um novo diário, partindo de algumas ideias inspiradoras… Há países onde, uns atrás dos outros, os jornais vão morrendo (em Portugal, por exemplo) e outros onde continuam a ser lançados novos jornais (na Itália, no caso em apreço). Nasceu assim ontem em Roma o novo diário  Domani  (Amanhã). E duas notas são a reter no editorial de apresentação. Diz a primeira: “Os jornais imparciais não existem, os honestos declaram as próprias preferências”. Contrariamente ao que pretendem todos os “grandes” jornais portugueses que se dizem independentes e pluralistas, e são no fim de contas  melting pots  (caldeirões, misturas) incapazes de afirmar opções claras em momentos decisivos da vida nacional ou dos tempos incertos que vivemos. E, por isso mesmo, bastante incapazes de suscitar adesão por parte de potenciais leitores e sobretudo de potenciais compradores. Diz outro parágrafo do editorial: ...

Um retrato ainda bastante habitual

J.-M. Nobre-Correia Numa sociedade corroída por clivagens sociais monstruosas e uma hipocrisia despreocupada, o combate cruel e determinado de uma mulher… Estes tempos de pandemia não são nada convidativos para assistir a espetáculos. Sejam eles em espaço fechado ou em recinto aberto. Só gente irresponsável aí vai de ânimo leve. Mas havia pelo menos três razões para ir ver  Ordem moral  de Mário Barroso, nas salas de cinema desde quinta-feira 10. A primeira: Mário Barroso é um amigo, antigo companheiro de exílio em Bruxelas. A segunda: imaginava que, dado o tema, devia falar-se do  Diário de Notícias  nos primeiros decénios do século XX e talvez até antes de isso. A terceira: dado o personagem central do filme, Maria Adelaide Coelho, filha do fundador do jornal, era inevitável que fosse também evocado o seu marido, Alfredo da Cunha, que deu o nome a uma das principais praças do meu Fundão, cidade que o viu nascer. À parte o título do filme, que me parece pouco...

Uma verdadeira indignidade

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  J.-M. Nobre-Correia Nos anos 1920-1960, o audiovisual europeu foi sendo posto ao serviço dos cidadãos. Em Portugal, as agremiações tomaram conta dele… É verdade que a maioria dos portugueses não vê diferenças. Mas há quem queira pensar ainda que a televisão pública tem algo de melhor do que as privadas. Embora a programação seja igualmente indigente. E, quando não o é, trata-se quase sempre de produções estrangeiras. Até porque a produção própria é rara. Em matéria de informação, a situação é mesmo calamitosa. Até o apregoado telejornal da RTP 2 (que parece ter entrado em deriva) é criticável: as “peças” são as mesmas do primeiro canal, sem montagem e “voz off” diferentes. Os “comentadores”, incapazes de síntese, ocupam boa parte do tempo. “Especialistas” há que botam faladura semanalmente em rubricas cujo interesse é nalguns casos risível. E estes convidados são tratados por “tu” e dizem-lhes saloiamente que “é sempre um gosto” ouvi-los!… Ao que parece, há uma “direção d...