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As ambições e as realidades

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  J.-M. Nobre-Correia Desde ontem, o  Diário de Notícias  é publicado de novo todos os dias. Mas que podemos esperar deste novo-velho jornal diário?… O  Diário de Notícias  voltou ontem às bancas. Todos os dias e não apenas uma vez por semana, como acontecia desde 30 de junho de 2018, primeiro aos domingos e depois aos sábados. Regozijem-nos com tal iniciativa. Que mais não seja porque são demasiado poucos os diários ditos “nacionais” publicados no país. Mas também porque não é desejável que os cidadãos disponham, como até agora, de um único diário dito “de referência”: em princípio, o pluralismo dos média e das abordagens da atualidade tem sempre algo de positivo. O problema é o de saber se o Global Media Group dotou o jornal das condições mínimas indispensáveis para poder ser um diário “de referência” publicado sete dias na semana. Isto é: um jornal que dispõe dos meios humanos, técnicos e financeiros necessários para produzir uma sólida e pertinente cobertura...

Primeiro dia de exílio

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  J.-M. Nobre-Correia Faz hoje 54 anos que cheguei ao meu destino de exílio. Era já noite escura e chovia em Bruxelas. Não conhecia ninguém, ninguém estava à minha espera e o meu francês era então menos que rudimentar. Logo à chegada, a pega da minha mala tinha resolvido rebentar! Quem me ajudou a repará-la perguntou-me se eu era belga. Disse-lhe que não. E eu respondeu-me: “eu também não, sou flamengo”. Compreendi assim logo nos primeiros instantes que havia um problema em Bruxelas com que eu nem sequer tinha sonhado! Só, em terra desconhecida, a única referência de que dispunha era a de um artigo publicado duas semanas antes no  Diário de Lisboa  (Ver ilustração). Sob pretexto de “indicações sobre a vida dos estudantes latino-americanos na Bélgica”, eram nomeadamente mencionadas instituições dotadas de alojamentos e os respetivos endereços. O género típico de texto teoricamente desprovido de interesse num jornal português para leitores portugueses. Mas um texto que forn...

Falemos de anjinhos!

  J.-M. Nobre-Correia Falemos de anjinhos! Não de anjinhos tão em voga nesta época do ano e que tanto ilustram os mais diversos impressos da época. Nem de anjinhos para embalar criancinhas com histórias para dormir de pé. Não!: de anjinhos com carteira de jornalista, o que, digam lá!, é bem mais curioso… Pois os ditos anjinhos com carteira de jornalista andam para aí a escrever e a dizer que “Marcelo” (sic) tem mais assinaturas para concorrer às próximas eleições para a presidência da República do que outros: “quase o dobro”. E também que o tal “Marcelo” vai gastar menos dinheiro na campanha do que outros: “quase metade”. Digam lá depois que esses detentores de carteira de jornalista não são uns anjinhos?! Falam todos, todos os dias do dito “Marcelo”, quando ele fala de tudo e de nada, quando ultrapassa regularmente os seus poderes constitucionais, quando intervém na vida governamental e se permite criticar uns e outros, quando vai beber um ginjinha e todas as demais situações cari...

Reparos a propósito de entrevistas

J.-M. Nobre-Correia Depois de ter visto quatro das cinco “entrevistas” da  RTP  1 no quadro da campanha para as eleições presidenciais (não vi a do candidato de Iniciativa Liberal), queria aqui fazer uns breves reparos. É uma evidência que a atitude do detentor da carteira de jornalista encarregado de tais emissões é totalmente inadmissível em termos de pura técnica jornalística. Mas é também absolutamente intolerável no que se refere ao respeito para com os “entrevistados” e também para com os espectadores, sobretudo numa televisão de “serviço público” paga pelos residentes neste país. Se houvesse uma verdadeira direção da informação na RTP, competente e a exercer o seu papel com a devida autoridade, o entrevistador teria sido cuidadosamente escolhido. E depois de escolhido, teria sido devidamente instruído pela dita direção da informação sobre a maneira de exercer a missão para que fora escolhido. É claro que, uma vez que exerceu com total incompetência e agressividade ...

A aleatoriedade de um sonho

J.-M. Nobre-Correia Eu sei!, eu sei!: quando vemos uma apresentadora discreta e não tendenciosa na formulação das suas intervenções, como é o caso desde ontem, somos muitos, muitos a sonhar que um dos apresentadores habituais tenha finalmente desaparecido dos ecrãs da RTP! Todos sabem de que apresentador se trata: daquele cheio de tiques faciais e gestuais, que faz frases com suspenses a propósito de tudo e de nada, e que acaba escandalosamente com um piscar do olho (que nenhuma televisão com um mínimo de exigência profissional deveria tolerar). Mas também daquele que agora faz revisionismo a propósito da trágica história dos nazis em relação às futuras vítimas do genocídio. E. aquele também que ainda há dias começou por introduzir uma entrevista com o principal responsável do programa de vacinação anti-covid, fazendo afirmações factualmente falsas. Dois casos recentes que teriam provocado um afastamento de qualquer televisão decente de um país europeu de velha democracia. Eu sei!, eu ...

A rádio parente pobre da televisão

J.-M. Nobre-Correia Conhecendo as situações das rádios e das televisões públicas na Europa, tenho, no entanto, tendência a considerar que a melhor situação para a rádio é a de uma instituição autónoma. Só assim ela depende do seu próprio orçamento, dos seus próprios equipamentos técnicos, do seu próprio pessoal, de modo a decidir da sua própria programação e do seu tratamento específico da informação. Quando ligada na mesma instituição à televisão, esta tem claramente tendência a absorver em seu proveito os meios teoricamente atribuídos à rádio. A entrevista de duas páginas do presidente da RTP no  Público  de hoje é significativa. Para além de considerações gerais sobre a instituição, tudo, absolutamente tudo o que é perguntado e respondido diz respeito à televisão e unicamente à televisão. Numa das respostas, o entrevistado faz referência a “todo o universo da rádio”, nestas cinco palavras apenas, sem nada explicitar sobre o assunto. E na penúltima pergunta é finalmente abor...

Um género chamado entrevista

J.-M. Nobre-Correia O jornalismo não é uma ocupação em que se ganha a vida sem preocupações de formação ou de princípios técnicos a respeitar… Entrámos em campanha eleitoral! Estamos, pois, em tempo de entrevistas! E, dados os hábitos portugueses de consumo mediático, são as entrevistas em televisão que têm dominado as conversas, assim como os ecos que imprensa e rádio depois nos propõem. Ora as entrevistas que têm passado nas televisões generalistas têm suscitado muitas críticas. Por razões ligadas às formas de tratamento adotadas pelos entrevistadores e, por vezes, pelos próprios convidados. Por se considerar que, em muitos casos, os jornalistas são de uma intolerável agressividade. Porque o entrevistador se permite demasiadas vezes interromper o convidado, impedindo-o de concluir a sua resposta ou argumentação. Mas até porque a entrevista redunda repetidas vezes num pugilato em que as duas partes falam ao mesmo tempo. Para não falar no facto bem real de ver entrevistadores passarem ...